Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


DisciplinaIntrodução à Teologia e História da Teologia89 materiais1.832 seguidores
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acima que sua função é de guiar o homem ao cumprimento dos 
objetivos da vida, e que, portanto, não deve nascer conflito entre esta e a moral, ao negar satisfação as 
suas exigências sadias. Neste caso, deve esperar-se logicamente suas respectivas reações e, se quisermos 
ser justos, teremos de reconhecer que constituem um direito seu pleno: o de viver. Tudo o que quer 
diminuir ou matar a vida, só pode provir das forças negativas, inimigas de Deus. Eis então que, quando 
nasce um conflito entre ética e vida, estas reações contra a ética formal geram o anti-ético, pelo qual o 
indivíduo é julgado culpado, por uma moral que cometeu a culpa maior de ter agredido a vida em seus 
direitos fundamentais. Nesse caso, dos dois, quem é o culpado? O moralista que não respeita os direitos 
da vida ou esta que se defende? Somente quando a essas exigências for dada legítima e suficiente 
satisfação,
 
só então poderemos dizer que a culpa seja do indivíduo que desobedeceu. Só quando forem 
respeitadas por ambas às partes \u2014 sociedade que faz as leis e indivíduo que deve obedecer \u2014 as posições 
recíprocas de direitos e deveres, será justa a condenação do não-cumpridor. Mas enquanto a vida da 
sociedade humana se basear no egoísmo e na luta, as reações defensivas encontrarão justificativa, 
invertendo-se a moral em sua zona negativa cheia de abusos e males. No caso menos grave sobressairá a 
mentira tão difundida, o compromisso pela elasticidade da consciência e semelhantes formas híbridas de 
acomodação de que o mundo está cheio, e tudo isto somente será justificado pelo natural e inevitável 
efeito das condições em que a vida humana se acha agora. Neste caso, fingir seria um recurso usado pela 
vida como um lubrificante indispensável para permitir, com menor atrito,
 
a coexistência pacífica dos 
egoísmos inimigos. Não há efeito sem causa e na economia da vida cada fato realiza sua função que o 
justifica. Só assim poderemos explicar porque a mentira é tão difundida no ambiente humano. 
 
Mas precisemos, em suas particularidades, os elementos do problema. Explicamos em outros 
volumes que as exigências fundamentais da vida, são três: 1) a conservação do indivíduo; 2) a 
conservação da espécie; 3) a evolução. Essas exigências, que objetivamente se verificam na realidade, 
explicam-se como efeito dos princípios que regem a vida, mostram-nos seu funcionamento, sua razão de 
ser e seu telefinalismo, num quadro lógico completo. A vida impõe satisfação a essas suas três exigências, 
por meio de três fortíssimos instintos: 1) a fome, 2) o amor, 3) a ânsia de melhorar. A ética reserva-se a 
tarefa de disciplinar esses três instintos,
 
para guia-los no cumprimento dessas três exigências. É por isso, 
pois, que se ocupa: 1) da aquisição e uso dos bens,
 
propriedades, trabalho etc.; 2) das relações de sexo, 
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formação da família, deveres dos pais e dos filhos etc.; 3) da tarefa de fazer evoluir,
 
confiada a poucos 
indivíduos, embora o desejo de subir seja comum a todos. Quanto aqueles raros indivíduos,
 
a ética comum 
não os protegerá,
 
porque eles se situam fora dela, no seio de seu mais alto plano de vida. 
 
