Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
104 pág.

Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


DisciplinaIntrodução à Teologia e História da Teologia91 materiais1.846 seguidores
Pré-visualização50 páginas
os problemas longínquos do espírito, é 
indispensável haver lugar também para os que vivem próximos da matéria. Mas eis que surge uma 
conseqüência gravíssima: assim tem direito de ingresso numa religião,
 
que deveria ser coisa espiritual, 
esse mesmo mundo que o Evangelho condena tão explícita e energicamente. As íeis e os tão condenáveis 
métodos do mundo se acham numa posição legítima, em sua própria casa, aí justamente onde jamais 
deveriam comparecer. Mas então, se quisermos ser coerentes, temos de, pelo menos, reconhecer que, por 
enquanto, o Evangelho não precisa ser aplicado, porque nas condições atuais humanas ele é inaplicável. 
Mas reconhecer essa sua inaplicabilidade não o fará tornar-se utopia, e sua descida na terra uma falência? 
 
As religiões, que deveriam ser coisa espiritual, acima das lutas terrenas, estão imersas no mesmo 
conflito, próprio a todas as formas de vida no planeta, e têm que albergar em seu seio os que lutam pela 
supremacia material, que comandam e se fazem obedecer impondo-se às consciências. Os que deveriam 
ser banidos deste terreno, já não são mais tolerados como mal e erro, mas incorporados como úteis e 
indispensáveis. Estes, que ao menos deveriam reconhecer sua posição ínfima, subordinada à do espírito, 
muitas vezes na história assumiram, e fixaram sua posição como predominantes, à custa da posição 
espiritual, diante da qual eles poderiam no máximo ser suportados como um meio. Então as posições são 
invertidas e no próprio centro do terreno, reino do espírito, entra, vence e governa justamente o inimigo 
condenadíssimo: o mundo. Que significa isto? Mas então a lei de Deus, para conseguir realizar-se na 
terra, teve de inclinar-se diante da lei dos homens? 
 
O conflito entre Evangelho e mundo, se neste mesmo mundo parece mais calmo, porque é o inferior 
que vence,
 
torna-se vivíssimo no seio das religiões, porque aí nos encontramos no terreno em que o 
espírito se sente mais em casa e mais faz valer seus direitos. E quer fazê-los valer precisamente na terra, 
que é justamente a pátria de seu adversário, o mundo. É natural que este resista, porque não quer ser 
destronado, mas continuar dono do campo, com os próprios sistemas. Neste mundo caiu o Evangelho. 
Que acontece então? 
 
Numa escola, sem dúvida, o mestre tem de ensinar. Como seria belo se pudesse fazê-lo com amor, 
armado apenas de bondade e amizade, como ensina o Evangelho! Mas se os alunos são rebeldes, como 
poderá ele agir, no interesse mesmo deles e do próprio ensino, senão com uma autoridade e sanções que 
lhe permitam manter a disciplina? Sem dúvida que o ideal seria o respeito às consciências e à 
personalidade individual, ou seja a posição que está nos antípodas do absolutismo dogmático, feito de 
autoridade e disciplina. Mas é também verdade que não se pode respeitar a liberdade de um selvagem, 
porque, se o fizermos, ele se aproveita disso para matar-nos. E então, quem realizará a missão de 
civilizá-lo? Demonstramos, neste volume, que existem as armas do Evangelho. Mas tão grandes forças 
será que se adaptam aos pequeninos usos comuns, e depois, chegam todos a possuí-las e manejá-las? Se 
elas não estão ao alcance de todos, como contar com elas? E então, como pode o homem comum deixar 
de recorrer às que lhe são acessíveis, as oferecidas pelos sistemas do mundo? 
Evolução e Evangelho Pietro Ubaldi 
 
