Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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porque vo-las explico e demonstro; mas teve de 
dizer: acreditai, porque vo-lo digo eu; e como prova, faço-vos milagres, já que isto é o que mais vos 
convence. Depois, nas coisas humanas, aparece logo a questão prática de obter o máximo resultado com o 
mínimo esforço. Ora, mesmo que o homem comum tivesse inteligência para enfrentar e resolver os 
problemas do conhecimento, ele preferiria poupar tempo e esforço, aceitando as soluções que já se 
encontram prontas, feitas por outros mais competentes e especializados. Um dos maiores problemas 
humanos é o de poupar trabalho e satisfazer a todas as necessidades próprias, inclusive às espirituais, com 
o menor dispêndio possível de energia física e mental. Onde existe um esforço muito grande para fazer, o 
homem pára. O que ele compreende em primeiro lugar é cansar-se pouco e fazer-se servir. Nisto ajuda-o a 
construção em série. Assim, já que é cansativo e difícil achar a verdade por si, o mundo vive em qualquer 
campo de verdades já feitas, oferecidas no mercado das idéias por aqueles que, por outras razões, acharam 
útil especializar-se nesse trabalho. Na prática, não se acha o grande pensador, mas o manual que, para 
nosso uso, esmiuça o pensamento em ordem alfabética. 
 
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Estabelecido o princípio de autoridade, de disciplina e de obediência a um governo central, tende 
assim a religião a transformar-se numa grande maquina burocrática, constituída de homens que 
disciplinam o seu trabalho na forma regular de administração. Desponta então o instinto humano 
expansionista que, se nos estados fortes assume a forma de imperialismo, realizado com a guerra, nas 
religiões tem o aspecto de proselitismo, para aumentar o rebanho. Rebanho significa criação de ovelhas 
em série, ou seja, produção de um dado tipo de fiéis, para os quais já está estabelecido como devem 
pensar, em que precisam crer, e o que é mister fazer. Só assim pode obter-se a disciplina indispensável 
para que o soldado possa ser enquadrado e o exército possa começar a marchar organizadamente. Para 
quem lê o Evangelho, pode parecer absurdo que dele possam tirar-se estas conseqüências. Mas a culpa 
não é do Evangelho, e sim do mundo que impõe suas leis a quem quiser entrar em seu terreno. 
Certamente, para ser vivido como ele é, o Evangelho exigiria um mundo de santos. Mas isto não existe na 
terra, e, mesmo que pudesse formar-se um governo de santos no mundo religioso, esse governo seria logo 
liquidado pelos métodos humanos. Assim se explica por que as religiões tendem a tomar a forma que lhes 
e imposta pela natureza humana e pelas condições do ambiente terrestre. 
 
Formou-se, assim, o modelo estandardizado do crente disciplinado e obediente, nos pensamentos e 
nas obras, o tipo do perfeito ortodoxo. Ele aceita tudo sem discutir, não importando se não entende. A 
compreensão é um fato interior, pessoal, difícil de controlar, ao passo que discutir tem sabor de revolta e 
semeia escândalo. Mas o indivíduo comum foge desse esforço. Seus instintos e objetivos são outros. Sua 
psicologia é utilitária e simples. Cada um quer viver depois da morte, e viver o melhor possível, como 
procurou fazer na terra. Ora, as religiões ensinam que, fazendo certas coisas, depois se vai ao paraíso, e 
fazendo outras vai-se sofrer no inferno ou alhures. O raciocínio da própria alegria ou dor é compreendido 
por todos. Façamos então aquelas coisas que nos trarão vantagem, mesmo se custam um pouco de 
esforço; e não façamos as que nos trazem prejuízo, embora custe isto um sacrifício. É opinião corrente 
que esse cálculo corresponda, depois, aos fatos; isto é afirmado por grandes autoridades, e, portanto, acei-
temo-lo. Além disso, ninguém mesmo sabe, com segurança, por experiência própria, como se passam 
realmente as coisas. Seguro é só aquilo que temos hoje em mão. Assim raciocina o homem prático, apto a 
viver na terra. Já falamos desse materialismo religioso, pelo qual qualquer coisa, na terra, tende a ser 
concebida materialisticamente e a ser transformada nesse sentido. 
 
