Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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refazer a atual, mas apenas compreender sua razão de ser e suas funções, para usá-la cada vez mais com 
inteligência e bondade, como convém a um evoluído, e com cada vez menos inconsciente desafogo de 
instintos, como tende a fazê-lo o involuído. Não se trata, aqui, de anular o passado, mas apenas de fazê-lo 
ascender a um plano mais alto, como o impõe a evolução. Como se vê, damos aqui à palavra moral, o 
sentido amplo de norma ética,
 
anteposta a todos os campos da conduta humana. 
 
A qualidade da nova moral, pelo fato de ser mais evoluída, deve apoiar-se sempre mais nas forças 
positivas e construtivas, do que nas negativas e destrutivas; deve funcionar mais por convicção de que a 
disciplina leva a uma vida melhor, do que pelo medo de que a desobediência leva a uma vida pior. No 
primeiro caso, seguem-se as normas aceitas por livre-adesão convicta e por amor; no segundo caso 
seguem-se as normas impostas à força, constrangendo pelo medo. A conseqüência a que leva a primeira 
atitude é o espontâneo e pacífico cumprimento da norma; a segunda leva, ao invés, a uma obediência 
coagida, contra a qual o ser luta, procurando todas as evasões, e aceitando-a à força, até que consiga 
rebelar-se. O fato de que, ao lado de cada norma se põe, em nosso mundo, sua sanção punitiva, demonstra 
que esta é a fase em que ele atualmente está situado. Se é verdade que a moral coativa terrorística é uma 
necessidade para os tempos menos adiantados, já que não há outro meio para induzir o involuído a 
obedecer, e assim melhorar, é também verdade que esse método se torna supérfluo e até 
contraproducente, logo que o homem se civiliza. Contraproducente, porque feito de luta e cheio de atritos; 
porque, embora seja para fazer subir a vida à espiritualidade, se tenta matá-la em sua animalidade, 
excitando-se assim as suas reações, já que se põe em ação o espírito de agressividade, que atrai para baixo 
(zona a que pertence), em vez de conduzir para o Alto. 
 
A nova moral é precisamente a do Evangelho e a novidade consiste em levá-lo a sério e começar a 
vivê-lo. É superlativamente positivo e opera pelo caminho do Amor. Representa ele a moral do futuro,
 
a 
do evoluído. Corresponderá às exigências dos tempos novos, mais amadurecidos, que o compreenderão e 
praticarão. Então a nova moral, sem destruir a velha, a levará a um nível mais alto, mais livre, mais 
criador,
 
em que será demonstrada a lógica e a utilidade de obedecer. Não haverá mais em primeiro plano,
 
como sendo a coisa mais importante, o trabalho de matar, no homem, o animal. Esse trabalho sozinho 
produz apenas um cadáver e só este permanecerá se não tivermos feito ao mesmo tempo, ressuscitar o 
anjo. O objetivo da evolução é subir, e o que mais importa é construir o novo. Destruir o velho não tem 
valor, em si mesmo, mas apenas porque serve para deslocar-nos para mais altos níveis de vida. O objetivo 
de tudo é subir, e tudo só se justifica se leva à realização do supremo telefinalismo da vida, que é a sua 
espiritualização. Tudo o que é destruição anti-vital pertence aos poderes negativos do mal, ao passo que 
tudo o que representa construção vital pertence aos poderes positivos do bem. 
 
