Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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corrida em que alguns tipos perecem, eliminados pela porfia, ou 
permanecem superados; outros, enfim, como o homem, passam a frente de todos. Para cada candidato a 
futura vitória, há milhares de rivais que com ele competem. O homem, ao menos até agora, venceu-os 
todos. Mas isto não basta para garantir-lhe que vencerá sempre. Se ele se desviasse do caminho, do 
telefinalismo fixado a evolução, e utilizasse os poderes de sua inteligência para rebelar-se as diretivas da 
Lei, ao invés de obedecer, então também o homem poderia perder-se; e em tal caso, como já dissemos,
 
não faltam outras espécies para substitui-lo na primazia sobre o planeta. Isto significa que as diretrizes do 
fenômeno da evolução exigem, em primeiro lugar, que o biótipo vencedor seja digno da vitória e que a 
esta corresponda um valor real. Quando um modelo de vida se demonstra inadequado à posição que 
pretende ocupar, então a inteligência diretora o lança fora, e o substitui por outro melhor; trata-se, de fato, 
de pormenores formalísticos, cuja mudança não impede, de modo algum, que os fins gerais da evolução 
sejam substancialmente alcançados. A vida caminhará de outra forma, atingirá o alvo com outras 
espécies, mas chegará de qualquer maneira aonde quer chegar. 
 
Concluindo este assunto, podemos agora dizer que temos diante dos olhos os principais elementos 
que constituem o fenômeno da evolução. 
 
Temos de um lado a sabedoria de uma inteligência que dirige. Revela-se ela em três momentos: 1) 
Imposição de um telefinalismo, como meta final do processo evolutivo, que, por um caminho ou por 
outro, tem de ser atingido. 2) Pré-organização das condições indispensáveis ao desenvolvimento desse 
processo (providência previdente). 3) Guia do desenvolvimento do ser, acompanhando-o e dirigindo-lhe o 
esforço na direção desejada, estabelecida pelo telefinalismo. 
 
Por outro lado, temos o ser que luta para subir, se debate na tentativa, cai, levanta-se, sofre, aprende, 
vence ou perde, experimentando a grande aventura da evolução. Já falamos da técnica da tentativa. Aqui 
podemos ver-lhe uma razão de ser ainda mais profunda: essa técnica é a conseqüência lógica do estado 
em que o ser caiu com a revolta, ou seja, ignorância, cegueira que impede de ver o caminho a seguir. A 
técnica da tentativa representa justamente a condenação, que consiste em ter de realizar sozinhos, como 
abandonados a si mesmos, todo o esforço de reencontrar aquele caminho; ou seja, cegos, perdidos, nas 
trevas,
 
tornar a achar a luz; ignorantes, perdidos na ignorância, reconstruir o conhecimento. Não é este o 
caminho da evolução e o progresso da humanidade? E que são as descobertas científicas e todas as 
grandes construções do pensamento, senão pedaços de conhecimentos reconquistados? A evolução 
representa para a criatura, verdadeiramente, um grande esforço e uma aventura perigosa, cheia de 
incógnitas, de lutas, de dores. Mas é justo seja assim, porque ela significa também redenção, e no alto está 
o reencontro da felicidade perdida. No entanto, Deus ajuda a evolução,
 
embora não se fazendo ver, tanto 
menos quanto a criatura menos o merece nos planos mais baixos da vida, e tanto mais quanto a criatura 
mais o merece, por ter realizado o esforço de redimir-se, subindo a planos mais altos. 
 
