Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
104 pág.

Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


DisciplinaIntrodução à Teologia e História da Teologia91 materiais1.847 seguidores
Pré-visualização50 páginas
será 
liquidada como é de justiça fazer-se com os fracos e vencidos. Esta é a força lógica das coisas, e não há 
poder humano que permita sair disso. Portanto, um método único existe, com o qual pode a Igreja 
combater e vencer a atual batalha, e já vimos qual é. 
 
Mas, no fundo, se olharmos o que aconteceu no passado, o que acontece agora e o que deverá 
acontecer, só podemos admirar a sabedoria de Deus que tudo dirige e salva, utilizando os elementos que 
se acham disponíveis no mundo. Assim tudo se explica a seu tempo e no devido lugar. A imperfeição 
humana escapam erros e a história traz-lhes remédios,
 
impondo o necessário corretivo,
 
executando a 
dolorosa operação salvadora. 
 
Bem ou mal,
 
a Igreja conseguiu chegar até hoje, através do tempestuoso oceano da Idade Média. Pa-
ra chegar a isto, interessou-se antes de tudo em salvar-se como instituição e como unidade, exigindo para 
isso disciplina e obediência como autoridade, mais do que cuidando do aprofundamento dos princípios, da 
solução dos problemas do conhecimento, da evolução do pensamento e das consciências. Achou assim 
que talvez fosse melhor não tocar na casa de marimbondos de problemas tão espinhosos, difíceis, sempre 
controvertidos, de solução própria, inatingível, enquanto permanecia mais acessível e agradável ao povo a 
faustosa encenação do rito, da arte, da suntuosidade dos grandes templos. Desta forma, as massas, mais 
satisfeitas, aderiam com maior facilidade. Mas também a exterioridade e a forma, qualidades do mundo, 
venceram, substituindo-se à interioridade e à substância, e a Igreja se foi esvaziando de seu mais precioso 
conteúdo que é o espiritual. No barroco, encontrou o seu estilo e o aceita, sem ao menos suspeitar o 
verdadeiro significado dele, que é o de ser a mais ofensiva expressão da vitória da exterioridade mundana 
e do vazio interior. Com o barroco fixou-se na Igreja e ainda aí permanece: o teatral e o fantástico em vez 
do simples, o confuso em vez da sinceridade, o artifício no lugar da verdade, a ficção em vez do 
superamento, no espírito a materialidade da vida dos sentidos. Estilo que exprime uma época e sua forma 
mental. Assim, a arte religiosa torna-se humanamente esplêndida, pagãmente grandiosa e espetacular, em 
vez de humilde e crente. E tudo isso ocorre com tanta convicção, que nem sequer se percebe a 
contradição, e surge vontade de perguntar: mas será que a Igreja percebeu o desgarramento, pelo qual a fé 
Evolução e Evangelho Pietro Ubaldi 
 
 54 
se tornou uma exterioridade? De tal forma o mundo venceu o espírito,
 
que ninguém mais vê que tudo está 
extraviado, e, mesmo fora, estão persuadidos de continuar no caminho certo e que esta é uma ótima 
expressão do pensamento do catolicismo. Dessa maneira, a psicologia do mundo e do paganismo entra 
nas igrejas e aí fica, funde-se com a religião e adormece o espírito, envolvendo-o na magnificência de 
seus planejamentos. 
 
Assim foi a Igreja navegando pelo mar do tempo. Sacudida pelo assalto da reforma, organizou a 
contra-reforma, levada por um só instinto: sobreviver de qualquer modo. O trabalho mais urgente e a 
maior preocupação foram as de salvar a instituição, mais do que a fé, e a de salvar a fé que se tornou 
instrumento para salvar a instituição. Ocorreu então que o meio terreno se tornou meta, e a meta celeste se 
tornou meio. 
 
