Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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lançado para o futuro, provido das qualidades próprias ao plano superior que deverá ser 
atingido, mais do que daquelas que tem a maioria que vive na terra. Condenado a viver neste ambiente, 
que não é o seu, enquanto esta atento a realizar sua missão de ensinar formas superiores de vida, 
facilmente é superado pelos que, sabendo lutar, podem explora-lo, roubando tudo o que é dele. Para 
vergonha da humanidade, a história esta cheia de casos de grandes músicos, artistas, pensadores, 
cientistas etc. \u2014 em todos os sentidos, grandes benfeitores \u2014 que viveram e morreram na miséria, 
enquanto a riqueza se esbanja por inúteis luxos e se gastam somas fabulosas para matar o próximo na 
guerra e para, na paz, aperfeiçoar a arte de matar. Isto demonstra em que estado de involução se acha 
ainda o homem e como a vida do evoluído, na terra, para fazê-la progredir só pode ser uma vida de 
martírio. Dizê-lo, pode parecer ofensivo para as grandes almas. Mas o certo é que uma humanidade que 
não sabe defender o mais alto produto da raça, incumbido da função de fazê-la evoluir, não pode 
considerar-se civilizada. 
 
 
 
 
IX 
 
O PROBLEMA DA MORAL II 
 
Evolução e Evangelho Pietro Ubaldi 
 
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Como age a nova moral? Mundo de luta. Evolução por 
ação e reação entre dirigentes e súditos, por comum 
abrandamento de costumes. Progressiva eliminação da luta, 
e da dureza das leis. Em direção a uma moral cada vez mais 
amiga. A vida, estado de guerra. A ética que se vive nos fatos, 
e suas conseqüências. A função biológica da mentira. A 
virtude como astúcia. A liquidação do simples e honesto. 
Ética emborcada. A psicologia do selvagem e do civilizado. 
Inteligência prática, para a luta, e não especulativa, para o 
conhecimento. A moral da nova civilização do espírito. 
 
 
 
Dadas as condições atuais do mundo,
 
como fazê-lo evoluir ainda, levando-o a viver a nova moral? 
Aplicando-a ao real estado de fato, que reações excitará e recebera em resposta, quando se trata de passar 
seriamente de uma ética pregada a uma ética realmente vivida? Não podemos esquecer que se trata de um 
mundo em que tudo se baseia na luta, um mundo em que a norma ética teve de aparecer até agora como 
imposição armada de sanções, resultando como conseqüência o desenvolvimento da arte de escapar delas. 
Há luta entre o evoluído que quer subir e o involuído que não quer subir, luta entre duas leis diferentes 
que aspiram ao domínio absoluto sobre o homem. 
 
Ora, é lógico que, nesse ambiente, qualquer inovação tem de ser iniciada de cima, isto é, por parte 
dos vencedores, que são os únicos, nesse plano, e têm o direito de mando. Se nesse plano tudo funciona 
assim, se esses são os princípios que estabelecem a conduta dos que aí vivem,
 
não podemos sair deles 
nem mesmo quando queremos estabelecer uma norma ética, embora desça ela de planos superiores, 
regidos por princípios diferentes. As normas concebidas nos ambientes mais elevados constituem o que se 
chama a teoria. O modo com que são recebidas, adaptadas e até invertidas no ambiente humano terrestre 
constitui o que se chama a prática. A teoria é bela, resplandecente, mas a tendência é que seja deturpada e 
corrompida logo que desce á prática. 
 
A realidade apresenta-nos, então, um espetáculo bem diferente do que se poderia imaginar. Quem faz 
as leis é a camada social superior, que tem o direito de mandar porque venceu a batalha da vida. Se essa 
camada não faz a lei ética, porque só poucos e excepcionais evoluídos conseguem intuí-la, pode todavia 
formulá-la em artigos de lei, dosá-la e, sobretudo, enchê-la de sanções que, na terra, são as coisas mais 
importantes, se não quisermos permanecer no campo teórico. E então a ética, que no Alto é outra coisa 
\u2014 ou seja, norma espontânea de convicção \u2014 também se torna luta, para adaptar-se à lei da terra em que 
desceu. É sob esse aspecto que a moral aparece em nosso mundo, fato que pode parecer estranho e 
contraditório, mas do qual compreendemos as razões. A ética resolve-se assim, na prática, numa luta entre 
a classe superior que impõe as leis, e as classes inferiores que devem aceitá-las, luta entre a classe dos 
juizes que estabelecem a culpabilidade e condenam, e a dos julgados culpados, que são condenados se não 
obedecem. 
 
