Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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inorgânico da matéria às tão 
diferentes do mundo orgânico da vida. O primeiro não possuía os elementos que o tornassem capaz de 
fazer, sozinho, um salto tão grande. Havia uma revolução grande demais para realizar; uma ponte muito 
longa, para atravessar o abismo e uma encosta muito íngreme para subir, para que o milagre pudesse 
ocorrer apenas com as leis e os recursos do mundo inorgânico. 
 
Mas outros fatos existem ainda. Em A Grande Síntese já falamos (cap. XLVIII, Série evolutiva das 
espécies dinâmicas), e também no volume A Nova Civilização do Terceiro Milênio (Cap. XXV, "O 
dualismo universal fenomênico"), do fenômeno da entropia, pelo qual se verifica, no universo dinâmico, 
a tendência à quietude final do nivelamento. A entropia manifesta-se como um fenômeno de cansaço no 
dinamismo universal, que culmina na uniformidade, pela completa exaustão atingida por todas as 
diferenças. Este deveria ser o fim natural do universo inorgânico, segundo suas leis, se ele fosse somente 
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isso. Com a entropia, ele tende a nivelar as desigualdades, a cancelar os valores; tende a caminhar para 
uma distribuição cada vez mais simétrica da energia, ou seja, para a diminuição e a supressão das 
dissimetrias. 
 
E no entanto, eis que aparece, neste ponto da evolução, um mundo novo, o orgânico da vida vegetal 
e animal, a caminho para outras direções, regido por outras leis e por um dinamismo de outro tipo. Este é 
dado por um princípio diferente do da entropia, pelo qual, no fenômeno vida, verificamos não uma 
diminuição, mas um incremento das dissimetrias; ao invés de uma tendência a nivelar as desigualdades e 
a cancelar valores, uma tendência a acentuar as desigualdades, a criar valores, diferenças, complicações. 
E eis que a evolução se coloca numa estrada diversa que leva não ao nivelamento dinâmico, mas ao 
surgimento de individuações autônomas que se tornam senhoras do movimento e o utilizam livremente 
para as próprias finalidades. 
 
Assistimos, assim, a um fato rico de profunda significação. Acima do universo físico, tendente à sua 
liquidação, aparece, quase numa compensação, e tendente ao seu desenvolvimento, em direção e forma 
diversa, o universo da vida. Os dois fenômenos parecem ligados por complementaridade, além de sê-lo 
por continuação. Se a vida, como dizíamos acima, pode parecer um acontecimento quantitativamente 
secundário, desprezível, pela pequena quantidade de matéria e energia que usa, entretanto a vida se nos 
apresenta como a herdeira da degradação do mundo físico e dinâmico, que ela vence por uma 
superioridade qualitativa. Paralelamente ao seu desaparecimento nos planos inferiores, parece que o 
universo quer reconstruir-se em outra forma, mais acima. Então, cada plano de existência seria antes 
utilizado para dele se derivar, por evolução, o plano superior; e depois como suporte deste, para fazê-lo 
desenvolver-se; seria depois abandonado e eliminado, logo que o ser, mais avançado, se tenha tomado 
independente. E assim que todo o anti-sistema acaba transformando-se em sistema. 
 
É assim que o dinamismo, partindo de sua imensa massa de energias cósmicas, se torna mais exíguo, 
embora de qualidade superior; pois que ele \u2014 nesse ponto da evolução \u2014 não regula mais os astros, mas 
sim a vida, que é fenômeno muito mais evoluído pela complexidade de movimentos, por um dinamismo 
agora dirigido pela inteligência, coordenado aos objetivos desta e por ela dominado, e que, assim se 
libertou do determinismo que lhe era próprio nos planos inferiores. Conquista de autonomia de 
movimento, que se liberta cada vez mais da escravidão daquele determinismo, tornando-se cada vez mais 
livre e conscientemente apto ao trabalho \u2014 agora bem diferente \u2014 de construir a vida. 
 