Assim caminha a evolução como um rio, que é livre, e entretanto tem de chegar necessariamente ao 
mar. Em ambos os casos, a coação não é exterior, mas devida ao poder dos impulsos interiores, como a 
gravitação, que é física, para a terra, no caso do rio, e espiritual, para Deus, no caso da evolução. Em 
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ambos os casos a corrente é livre, e no entanto deve obedecer a esse princípio de atração que a leva,
 
num 
caso, a descer materialmente para baixo, no outro a subir espiritualmente para o Alto. Tudo resulta 
livremente constrangido por esse íntimo chamamento irresistível. O rio,
 
como a evolução, não sabe o que 
encontrará em seu caminho. Ele deve cavar seu próprio leito, adaptar-se ao terreno, superar as 
dificuldades, ora correndo rapidamente, ora precipitando-se em cascatas, ora repousando em lagos ou 
pauis. Mas o ponto de chegada está fixado: o mar. A corrente do rio não pode escapar ao impulso que lhe 
imprime aquela atração. Também a evolução sente o chamamento poderoso que a movimenta e não pode 
deixar de responder-lhe obedecendo. Ora, como é certo que, cedo ou tarde, o rio terá de chegar ao mar, 
então é certo que, cedo ou tarde, de um modo ou de outro,
 
a evolução deverá levar o universo ao estado 
perfeito do sistema. Como no rio, cada gota d'água chegará ao grande pai de todas as águas: o mar; 
igualmente com a evolução cada ser chegará ao grande pai de tudo o que existe: Deus. Como o rio, a 
evolução é livre de escolher o caminho que quiser, mas está fechada nos limites de sua lei, que a 
constrange a caminhar, sempre para o seu ponto final. O caminho do rio não está traçado e as águas 
devem procurá-lo, mas sempre seguindo o telefinalismo preestabelecido, dessa forma acontece com a 
evolução. 
 
Esta aproximação de exemplos faz-nos compreender melhor a estrutura do fenômeno da evolução. 
Nesta encontramos liberdade de escolha, independência de ação, como se ela estivesse abandonada a si 
mesma, como parece ocorrer também com a corrente do rio. Daí, tentativas, erros, adaptações e também 
falências; mas ao mesmo tempo, repetições, salvamentos e triunfos. E o contínuo chamamento da meta 
final,
 
impresso e sentido nas mais profundas vísceras do fenômeno, que põe freios aquela liberdade e a 
dirige e guia a bom porto; liberdade que, se fora abandonada a si mesmo, sozinha, acabaria naufragando 
como uma louca,
 
na falência. Se, ao contrário, mesmo não possuindo conhecimento próprio, ela atinge 
perfeitamente a meta determinada, tornando sábia a sua liberdade, este fato só se explica pela direção 
daquela inteligência que apenas a sabedoria possui. No fenômeno da evolução, vemos balançar-se, em 
equilíbrio, impulso independente de liberdade e um impulso oposto, determinístico. No rio, como na 
evolução, não interessa muito que se siga esta ou aquela estrada (zona de livre escolha, deixada ao arbítrio 
do ser), mas que se atinja a meta (zona determinística). À evolução não importa se vai sobreviver este ou 
aquele biótipo, desde que sobreviva o melhor, e, por meio dele, triunfe a vida. 
 
Assim se realiza, através de tanta luta, a ilimitada aventura da evolução, incerta e falaz no particular, 
mas segura e vitoriosa em seu conjunto, dirigida pela lógica de seu telefinalismo. 
 
 
De um lado, ignorância e liberdade do ser, que segue a evolução; do outro, sabedoria e telefinalismo 
determinístico, na inteligência que dirige a evolução. Duas qualidades opostas e complementares, que 
harmonicamente se compensam, equilibrando-se. Deus se debruça para o ser, a fim de ajudá-lo a subir; o 
ser estende os braços para Deus em busca de ajuda. Assim, na grande obra, os dois extremos se casam e 
ela se realiza pela colaboração deles, resultado de um amplexo entre Criador e criatura. Deus atrai, 
convida, guia e dirige a criatura em seu penoso caminho. A criatura corresponde com o seu esforço para 
superar as dificuldades, suportando as dores que sucedem ao erro, executando o duro trabalho de 
reconstruir-se, renovando-se. 
 
* * * 
 
Nesta imensa perspectiva da marcha cósmica da evolução, desenvolve-se o trajeto da maturação da 
vida do homem, para sua espiritualização. O que estudamos no volume anterior é apenas um episódio, um 
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caso da grande batalha no plano humano. Mas existe uma batalha