Podemos perguntar-nos agora: como consegue a vida evoluir, se a descida dos ideais á terra está 
submetida a esse sistema que a converte em luta e assim paralisa seu efeito mais importante, que é o de 
provocar uma melhoria? Eis então o que acontece: o progresso é um impulso íntimo, que age de dentro, 
indistintamente sobre todos, tanto em quem manda, como em quem obedece. A evolução não pode 
submeter-se ao contraste entre os dois impulsos opostos em luta; então, ao invés de ficar dominada por 
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ele, domina-o e o utiliza. Não podendo caminhar em linha reta, avança tortuosa como um rio, por impulso 
e contra-impulso, por ação e reação entre as duas partes contrárias que, assim, acreditando eliminar-se, 
colaboram substancialmente na mesma direção, que é a da evolução. Os dois grupos opostos influenciam-
-se mutuamente Logo que um progrida um pouco, o outro recebe e assimila os benefícios,
 
civiliza-se, 
abranda seus costumes, obedece com um pouco mais de consciência e conhecimento, mais 
espontaneamente convencido porque experimentou as vantagens de viver na ordem. São a luz e a bondade 
que começam a chegar, desmantelando aos poucos o castelo das coações e sanções, duro ônus que pesa 
sobre todos, e de que agora é possível começar a libertar-se, porque cada vez se torna menos necessário. 
Isto permite aos dirigentes a mitigação das penas, abandonando cada vez mais o método psicologicamente 
impositivo de terrorismos, indispensável para disciplinar seres rebeldes e ferozes. Antes, não se podia 
assim proceder sem prejuízo destes, que teriam interpretado qualquer ato de bondade como sinal de 
fraqueza e autorização à devassidão. A idéia do inferno não foi criação de um grupo sacerdotal, mas uma 
necessidade psicológica, imposta pelo estado de involução em que se achava o homem no passado. Sem 
esses terrorismos hoje inaceitáveis, o edifício ético, em virtude de sua estrutura mental, teria caído na 
anarquia. Mas é lógico que tudo isso deva ir desaparecendo, automaticamente, sem danos, logo que o 
homem, por ter-se civilizado mais, o permita. 
 
Caminho lento, gradual e difícil, mas caminho fatal. Sem dúvida os dirigentes, por causa da natureza 
de seus súditos, têm necessidade de defender-se e não podem abandonar-se a excessivos atos de bondade, 
sem que seja invertida a ordem que a lei ética deseja, tornando-se anti-ético, porque impediria que a vida 
atingisse seus objetivos. Para o involuído, a ética precisa estar armada de chicote, pois só assim o levará 
ao bem. Mas não restam dúvidas de que o dever da iniciativa dos melhoramentos cabe à classe dos 
dirigentes (abolição da pena de morte, da escravidão, melhoramentos no sistema de prisões, mitigação da 
pena, justiça econômica, previdência social etc.)., Essa iniciativa deverá ser levada até ao limite máximo 
possível, como grau de bondade que o estado de civilização atingido já permite. Dentro desses limites, as 
classes menos evoluídas da sociedade poderão restituir à classe superior o bem que recebem, na forma de 
um abrandamento de costumes. A finalidade da lei é sobretudo de educar, ensinando, à força de sanções, 
a viver mais civilizadamente, pronta a abandonar esse sistema, logo que os súditos aprendam a lição, e 
demonstrando assim não mais necessitarem desses métodos. Na feroz Idade Média realizavam-se as 
execuções capitais