 43 
 
Como pretender que todo um grupo de homens, como é o organismo que na terra dirige uma religião, 
pudesse apoiar-se apenas em meios sobre-humanos, acreditando poder ir para frente somente à força de 
prodígios? Não poderiam eles pensar que isso constituiria, diante de Deus, a maior das presunções, e que, 
justamente, essa falta de humildade paralisaria a ajuda, sendo portanto mais positivo não confiar nelas, e 
apoiar-se, ao contrário, em base mais sólidas: as próprias forças, poucas, mas seguras? Era mais prático 
recorrer aos métodos já experimentados no mundo, cuja técnica e resultados,
 
já se conheciam, tanto mais 
acessíveis, quanto mais correspondentes à própria forma mental, e tanto mais espontâneos quanto mais 
radicados nos próprios impulsos e instintos. Não é fácil que homens comuns encontrem prontamente a 
força e a coragem de abandonar-se, como quer o Evangelho, à Divina Providência! Como vencer a 
tentação de tomar a estrada de todos, se a própria natureza dos alunos o impunha, como único caminho 
para conseguir realizar a própria missão, que era a de mantê-los disciplinados, obedientes à lei, que 
deveria fazê-los ascender, para salvá-los? 
 
 Com a melhor boa-vontade, não era possível satisfazer a todas as exigências opostas. Se se quiser 
ser práticos, usando os sistemas do mundo para atingir a realização dos princípios, então se acaba 
limitando a liberdade do ser. É verdade que não se pode dar-lhe essa liberdade, porque ele faria dela mau 
uso, com prejuízo seu. Mas assim tende-se a fazer do ser um autômato. Privamo-lo da experiência feita à 
sua custa, a única que verdadeiramente ensina; e então, como pode aprender? É verdade que o pai 
amoroso que sabe, deveria impedir que o filho caísse nos perigos, mas é também verdade que os filhos 
protegidos demais crescem sem experiência, indispensável para não cair nesses perigos. Se, para ensinar, 
tirarmos a livre experimentação, substituindo-nos à escola da vida, então impediremos que ele aprenda e, 
ao invés de ajudar a evolução, nós a deteremos. 
 
Como se vê, a liberdade é fundamental, tem uma função sua, importante, e como tal deve ser 
respeitada. Tirando-a, são criados escravos ou rebeldes. É mister, ao contrário, ensinar a saber usar bem a 
liberdade, para que se possa concedê-la sem prejuízo. A disciplina pode ser imposta aos menos 
amadurecidos só para seu bem. Logo que eles progridam um pouco mais, a liberdade será um direito 
deles. A lei da vida é a evolução e esta leva ao sistema, a Deus, a quem não se pode chegar senão livres,
 
e 
jamais como autômatos. É indispensável então reconhecer que, admitindo-se a disciplina que tende a 
fabricar o escravo autômato, isto só é tolerado de momento, porque o objetivo último é construir o 
homem consciente, que sabe livremente autodirigir-se. Então, a restrição da liberdade constitui só um fato 
transitório, destinado a ser gradualmente eliminado, concedendo-se progressivamente liberdade, em 
proporção ao conhecimento adquirido, e na medida merecida, que dê garantia ao seu bom uso, desde que 
seja liberdade útil, e não prejudicial. Quem dirige as almas, deve estar do lado das forças do bem que, se 
tiram, não o fazem para tirar, mas para dar; se limitam, é para depois conceder liberdade; forças que, 
mesmo que pareçam fazer o mal, fazem substancialmente o bem. 
 
 
 
 
V 
 
A IGREJA 
 
 
Exigências ideais e exigências práticas da Igreja. Na terra, 
Evolução e Evangelho Pietro Ubaldi 
 
 44 
ela venceu, ou foi vencida? O inferno, triunfo definitivo das 
potências do mal, e a lógica da salvação. O Comunismo, 
perigo externo. A justiça social, não realizada em dois mil 
anos, ponto vulnerável em que o inimigo ataca. O 
Maquiavelismo, perigo interno. Os dois padrões e as duas 
lógicas. Simbioses com o inimigo. Os perigos do jogo duplo. 
A gravidade da hora. Perder a batalha da terra, para vencer 
a do céu. A dura operação do salvamento forçoso. 
 
 
 
Procuremos agora localizar mais exatamente o problema, para ver como a organização eclesiástica 
do catolicismo o enfrentou e resolveu, ou seja,
 
como desenvolveu com a sua conduta o tema que este 
volume, continuando o precedente, vem tratando, como realizou e resolveu a Grande Batalha. Este 
choque entre evoluído e