Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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poderá 
formar a futura humanidade, sociedade orgânica em que o Evangelho seja finalmente vivido. 
 
Tudo isto, de acordo com o principio, segundo o qual a sociedade dos seres que formam a vida, é 
constituída por um sistema orgânico hierárquico, em que os seres esta o interligados, e nenhum deles pode 
avançar sozinho; mas somente inclinando-se sobre os irmãos menores, para fazê-los subir com ele. 
 
* * * 
As belas exortações do Evangelho,
 
o tipo corrente, apegado às realidades da terra,
 
responde 
desconfiando: mas a Divina Providência,
 
depois, me salvará mesmo? E se não se realizar o milagre? Que 
tenho de seguro nas mãos? Este, habituado a viver num mundo de traições,
 
deve considerar a 
desconfiança como uma de suas principais virtudes. E são justamente as suas qualidades, que o tornam 
apto a viver na Terra,
 
que impedem o funcionamento daquela Providência. Esta é posta em movimento 
pelas qualidades opostas, precisamente aquelas que tornam o homem menos apto a viver na Terra. Não se 
pode ganhar dos dois lados, do lado da Terra e do lado do céu. Quem possui as qualidades,
 
com as quais 
sabe viver bem na terra, contente-se com as vantagens desta e não peça as que descem do Alto. Mas quem 
não sabe viver na terra, porque pertence a planos mais altos da vida, é justo que seja salvo pelas forças do 
céu. O homem astuto e forte, que sabe defender-se sozinho, que necessidade tem dessas intervenções 
superiores, para que sua vida seja protegida e seja feita justiça? Então, é lógico e justo que as forças da 
Providência não se movam para ele, que deverá conseguir tudo por si mesmo. Em seu instinto, ele sente 
isso, e por esse motivo não confia no Evangelho, mas só nas próprias forças, e nada espera do Alto, ao 
passo que o evoluído sente instintivamente o contrário, e por isso confia no Evangelho, e espera tudo do 
Alto. 
 
Não há dúvida de que, para acender a centelha que faz explodir a reação da justiça de Deus é 
indispensável que isto seja necessário e merecido, pois de outro modo aquela justiça seria injustiça. É 
lógico e justo que o homem que vive de prepotência e luta, seja obrigado a defender-se com esses seus 
meios, de que está bem armado, e que as forças do Alto não se movam para ele. Mas é lógico e justo 
também que o bom, que renuncia a defender-se na terra, para praticar o Evangelho e viver uma lei mais 
elevada, seja defendido por outras forças superiores, pois de outro modo ele seria logo devorado pelos 
lobos, o que significaria a vitória do mal sobre o bem, e a falência da Lei de Deus. 
 
Dizemos isto para que os simples não se iludam. Sem mérito e justiça, nada se recebe do céu. Sem 
dúvida seria agradável ao homem da terra poder aproveitar também destas vantagens e proteções de que 
goza o evoluído. Seu instinto é de aferrar tudo o que pode ser útil. Mas é inútil fazer pressão com a força. 
A máquina não obedece a esses impulsos, não é posta em movimento com a violência nem com a astúcia, 
que movem as coisas terrenas, mas só com a bondade e o merecimento. É inútil pretender o milagre, 
quando não há martírio, nem bondade, e quando nos aproximamos dos poderes do Alto com a psicologia 
humana corrente do aproveitador. É indispensável possuir verdadeiramente as qualidades necessárias, e 
não apenas julgar que as temos, iludindo-nos. Na terra, estamos habituados a falsificar tudo, para tirar 
vantagens do engano. Essa psicologia paralisa, neste caso,
 
a máquina, que então, não funciona. 
 
E não basta sermos bons, se formos inertes e preguiçosos. Precisamos possuir a fé e a atividade dos 
trabalhadores fortes e honestos; quantas vezes, ao revés, gostaríamos de usar o Evangelho como um 
refúgio para tolos e preguiçosos,
 
que pretendem servir-se de Deus para fugir ao cumprimento do seu 
próprio dever O céu não pode funcionar como escapatória, para evitar-nos o cansaço de viver, necessário 
para evoluir, para fugir às duras condições que o ambiente nos impõe,
 
e ao qual não podemos deixar de 
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pertencer, porque, dada nossa natureza, é o que nos compete. Para quantos empregos diversos, os mais 
levianos, querem na terra usar o Evangelho, as religiões, os ideais. É natural que o céu permaneça fechado 
e o Alto mudo aos nossos apelos. 
 
