Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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permanecerá um mistério cheio de incógnitas. Conceito metafísico, o no entanto, tão íntimo aos seres, 
inclusive a nós, humanos, e que em todos grita e sabe realmente fazer-se compreender e obedecer muito 
bem, por meio de um instinto irrefreável de melhoria e ascensão, em que se exprime a grande chamada de 
Deus a todas as criaturas. 
 
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Não faltam, todavia, as objeções a essa concepção telefinalística. Mas o fato é que, mesmo 
parecendo que elas a possam abalar nos pormenores, elas a confirmam nas linhas gerais. Observa-se que, 
na evolução da vida, a natureza procede por tentativas, e não com a segurança de um plano pré-
organizado. A técnica da tentativa contrasta completamente com o conceito de telefinalismo e o 
desmente. Se fosse verdadeiro aquele conceito, a evolução deveria caminhar retilínea e segura. Ao invés, 
ela avança incerta, como quem não conhece absolutamente o caminho a seguir; sua tendência a progredir 
é falaz, como de quem não sabe aonde quer chegar Ela tende a subir, mas erra, corrige-se, pára, toma 
outra estrada, retrocede, depois recomeça e continua a subir. Muitas formas, inúteis como resultado final, 
permanecem abandonadas, mortas, nas margens do grande caminho. Por que esses erros, essas tentativas 
sem êxito? Naufraga com isto o poder do telefinalismo? E, vindo ele de Deus, como pode falir em tantos 
pontos? Vemos que sua sabedoria não está absolutamente presente na evolução, que não conhece nenhum 
telefinalismo. 
 
Ao invés de uma consciência organizadora, dá-nos tudo isto a sensação de um cego à procura de luz, 
apalpando as paredes de sua prisão para achar a porta de saída para formas de vida menos duras e mais 
livres. Por que esse esforço de evoluir, com risco próprio, expondo-nos a todos os perigos? E o poder 
diretivo dirige o quê, se fica impassível a olhar? Parece ser fraco, incerto, quase ausente, ou, no máximo, 
presente apenas como um vago e longínquo chamamento que o ser sente como uma ânsia confusa, que só 
pode realizar-se através de seu esforço mais árduo. 
 
E no entanto, podemos responder, quantas coisas conseguiu a evolução construir com essa sua 
enganadora técnica da tentativa Em última análise, com suas maravilhosas construções, a vida 
demonstrou que sabe responder a esse íntimo chamamento telefinalístico. O esforço árduo nos levou até 
aqui, onde nos achamos hoje no caminho da evolução, as dificuldades foram superadas, a vida triunfou 
sobre todos os erros e obstáculos, seus objetivos foram atingidos Pelo nosso comodismo, somos levados a 
conceber a presença de Deus fazendo tudo com seu infinito poder (aliás, isto nada lhe custa), 
poupando-nos um cansaço que nos custa muito. Mas, ao contrário, a presença de Deus em nós é uma 
conquista que temos de fazer com esforço próprio, merecendo-a pelo fato de saber subir até Ele. Então, 
esse imperativo telefinalístico não é um elevador, dentro do qual nos sentamos para sermos levados para o 
alto, mas é uma escada que precisamos subir com as próprias pernas. Não se trata de fazer-nos arrastar 
preguiçosamente pela vontade de Deus, mas de reconstruir por meio de nosso trabalho, de acordo com a 
vontade de Deus, uma perfeição perdida, que permaneceu como recordação e nostalgia de reconquista, 
impressa na profundidade do ser. 
 
Há tanta miséria de fraqueza e ignorância nessa cegueira da tentativa,
 
e no entanto aí vemos também 
a mais profunda sabedoria, que sabe erguer-se e ressurgir de todas as quedas, transformando cada erro e 
falência num aprendizado para aprender a subir. Na evolução, vemos agir as suas forças opostas, a do 
anti-sistema e a do sistema, que disputam o campo. A primeira, negativa, para corromper e paralisar a 
subida; a segunda, positiva, para curar e fazer progredir. A miséria da fraqueza e da ignorância pertence 
ao ser que deve subir, desde o fundo. A riqueza de poder e sabedoria pertence a Deus que o chama e ajuda 
a subir. Explica-se assim como a técnica da tentativa não destrói absolutamente a presença do 
telefinalismo na evolução. 
 
