Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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de suas teorias. Não mais são possíveis 
as escapatórias do passado, nas quais o homem feroz, mas ingênuo, de ontem, acreditava; o homem 
moderno, aberto a todas as astúcias, não acredita mais. Muitas ilusões psicológicas caíram após serem 
analisadas; a crítica revelou o verdadeiro conteúdo dos produtos da explosão de nossos instintos. O 
mundo quer saber como são cozinhados os alimentos que lhe são oferecidos. O positivismo científico 
despiu a verdade de todos aqueles mantos barrocos extravagantes e nos fez tocar algo de sólido. É pouco, 
mas o progresso científico, é, já hoje, a única coisa em que a humanidade acredita seriamente. A 
conquista da energia movimentou tudo, até a estática conceptual de outrora se dinamizou. Prevalece hoje 
o conceito de uma verdade relativa em evolução, que é também uma transformação, o fruto de uma con-
quista progressiva. A pretensão do homem de atingir a verdade com os próprios meios,
 
pelos resultados 
obtidos com as descobertas científicas, autorizou-o a desinteressar-se da verdade transcendente revelada, 
que, parece, já secou há séculos, não dando mais novos frutos. A vida, que não pode morrer, parece ter-se 
transferido para outra árvore. O homem tem fé em outras coisas. Quem se entrincheira no definido e no 
definitivo, permanece aí congelado e abandonado ao passado da vida que caminha lógica do imóvel 
absoluto foi substituída pela do relativismo em movimento. Na crise profunda que sacode e renova os 
alicerces do velho pensamento humano, não podem deixar de ser arrastadas também as religiões. 
 
Nada resolve uns lançarem as culpas sobre os outros; apenas devemos procurar todos juntos a porta 
de saída para todos. É preciso ter a coragem de erguer-nos por nós mesmos, se não quisermos ser erguidos 
por força das leis da vida. É indispensável deixar as espertezas e acomodações e falar claro, com 
sinceridade e honestidade, reconhecendo onde se pode estar errado, para não continuar a errar e depois ter 
de pagar. Encobrindo, nada se salva, porque o erro continua a piorar, se escondido. Se continuarmos a pôr 
estuque e pintar a casa do lado de fora, para que apareça bela, enquanto por dentro está caindo, ela 
terminará ruindo sobre nós. Encontrar-se-ia talvez nessas condições a Igreja católica? Observemos o que 
está acontecendo, não para condenar, mas para achar um caminho de salvação. 
 
Dois grande inimigos ameaçam hoje a Igreja: 1) O comunismo do lado de fora, que avança, 
agressivo, e contra o qual ela está em posição de defesa. 2) Um secular maquiavelismo do lado de dentro, 
e que constitui a sua fraqueza, representando aquela derrota do Evangelho e vitória do mundo,
 
de que 
acima falamos. Deste modo,
 
estão agora amadurecendo as conseqüências. Observamos os dois pontos, a 
começarmos pelo primeiro. 
 
Quando a inteligência da história permite que as forças do mal tomem um desenvolvimento 
excepcionalmente agressivo, isto significa que a evolução para poder avançar,
 
precisa do seu trabalho de 
destruição para limpar o terreno de todas as construções velhas e erradas. Essas forças, especializadas 
nesse trabalho a serviço do bem, demonstram-se bem hábeis em descobrir o ponto fraco, o que mais atrai 
o seu instinto de destruição, assim como os micróbios das doenças agridem de preferência no ponto mais 
fraco os organismos macilentos. Seria preciso não ser fraco e não oferecer ao inimigo pontos vulneráveis. 
Estes representam o nosso débito, que temos de pagar, e as forças destrutivas se encarregam de nos 
cobrar. 
 