O evoluído que se acha vivendo na terra em posição evangélica, exposto a todos os ataques, em 
condições humanamente antivitais, sem defender-se, tem absoluta necessidade de ajuda, o que já não tem 
o tipo comum, que sabe defender-se bem por si próprio. Portanto, não há razão nenhuma para que a este 
último seja franqueado esse auxílio. Além disso, o involuído não tem nenhuma missão a realizar, 
nenhuma função particular evolutiva, que interesse à vida, senão a de evoluir ele mesmo. É justo que ele 
não receba nenhum auxílio especial, que, ao invés,
 
é indispensável ao que precisa realizar um trabalho 
excepcional, que os outros não fazem, ou seja, o de ensinar a libertação das mais baixas formas de vida e 
das dores que com elas estão conexas. É justo que o auxilio seja dado pelo Alto a quem trabalha, 
sacrificando-se pelos outros, e não a quem trabalha só para si mesmo. Sustentar gratuitamente o biótipo 
imerso no plano animal da vida que lhe compete, pelo seu nível de evolução seria tirá-lo da escola que lhe 
é necessária, representada pela luta em prol da seleção do mais forte; seria convidá-lo à preguiça, 
poupando-lhe o esforço que lhe é indispensável para subir, fazendo-o, com isto, permanecer estacionário, 
ao invés de evoluir. A vida deve ser trabalho produtivo para todos. Por isso, só pode subtrair-se a um 
trabalho, quem está realizando outro. Aquele: "todo o resto vos será dado por acréscimo", que o 
Evangelho promete a quem procurar primeiro o reino de Deus e Sua justiça, presume que primeiro tenha 
sido feito este trabalho, que justificará o "a mais", trabalho sem o qual, aquele "a mais" não chega. E é 
isto que, com efeito, acontece em geral,
 
pelo que muitos acreditam que o Evangelho contenha somente 
belas palavras, e evitam aplicá-lo. Mas a culpa não é do Evangelho, que diz a verdade, mas do fato que 
não foram satisfeitas as condições necessárias, para que o Evangelho pudesse manifestar-se verdadeiro. É 
dado de graça o que foi merecido por outros meios, o que é necessário para fins mais alto. Mas não pode 
dar-se nada por nada, tanto mais que poderia ser prejudicial a quem recebe. 
 
Se quisermos aproveitar as vantagens que nos oferece o Evangelho, só nos resta viver nas condições 
que ele estabelece para nossa conduta, ou seja, transformar-nos em evoluídos, que é um caminho aberto a 
todos. Mas o homem comum faz os seus cálculos. Ser-lhe-ia muito agradável ver chover do céu, 
gratuitamente, todos os auxílios que lhe poupassem as fadigas da vida; mas custa-lhe muito submeter-se 
às condições necessárias. O homem procura o atalho para chegar com menor esforço a um lucro maior. É 
justamente isto que ele procura, e com essa psicologia toda humana, ele se aproxima do Evangelho como 
de todas as outras coisas. Mas quando vê que daí não pode tirar nenhuma vantagem, ou que ele precisa 
pagar com sacrifícios muito grandes, então o rejeita como coisa inútil. Acontece que este Evangelho, se 
vivido, pode representar o meio mais poderoso para superar o passado e evoluir; se permanece 
inutilizado, o homem recai no seu baixo plano de vida, para ai estagnar-se. Por não compreender quão 
grande é o tesouro que recebeu, ele mesmo recusa a mão que lhe é estendida do Alto, para elevá-lo a 
melhores condições de vida. E assim continua o mal-entendido, o homem evangélico permanece um 
enigma e o Evangelho um sonho lindo, que continua no plano dos ideais. Assim, cada um continuará em 
seu lugar, de acordo com