Se tentativa significa incerteza, também quer dizer tendência para uma finalidade. A presença dessa 
técnica poderá indicar-nos a imperfeição do método, mas não a ausência de um fim; poderá ligar-se a um 
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telefinalismo difícil de realizar-se, porque cheio de obstáculos, mas não uma falta de meta. Se 
caminhamos até aqui, isto significa que existe uma estrada na qual se caminha. A tentativa exprime, 
justamente, o esforço para alcançar qualquer coisa. O acaso não tende a nenhum ponto particular, nem faz 
esforços para atingi-lo. Ele não tem finalidades não luta por alguma coisa,
 
é imparcial e indiferente. Ao 
contrário, a evolução manifesta-se \u2014 além das paradas e desvios \u2014 como o efeito de uma atração lenta e 
sistemática, que faz movimentar-se em determinada direção. Apesar da técnica da tentativa, o fenômeno 
está intimamente auto-orientado por um impulso seu animador que tenazmente o solicita sempre na 
mesma direção. E eis que as objeções contra a concepção telefinalística, ao invés de destruí-la, a 
reforçam, obrigando-nos a observar com exatidão cada vez maior. Continuemos a observar esse grande 
fenômeno da evolução, para compreender-lhe cada vez mais o significado profundo. 
 
Já notamos que seu ponto de partida é um mundo de inumeráveis irregularidades individuais, que 
desaparecem numa regularidade coletiva de conjunto, que se revela por leis estatísticas ou de probalidade. 
Ora, essa ordem de massa, que deriva de uma desordem de base, só pode levá-la sozinha ao nivelamento 
das diferenças individuais, eliminando o individualismo. A evolução, ao contrário, tende à diferenciação, 
ao assimétrico, à distinção por formas definidas, e à coordenação dos elementos componentes. Eis que o 
princípio de base é invertido. Ora, o cálculo das probabilidades prova a impossibilidade prática de atingir, 
com aquele sistema de desordem básica, e de ordem de massa, uma sucessão de fatos cada vez mais 
assimétricos e irregulares. E na biologia os tipos conservados são exatamente aqueles constituídos pela 
maior complexidade e assimetria, justamente os que são mais improváveis estatisticamente, mas que em 
contrapartida são os mais avançados em direção à meta. 
 
É verdade que, nas sociedades de unidades biológicas, as leis estatísticas tornam a regular os maiores 
acontecimentos da coletividade. Mas isto é um expoente, efeito de outros impulsos determinantes, a 
serviço da evolução, e não uma causa suficiente que possa explicar-nos e ter determinado desde o início 
sua constante direção progressiva, tão tenazmente orientada que, apesar de todas as falências, chega ao 
homem e ao mundo do espírito. Do ponto de partida ao de chegada, da monera ao homem, existe um 
crescimento sistemático de complexidade e uma contínua conquista de qualidades superiores. Se isto 
acontece por tentativas, não se pode negar que estas se movimentaram sempre em uma direção 
determinada, para um objetivo certo, sem o que não se explicam os resultados finais, obtidos com a 
formação do homem pensante. Se aceitarmos como procedente o principio do acaso, ou seja, aquele da 
ação dos fatores da adaptação e seleção, jamais poderemos explicar-nos como esses fatores se orientaram, 
em média, para a construção de uma forma que é a mais improvável estatisticamente. 
 
O que não se pode negar, é que deve ter havido uma tendência prévia a evoluir em dado sentido, em 
obediência a forte chamamento. Evidentemente era necessária a ação de um poder bem grande, embora 
escondido e latente, para conduzir a nossa existência, das estradas do mundo