Dessa inversão derivou um fato grave: a Igreja teve de assumir uma posição negativa, de defesa \u2014
que ainda mantém \u2014 colocando-se assim numa posição de grande desvantagem, pois é um fato que a 
posição positiva pertence hoje ao inimigo que passou ao ataque. Como se explica isto? Tudo é lógico. A 
Igreja pode ser afirmativa apenas em seu terreno, ou seja, no espírito. Tornando-se potência terrena, 
desviou o seu centro vital para o lado oposto, do mundo, que ela assim reconheceu e aceitou; 
transplantou-se para o campo do inimigo, colocando-se assim no rol das coisas humanas. Se com isto 
conseguiu a vantagem imediata de tornar-se presente e afirmativa naquele plano de vida, que não é o seu, 
isto a tornou ausente e negativa no plano próprio, o do espírito. Enquanto a Igreja julgava conquistar 
novos poderes, este fato a privava de sua força maior, porque a reduziu ao nível das instituições terrenas, 
que desta maneira a podem tratar de igual para igual, como potência do mundo, nada mais. Pode ter 
parecido uma astúcia vantajosa, a de querer colocar-se também nesse outro terreno, o do mundo; mas no 
fim, tudo se reduziu a uma traição, e desse lado nada mais se podia esperar, como bem avisa o Evangelho. 
Essa posição negativa significa o esvaziamento espiritual da Igreja, o que quer dizer perda de seus 
maiores poderes, isto é, achar-se em posição de fraqueza e vulnerabilidade, justamente na luta em que se 
procurava vencer. A troca foi muito desvantajosa: de um organismo espiritual superior reduzir-se a uma 
instituição humana; assumir uma posição terrena, que não é a sua, e portanto de inferioridade, enquanto a 
posição da Igreja, como espiritual, deveria ser de superioridade diante de qualquer organização humana. 
Saindo do terreno próprio,
 
e transportando-se ao do mundo, aceitando as armas do inimigo, a Igreja 
iludiu-se, acreditando poder afirmar-se melhor com isto. Por haver renunciado,
 
porém, à própria 
superioridade espiritual e às armas do espírito em que residia toda a sua força, desceu ao nível das coisas 
terrenas, perdendo aquelas armas, e ficando com outras que não são as suas,
 
que não pode usar, numa luta 
desigual com quem as possui como próprias, e as pode usar e com elas sabe tornar-se bastante forte. 
Podemos assim explicar-nos tudo, ou seja, como a Igreja se enfraqueceu tanto hoje, pelo menos como 
potência espiritual; como, diante do inimigo que se movimenta para o ataque, ela se acha em posição 
negativa, em atitude de defesa, que, pode, a cada momento \u2014 como num exército que não esteja bem 
armado \u2014 transformar-se numa fuga. 
Mas, conforme dissemos,
 
não pode pretender-se que os homens sejam todos gênios que saibam 
prever a séculos de distancia, nem que sejam todos heróis,
 
querendo escolher para si mesmos os caminhos 
mais árduos e difíceis. Mas, então, por isso se deteria o progresso e se concederia à insipiência humana 
tanto poder,
 
que paralisasse a evolução da vida? E então, como resolver o problema? Quando a 
imperfeição humana chega a comprometer o fatal desenvolvimento dos planos da história, então entra em 
jogo a inteligência desta que, com acontecimentos apropriados, constrange a passar pela estrada estreita e 
espinhosa,
 
aquela que o comodismo nos fez antes evitar, mas que é necessário percorrer para chegar à 
salvação. Então, Deus abre as portas do inferno,
 
de modo que todos os diabos desencadeados saiam para 
agredir a quem errou; em outros termos, deixa livres, para explodir, as forças do mal, que se tornam 
instrumento da justiça divina, para que se realize a operação cirúrgica de limpeza e cura. O mal funciona a 
Evolução e Evangelho Pietro Ubaldi 
 
 55 
serviço do bem, e chegam destruição e dor para recolocar-nos na posição devida, fazendo triunfar o 
espirito. Assim, aqueles diabos desencadeados e cegos trabalham intensamente para que Cristo triunfe. A 
salvação que poderia ter sido feita por obra de inteligência e boa-vontade, e que não foi feita, agora se faz 
pela força. Trata-se apenas de um caminho mais doloroso e mais longo. Mas o objetivo é alcançado do 
mesmo modo. Ninguém pode deter a história e o progresso. Mesmo o que o homem possa fazer todas as 
coisas, não obstante tudo continua a funcionar perfeitamente na perfeição de Deus.