Esses três instintos representam os impulsos principais que movimentam o homem (mesmo que em 
redor deles girem outros menores, conexos com eles) todos visando a defesa da vida: 1) como indivíduo, 
2)como espécie, 3) como evolução. Não é o capricho do homem que os quer, mas a sabedoria da vida, 
com o meios para alcançar seus objetivos; portanto, fazem parte da Lei, do pensamento e da vontade de 
Deus, no plano humano. Qualquer ética poderá, pois e até devera disciplinar esses impulsos, a fim de que 
melhor alcancem seu objetivo, mas jamais poderá opor-se a eles, pois isto significaria opor-se a Lei, tal 
como ela quer manifestar-se nesse nível. Então a ética tem pleno direito de impor a disciplina de sua lei, 
mas deve cumprir também o dever sagrado de respeitar a vida nestas suas exigências fundamentais. Em 
outros termos, a sociedade, para poder exigir obediência a sua moral, deve antes permitir a qualquer um o 
mínimo indispensável para que sejam satisfeitas aquelas exigências da vida. Se esse mínimo fosse 
negado, o responsável seria mais o que faz a lei do que quem a viola, porque aquele, e não este, é a maior 
causa do mal, tornando-se em primeiro lugar anti-moral. 
 
Mas, desgraçadamente, dado o regime humano de luta, vigora mais uma moral repressiva, do que 
preventiva, mais "a posteriori" que "a priori",
 
mais atenta a perseguir os efeitos que a eliminar as causas 
Intervir só depois do
 
fato consumado pode significar não apenas a culpa do violador, mas também a falta 
de sabedoria de quem, tendo o poder em mãos, não soube impedir que se formasse o mal, e aparece só 
depois que o prejuízo se verificou, acreditando cancela-lo com a repressão. Desta forma, não se cancela o 
mal, antes, é ele agravado, como o exemplo, que se acreditava salutar, dos patíbulos públicos medievais, 
que habituava o povo espectador ao prazer, e não ao terror do delito. A moral do futuro será mais 
preventiva que repressiva; será mais uma ajuda para levantar, educando, que uma opressão provocadora 
de revolta; ocupar-se-á antes de tudo, de criar condições de defesa em favor da vida, em vez de agredi-la. 
Só assim poder-se-á evitar que a vida, para atingir seus objetivos, seja obrigada a desviar-se por aqueles 
atalhos tortos e oblíquos que constituem o mal. 
 
No mundo atual, infelizmente, o respeito a essas exigências fundamentais da vida não é obtido por 
um sentido de disciplina, que deriva da consciência da utilidade para todos, de um estado de ordem, mas é 
dado pela força que impõe esse respeito e pelo interesse egoísta que gera e movimenta essa força. Assim, 
o respeito a propriedade alheia, como a mulher do próximo, existe sobretudo porque há alguém que, no 
interesse próprio, sabe movimentar uma reação punitiva, logo que venha a faltar esse respeito. Explica-se 
desse modo porque a ética humana, no atual plano de evolução, só pode ser uma ética de luta, ou seja, à 
base de sanções. para fazer-se obedecer forçosamente por parte de quem impõe, e, reciprocamente, a base 
de revoltas para não obedecer por parte de quem a deve suportar. Essa é a ética que vigora nos fatos; ou 
seja,
 
não uma ética de paz, em que cada impulso vai por si ao seu lugar e segue espontaneamente o 
caminho exato, mas uma ética de guerra, decidida a sobrepujar de todos os lados os limites devidos, para 
usurpar É mais que puder em benefício próprio e a prejuízo alheio. Tarefa da evolução será de levar o 
homem desta ética de guerra, a base de luta (imposição de um lado e revolta do outro) a uma ética de 
justiça, a base de compreensão (respeito das exigências da vida, de um lado, e obediência espontânea a 
ordem, do outro. Examinemos o problema em cada um de seus três pontos. 
 
1) Segundo a nova moral, para que a sociedade possa adjudicar-se o direito de impor respeito a 
propriedade dos que a obtiveram, da parte dos que a não obtiveram, deveria em primeiro lugar cumprir o 
dever de garantir a estes últimos um mínimo indispensável para viver: uma casa, alimentação, roupa, 
educação etc.,
 
embora exigindo o trabalho correspondente, se não se tratar de incapazes Enquanto aos 
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deserdados faltar esse mínimo indispensável, a vida, que não quer renunciar a si mesma, os impelirá a 
revolta contra a ordem social,
 
seja com assaltos organizados pelos partidos políticos, seja com o furto 
ilegal que viola a lei, ou com o furto legalmente realizado enganando a lei, como todos