Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


DisciplinaIntrodução à Teologia e História da Teologia91 materiais1.843 seguidores
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e aplicação de princípios absolutos, e sendo 
praticada em nome de Deus e dos mais altos ideais. A realidade positiva que aparece nos fatos é a 
satisfação do imperativo dos interesses da vida, que quer atingir sua finalidade. Constrói-se assim o 
castelo da ética sobre bases escusas, que se enterram nas vísceras do mundo biológico e que pouca 
afinidade tem com abstrações lógicas e teológicas, onde a ética pretende fundamentar-se para assumir 
valor absoluto, acima de nosso contingente. Como o homem construiu para si uma idéia toda 
antropomórfica da Divindade, para seu uso e consumo; como se colocou na posição de único objetivo da 
criação, num planeta que estava no centro do universo, em função de valores considerados absolutos, por 
exemplo a imobilidade da terra e a solidez da matéria; do mesmo modo o homem construiu para si uma 
ética na base de ilusões psicológicas, que a observação acurada das mentes mais adiantadas vai 
gradualmente desfazendo com a análise, à proporção que, com a evolução, se abre a inteligência humana. 
 
Justifica-se essa forma mental, responsável pelo conceito de verdade absoluta, através do desejo 
instintivo de atingir a última meta do conhecimento Acreditam assim que a atingiram e a possuem, ao 
passo que para o homem, situado no futuro, só são possíveis verdades relativas e em evolução. De fato é. 
isto o que a realidade nos mostra apesar das mais absolutas e dogmáticas afirmações em contrário. Diante 
do transformismo universal, a que nenhum ser pode escapar porque está imerso no fenômeno da 
evolução, o absoluto imutável só é admissível como distante meta final, ainda não tocada, e só atingível 
no término do processo evolutivo. Até esse momento, tão distante que escapa à avaliação de nosso 
concebível, só podemos admitir para o ser uma progressiva sucessão de diversas aproximações da 
verdade, como etapas da contínua conquista do conhecimento. A ética é apenas um dos aspectos dessa 
verdade e, como tal, também só pode ser relativa e em evolução. Eis então que a ética, como o 
conhecimento e tudo o mais, é dada pela posição que o homem atingiu ao longo da escala da evolução, e 
existe em função desta, ou seja, do grau de desenvolvimento alcançado, o que estabelece, em todos os 
campos, os limites do concebível humano. 
 
Surge, então, na terra, a possibilidade de existirem diversas éticas, relativas ao grau de evolução 
atingido. É verdade que a maioria estabelece um nível médio, proporcional à sua sensibilidade e 
compreensão, adaptado às massas que, nele se encontram à vontade. Mas é também verdade que os mais 
evoluídos podem considerar essa ética como altamente imoral, já que encara como lícito e natural o que a 
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eles pode parecer até mesmo um crime. A moral dos selvagens atinge a antropofagia. A moral do homem 
civilizado admitiu, até há pouco tempo, a escravidão, e ainda admite, em vários casos, o direito de matar o 
seu semelhante. Quanto mais civilizado é o ser, e ilícitas, muitas coisas que a moral comum permite, mais 
é evoluído e mais fica horrorizado como os seus semelhantes realizam, sem nenhum sentimento de culpa, 
atos que seriam, para ele, inadmissíveis. Esse tipo biológico poderia então fazer uma lista de crimes que a 
ética comum, tanto religiosa como civil, admite tranqüilamente, sem perceber a sua atrocidade, com a 
mesma ingenuidade com que \u2014 em proporção \u2014 o antropófago devora o seu inimigo. Vejamos alguns 
desses casos. 
 
1) Julgarmos não em função da justiça, imparcialmente, mas em função da força de que o julgado 
dispõe: seja em posição social, poder econômico, capacidades bélicas etc., chegando assim a uma justiça 
que funciona de modo exemplar apenas para o faminto e inerme ladrão de pão ou de galinhas. 
 