Distingue-se a nova moral da velha por haver superado a necessidade de usar impulsos negativos 
opressores anti-vitais. Não ha razão para que deva ser tão penoso e esforçado o viver espiritualmente, e se 
procure fugir dele, por considerar tão agradável e desejável viver bestialmente. Basta evoluir um pouco 
para conseguir compreender que é justamente o contrário. Basta civilizar-se um pouco para sentir náuseas 
das satisfações que formam a alegria de quem vive no plano animal. Aqui não condenamos a moral da 
revelação mosaica, em que as religiões se assemelham. Mas achamos que será inadequado aos novos 
tempos o método de coação forçada, com a qual foi necessário aplicar aquela moral à dura cerviz e aos 
instintos de agressão e revolta do antigo povo hebreu, assim como do feroz homem medieval, nosso 
próximo progenitor. Não são os princípios da velha ética que mudarão, mas o espírito com que ela foi 
entendida e ainda é aplicada. Isto nos levaria a crer que não se pode alcançar a evolução senão através da 
sufocação da vida. Mas por que a virtude deve consistir apenas no sofrimento, do qual fugimos 
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instintivamente, e não na alegria? Por que a vida espiritual deve ser concebida só como renúncia, e não 
como conquista, só como destruição e não como construção? Porque deve ser só morte e não 
ressurreição? Como pode admitir que a vida goze com a morte e não se rebele contra a sufocação? No 
entanto, se não quisermos que se rebele,
 
não é morte que se lhe deve oferecer, mas uma vida melhor e 
maior, e então todos a procurarão. 
 
O estado involuído do homem fez com que até hoje as religiões entendessem a subida moral como 
ação negativa de destruição da animalidade, ao invés de ação positiva, construtora de espiritualidade. O 
progresso deve afastar-nos da primeira forma, para aproximar-nos da segunda. O progresso neste terreno 
reside em compreender que é lógico e justo que a vida resista e se rebele contra os assaltos que procuram 
diminuí-la. Assim se encontra a origem da luta, tanto mais que estamos num plano em que esta é a lei da 
vida, lei que vemos aparecer também no campo da ética. Acontece então que a própria ética por si mesma 
se torna um instrumento daquela luta, em defesa dos direitos adquiridos com a força do vencedor: ética 
não de justiça, imparcial, mas em defesa de interesses de classe,
 
o que excita os deserdados a rebelar-se, 
como na Revolução Francesa. Não se pode deter o impulso da lei biológica, que quer sempre a luta da 
vida em todos, para sobreviver. 
 
Já nos referimos em vários lugares no curso do presente volume a estes conceitos, orientando-os 
diversamente em relação a outros problemas. Quisemos aqui retomá-los, coordenando-os dentro do tema 
da ética, que agora desenvolvemos. Onde tudo evolui,
 
também a moral não pode deixar de evoluir. 
Significa isto tornar-se mais luz de conhecimento e menos trevas de ignorância, mais paraíso e menos 
inferno,
 
mais triunfo que sufocação da vida, mais Amor que terror,
 
mais inteligente e livre aceitação que 
coação forçada. Com a ascensão,
 
tudo tende a libertar-se da ignorância, da imposição escravizadora, do 
terror de ameaças de um inimigo desconhecido. Torna-se tudo mais límpido, livre, convicto. 
Compreende-se então, cada vez mais, que Deus é um amigo nosso e que é nosso interesse obedecer a Sua 
Lei. Ele nos governa para nosso bem e não para impor-nos,
 
como senhor, uma vontade Sua egoísta. Esta 
última é a forma mental humana que o homem, possuindo-a e não sabendo dela fugir aplicou a tudo, 
inclusive ao comportamento de Deus, não conseguindo imaginar outra diferente da sua própria. Mas logo 
que a sua inteligência se abre um pouco, muda completamente o modo de conceber a vida, e eis que 
aparece a nova moral que, embora ditando as mesmas normas, o faz à base de um princípio totalmente 
diverso, que não é o da egoística imposição de um senhor a um escravo, mas a de um Pai bom que não 
exige obediência por si, mas só porque esta representa o bem de seus filhos. A maior altura evolutiva 
alcançada pela nova moral consiste no fato de que nela desaparece o atrito da luta e o conflito entre o 
imperativo ético e a utilidade do indivíduo: utilidade verdadeira, entendida não no sentido do gozo 
imediato, o que mais se procura e ao contrário pode constituir um prejuízo, mas utilidade compreendida 
no sentido de real e permanente vantagem, não ilusória como as coisas terrenas. 
 
* * * 
Chega-se assim a delinear as características fundamentais desta moral. Atingido o conceito