Que podem, no fundo, as religiões? Algumas práticas exteriores, alguns possíveis sacrifícios e 
deveres, crer ou não crer em algumas coisas, que é bem difícil controlar se são verdadeiras ou não; aliás, 
coisas longínquas que pouco tocam na realidade da vida. Feitas as contas, convém fazer esses pequenos 
esforços, em vista de uma utilidade futura, que também poderia ser verdadeira. Por que, então, não fazer 
tudo isso, quando, além do mais, pode obter-se com isso estima, confiança, que se concedem às 
respeitáveis criaturas que pensam bem, se não mesmo poderes e honras? Por que não agir assim, quando 
isto pode salvar-nos a alma na outra vida, enche-nos de bênçãos nesta, e agir assim não faz mal a 
ninguém: ao contrário, é um bom exemplo, louvado como virtude? Assim surgiu a acomodação, e o 
acordo é completo dos dois lados: as religiões mantêm a sua unidade na disciplina e obediência dos fiéis; 
e estes, com pouco incômodo, calculam obter uma boa vantagem. 
 
Surgem as dificuldades quando aparece o indivíduo que quer agir seriamente, e portanto exige 
chegar ao fundo dos problemas, porque ele quer pensar, compreender, e finalmente resolver, já que ele 
tenciona, depois, viver a sua fé. Ser ortodoxo no caso comum é fácil. Trata-se de dizer que se crê, dizê-lo 
com a boca e também com toda a boa-vontade do coração e da mente, sem dúvida de boa-fé, mas sem 
saber o que significa crer e sem compreender o significado das coisas em que se diz acreditar. Para um 
indivíduo imaturo é equivalente e indiferente aceitar esta ou aquela idéia, pois logo que se sai do terreno 
das coisas materiais, tudo se perde, para ele num oceano de pensamentos impalpáveis. Mesmo para ser 
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herege são indispensáveis certa inteligência e interesse pelos problemas que estão para além da 
materialidade da vida. Mas à grande maioria só importam, ao invés os que estão próximos e são tangíveis. 
Daí se conclui que a perfeita ortodoxia pode ser efeito não de uma fé mais viva, mas da falta de interesse, 
conseqüência implícita do estado mental que explicamos, o materialismo religioso. Então, a aceitação 
cega e completa liberta o crente de entrar em questões espinhosas, inúteis porque insolúveis para ele, e 
representa muito menor esforço sepultá-las sob o belo manto da fé, para ocupar-se, em lugar disso, com o 
que interessa muito mais, as coisas deste mundo. Quem não escolhe o caminho de menor resistência e 
cansaço? Por que não acreditar em tudo o que as autoridades ensinam, quando isto custa tão pouco e não 
traz conseqüências no terreno prático, em que está o nosso tesouro? Esse também é um modo de enfrentar 
e resolver os grandes problemas do espírito. Por isso, é fácil ser ortodoxo, quando esses problemas pouco 
nos atingem, porque se sabe que a vida prática é outra coisa, e o que nos interessa são os negócios da 
matéria e do mundo. 
 
Mas existem, embora excepcionalmente, indivíduos maduros, para os quais as coisas espirituais têm 
suma importância. Eles sabem o que significa acreditar e, para crer seriamente, precisam compreender, 
porque de sua fé dependem conseqüências importantes em sua vida, a orientação e a conduta próprias. 
Para poder agir de conformidade com a própria fé, é preciso compreender bem aquilo em que se crê. Se 
não for assim, chamemos fé não a um conhecimento preciso, apto a guiar-nos, mas a um vago nevoeiro 
que permanece nos céus sem interessar nem atingir a nossa vida. Estes amadurecidos não têm medo de 
pensar e de esforçar-se contanto que chequem à verdade, e a uma convicção própria profunda. Eles não 
podem desinteressar-se