2) Julgarmos e condenarmos o próximo sem conhecer suas condições reais e só em função deles 
mesmos. Sermos tolerantes quando nos outros encontramos os nossos próprios defeitos, pelos quais 
também nós poderíamos ser condenados primeiro, se os condenássemos; e tornarmo-nos 
desapiedadamente intransigentes e modelos de virtude, quando nos outros podemos apontar defeitos que 
não temos, pelos quais, portanto, não podemos ser alvo do retorno de acusação. 
 
3) Servirmo-nos das altas coisas do espírito e de Deus como meio para alcançar vantagens materiais, 
para vencer na vida e nos afirmarmos no mundo, prostituindo-as até fazer delas instrumento de astúcia de 
guerra. Em outros termos, servirmo-nos da política para satisfazer o próprio orgulho ou para nos 
tornarmos uma potência social e econômica, e não para ajudar a nação; servirmo-nos da religião para 
assegurar uma posição e não para cumprir a missão de levar o bem às almas; trairmos os princípios que 
dizemos professar, usando-os para outros fins, enganando a respeito dos verdadeiros métodos de vida, 
bem camuflados sob um belo manto de hipocrisia, e, praticando na realidade, sob tão belas aparências, o 
jogo duplo do Maquiavelismo. 
 
4) Segundo a moral em vigor, é lícito vivermos no desperdício do supérfluo, enquanto outros nossos 
semelhantes carecem do estritamente necessário, assim como é lícito entrarmos na posse de bens que não 
foram ganhos com o próprio trabalho. 
 
5) É lícito roubarmos quando com isto damos prova de uma inteligência, que sabe enganar a justiça 
estabelecida pelas leis. Saber escapar astuciosamente, aos castigos, pode até merecer como prêmio a 
velada estima da opinião pública, que não a regateia a quem saiba vencer e tornar-se poderoso, e que se 
torna incondicionalmente admirado só por isso, relegando ao esquecimento os meios utilizados, desde que 
atingiu resultados tão brilhantes e invejados. 
 
6) É lícito, com a benção de Deus e as honras da pátria, matarmos quando isto corresponde aos inte-
resses do próprio país ou dos detentores do poder. Aos maiores carrascos da humanidade, que realizaram 
as maiores matanças bélicas, foram tributadas as maiores honras da história. 
 
A lista poderia continuar. Estes são alguns dos delitos que a ética humana atual reconhece como 
lícitos, na realidade, embora os condene teoricamente; delitos que qualquer um pode tranqüilamente 
cometer, continuando pessoa de bem e cidadão estimado na sociedade, como bom cristão, ao qual as 
religiões prometem o paraíso. Assim a maioria cria a própria ética, satisfazendo seus instintos, aos quais 
obedece de boa fé, acreditando permanecer na verdade e na justiça. Não tendo atingido ainda o nível 
evolutivo suficiente para perceber o que está fazendo, a pessoa se julga honesta e sincera. Nada mais se 
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pode fazer, então, senão repetir com Cristo: \u201cPerdoa-lhes, porque não sabem o que fazem\u201d. E para 
compreender o comportamento desses seres, temos de raciocinar com a inteligência da vida, que os faz 
movimentar-se por meio desses instintos, sem que eles saibam o porque. Eis que então aparece, além da 
ética pregada e teoricamente professada \u2014 artificiosa construção do pensamento \u2014 esta outra moral 
biológica e realística, em que a vida impõe as férreas leis de seu plano de evolução. 
 
Esta realística moral biológica pode parecer mais livre, porque permite muitas coisas que são 
proibidas mais acima; entretanto nem por isso é menos dura. Justamente porque mais involuída, está 
armada com reações férreas, para manter na linha o involuído, menos sensibilizado. O homem comum 
sente-se livre e por isso acredita que lhe é permitido poder realizar impunemente qualquer desejo, não 
imaginando que vive constrangido nas malhas de uma rede de ferro, estabelecida pela Lei. Como esta lhe 
deixa liberdade de ação ele acredita poder fazer o que quer e não percebe que