Ora, o comunismo descobriu qual é o calcanhar de Aquiles da Igreja, isto é, que ela pactuou com o 
mundo, colocando-se no nível deste, deixando escapar de suas mãos o poder das armas espirituais. Da 
parte dos agressores é sentida, mesmo sem compreendê-la, essa fraqueza, e eles querem aproveitar. O 
programa do Evangelho não era o da justiça social? E que se fez em dois mil anos para consegui-la? Foi 
preciso que a revolução francesa interviesse, para corrigir os abusos a que se chegara, justamente na 
direção oposta, fruto da aliança do clero com a aristocracia. Por que, com esse sistema, deixar escapar um 
grande programa, que deveria ter permanecido, para ser aplicado? Dessa forma, ele caiu em outras mãos, 
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nas de quem teoricamente, pelo menos, o professa, e com isto faz prosélitos, utilizando-o como ideologia 
de propaganda. Assim um dos pontos fundamentais do programa de Amor e justiça do Evangelho volta 
agora,
 
em forma invertida, como uma espécie de reação punitiva,
 
para o lugar de onde deveria ter partido, 
e volta para destruir aquele órgão que deu provas de ter sido muito fraco e de não ter sabido executar a 
sua função. O que não foi feito espontaneamente por si mesmo, é agora imposto à força pelos outros. 
 
Se a Igreja não tivesse pactuado com o mundo e não tivesse aceito o seu poder terreno, hoje o 
comunismo nada teria de dizer nem para atacar, porque a justiça social já teria sido realizada. Aceitar as 
ofertas do mundo e possuir o seu poder, pode parecer uma vantagem. Mas quem assim procede 
envolve-se com o sistema relativo de que mais tarde precisará fatalmente suportar a lógica e as 
conseqüências até ao fundo, como vimos. E é isto justamente que está acontecendo hoje. Descobrir e 
acusar os defeitos do inimigo, lançar-lhe em cima as culpas que ele tem não nos liberta das nossas culpas 
nem da necessidade de pagá-las. Cada um assume a própria responsabilidade. 
 
Será que um católico, que se defende do comunismo, jamais pensou no que tenha feito a Igreja em 
dois mil anos para impedir que ele nascesse? E em vez de reclamar e condenar, não pensa que para vencer 
o comunismo, o verdadeiro modo de combatê-lo, seria já ter realizado o seu programa, ou pelo menos 
arrancá-lo às mãos comunistas para realizá-lo em seguida? Para vencer um inimigo na parte errada, é 
preciso não ser vulnerável na parte em que ele tem razão, a fim de não oferecer o flanco às suas 
acusações. Para repreender as culpas dos outros, é preciso não as possuir no mesmo terreno. Para poder 
pregar um dever, seria preciso primeiro cumpri-lo. Como se pode lançar a pedra, quando não se está sem 
pecado? Ter-se-ia o direito de condenar, desde que já se tivesse feito alguma coisa para realizar a justiça 
social. Condenam-se os métodos de violência que constituem a culpa da parte oposta, enquanto se poderia 
responder que a história, para atingir um estado de mais justa distribuição econômica, teve de confiar aos 
elementos piores, para que o executassem com a força, aquele mesmo programa que era destinado aos 
elementos melhores, e que deveria ter sido executado com a bondade, por força do amor. 
 
Assim ambas as partes lutam no mesmo plano humano, como seres do mesmo tipo e plano biológico, 
cada um acusando e condenando as culpas do outro, em vez de procurar libertar-se das próprias. O 
método é igual: procurar mostrar os erros alheios e esconder os próprios. Mas qual a verdadeira razão de a 
Igreja tão energicamente combater o comunismo? Será por que \u2014 conforme diz \u2014 este é irreligioso e 
ateu, por que insincero e violento, ou por que ele é anticapitalista? E de outro lado, se o comunismo 
assalta a Igreja, fá-lo porque ela é espiritual e crente, idealista e pacífica; ou por que, com o pretexto da 
justiça social e do anticapitalismo, quer apossar-se de seus capitais? No caso do choque entre comunismo 
e democracia, parece, e até mesmo se afirma, que se trata de um choque de ideologias. Mas como nos 
achamos diante do mesmo tipo humano, é muito mais verossímil que o verdadeiro móvel de todos seja o 
interesse, a avidez, o espírito de domínio, o desejo de poder. Não agem todos da mesma forma? Cada um 
não se coloca do lado do ideal e da justiça, naturalmente