A matéria como a energia, os átomos como os astros, representam movimentos poderosos e velozes. 
Mas átomos e astros não os dirigem,
 
e sim os sofrem. Manifesta-se a evolução como uma conquista de 
individual independência de movimento, como uma libertação do determinismo das leis dinâmicas e 
daquilo que aparece como estaticidade da matéria. 
 
Na passagem da matéria à energia, assistimos a uma primeira libertação do movimento fechado nas 
trajetórias circulares do átomo, que assim se expandem por transmissão ondulatória. Neste ponto de 
evolução, o mundo inorgânico da matéria, chegado à fase energia, impelido pelo íntimo impulso 
ascensional, quebrou e abriu os sistemas atômicos fechados em si mesmos, e deles lançou o dinamismo 
nos espaços, em forma livre, de onda. Libertação apenas de trajetória, para projetar-se para todos os lados, 
mas ainda nenhuma superação do determinismo das leis da matéria, porque a energia não conquistou 
nenhum domínio sobre o próprio movimento nem possui liberdade para dirigi-lo. Como a matéria, a 
energia deve obedecer cegamente à sua lei, mesmo que isto se passe de forma diversa, já que o 
movimento não esta' mais fechado em si mesmo. 
 
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E nessa altura da subida que intervém o impulso telefinalístico. Abandonado a si mesmo, já o 
dissemos, seguindo o seu caminho, o mundo dinâmico chegaria a uma ordem final sua, em que, atingido o 
completo nivelamento das diferenças energéticas, se alcança o zero absoluto dinâmico, que é a anulação 
do movimento numa estase final, em que, no equilíbrio atingido pela entropia, cessam todas as 
manifestações energéticas de nosso universo. Mas a evolução não se deixa arrastar por essa estrada, que 
seria a conseqüência lógica das causas presentes no fenômeno. Ao contrário, introduz nele outras novas, 
inéditas, desviando-o para seus fins que são completamente diferentes. Assim a vida se inicia e a subida 
toma outra direção. Aquele movimento que tende a anular-se de um lado, reaparece sob forma diversa do 
outro. 
 
Na irritabilidade da célula, primeira forma de vida, aparece um início de conquista do movimento de 
forma autônoma: movimentos mínimos e lentos, (que são eles diante dos de um meteorito), mas 
dependentes da vontade do sujeito. Os movimentos precedentes continuam a girar cegos no íntimo dos 
átomos componentes, mas são tomados numa escala maior, em movimentos de que o ser não é efeito, 
como na matéria, mas é causa, como na vida. Começa, então, com a evolução, uma espécie de luta na 
libertação contra as leis físicas. As árvores se erguem, vencendo as leis da gravidade; os animais 
conquistam por terra, por água, pelo ar, seus meios independentes de locomoção, adaptando à sua 
vontade, as leis físicas para utilidade própria. Assim, como antes se pensava na descoberta das Américas, 
agora se pensa nas viagens interplanetárias. Assim se manifesta, em realizações cada vez mais poderosas, 
aquele impulso de libertação que leva o ser a apoderar-se do movimento para a conquista do espaço. Este 
é assim cada vez mais dominado, até que, chegando a evolução à fase pensamento e espírito, essa dimen-
são espacial será superada definitivamente com a do tempo, atingindo, para além delas, outras superiores. 
Então, o espírito, livre da matéria, poderá gozar, sem esforço, de um movimento próprio gratuito e 
ilimitado, como é o dos corpos celestes. Com a diferença de que o espírito não é um escravo cego do 
movimento, como aqueles corpos, mas senhor consciente. 
 
Assim, continuamente regenerado por novos impulsos evolutivos, nada se submete ao natural 
cansar-se e envelhecer do fenômeno, e tudo sobrevive, mas de forma qualitativamente destilada, em que 
se manifesta a evolução. O velho é superado, só para dar lugar a um novo melhor. Com isto, é vencida 
não só a inferioridade do passado, mas se fortifica cada vez mais sua fraqueza,