Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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entender o Evangelho? Os pobres de espirito. Os 
deveres de quem possui. As acomodações. O Evangelho tira-
nos a preocupação do trabalho, mas não o trabalho. Ócio é 
desonestidade. Os colaboradores de Deus. A psicologia do 
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dinheiro. O fator espiritual na construção e o peso do 
imponderável. Utilitarismo inteligente. 
 
 
 
É no terreno dos bens materiais que se torna mais vivo o contraste irreconciliável entre o Evangelho 
e o mundo, entre o evoluído e o involuído. Como podem concordar dois tipos humanos e dois métodos de 
vida, dos quais o primeiro abandona com indiferença as coisas da terra, considerando-as secundárias, e o 
segundo faz consistir seu principal trabalho na vida no aferrá-las e mantê-las seguras? Parece que as 
coisas estejam sendo olhadas de dois pontos diversos, com olhos diferentes. Olhadas do céu, as coisas da 
terra, porque estão longe, parecem pouco importantes, ao passo que são importantes as do céu porque esta 
o mais próximas. Olhadas da terra,
 
as coisas do céu, porque esta o longe, parecem de somenos 
importância, enquanto as da terra, porque próximas são importantes. Mas procuremos compreender. 
 
O Evangelho toma, logo de início, nítida e inexorável, a sua posição, quando diz as palavras já 
citadas: "Ninguém pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e a Mamom. E para atingir a 
perfeição, aconselha logo dar tudo aos pobres, afirmando ser bem difícil que um rico entre no reino dos 
céus. Quem quiser salvar sua vida no sentido humano, a perderá; e quem a perder para conquistar a vida 
mais alta que Cristo nos mostra, a salvará\u201d. 
 
E o Evangelho acrescenta, explicando: "Não vos preocupeis pela vossa vida, quanto ao que 
comereis, nem pelo vosso corpo, quanto ao que vestireis. A vida não vale talvez mais que o alimento e o 
corpo mais que a roupa? Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não ceifam, não recolhem em celeiros; e 
no entanto vosso Pai celeste os alimenta. E vós não valeis mais do que eles? E quem de vós, por mais 
ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à própria estatura? E por que preocupar-vos tanto com a 
roupa? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam. E no entanto eu vos 
digo, que nem Salomão em todo o seu esplendor, se vestiu como um deles. Se Deus assim veste a erva do 
campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, com quanto maior razão vos vestirá a vós, homens 
de pouca fé? Não vos preocupeis dizendo: que comeremos ou que beberemos, ou que vestiremos? Por 
tudo isto se preocupam os gentios; mas vosso Pai celeste sabe que precisais dessas coisas. Vós, portanto, 
procurai sobretudo o reino de Deus e Sua justiça, e todo o resto vos será dado por acréscimo. Não vos 
preocupeis, portanto, pelo amanha porque o amanha se preocupará por si mesmo. A cada dia basta o seu 
cuidado. (Mateus, VI: 24-34). 
 
Não se poderia imaginar maior reviravolta dos mais fundamentais instintos da vida, que o homem 
teve de aprender em longa e dura experiência num ambiente hostil,
 
em que só vive quem sabe surripiar 
dele o necessário e impor-lhe suas próprias exigências. E o Evangelho ainda acrescenta: "Não acumuleis 
tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem e os ladrões os desenterram e roubam"... 
Infelizmente é verdade que a ferrugem e a traça consomem e os ladrões roubam, mas isto representa 
apenas o esforço indispensável para defender o que é necessário à vida. É fácil dizer; não penseis no 
amanhã \u2014 poderia responder o mundo \u2014; mas se o amanhã chega e não estamos providos, faltará ate o 
necessário. É belo saber que o Pai celeste sabe que precisamos de todas essas coisas. Contudo é um 
conhecimento que servirá para Ele, mas não para nós, que certamente não vemos chegar a nossa casa, da 
parte Dele, aquilo de que precisamos todos os dias. Sabemos, por dura experiência, que, se não o 
procurarmos com o nosso esforço previdente, nada chegará a nossa casa. Ao contrário, poderemos contar 
com alguma coisa, se tivermos acumulado um tesouro na terra, ao qual podemos recorrer para suprir 
nossas necessidades, e dessa maneira conseguir uma trégua na luta diária pela vida. 
 
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Assim, aos olhos do mundo, que sabe que de fato as coisas se passam de outro modo, o Evangelho se 
apresenta como uma sublime ignorância das realidades da vida. Como se explica isso? Será possível que 
Cristo não se tenha dado conta dessa realidade, das verdadeiras condições em que se desenvolve a vida do 
homem? Sem dúvida Ele fala de outro tipo de vida, feita para outro tipo de homem, que não o atual: um 
tipo novo, o evoluído, no qual o atual deverá transformar-se. Cristo refere-se ao luminoso futuro da 
humanidade e não a seu bestial passado. Provam-no suas palavras: "Dou-vos um novo mandamento: que 
vos ameis uns aos outros; como eu vos amei, que assim vos ameis uns aos outros". Não representa isto 
uma reviravolta completa na fundamental lei biológica da luta pela seleção do mais forte? Isto significa 
passar a um plano de existência em que predominam leis diferentes: e a vida se protege e desenvolve, 
baseando-se em outros princípios. 
 
Mas Cristo, mesmo ao preparar o homem de amanhã, sabia que estava falando ao homem de hoje. 
Como poderia pedir-lhe o impossível? Com efeito, o mundo não lhe deu ouvidos, e assim se explica isto, 
sem dúvida, um fato inegável. Quando o homem prático, que luta em sua vida árdua, ouve estas belas 
mensagens que descem do Alto: tem a impressão de que provém de um mundo cujos habitantes podem 
permitir-se o luxo de ter belos sonhos, porque suas condições de vida sem preocupações, lhes permitem 
ignorar ou esquecer a nossa realidade humana e dura. Quem vive, para si, aquelas belas máximas 
evangélicas, ao invés de pregá-las aos outros? As próprias e várias religiões cristãs, baseando-se no 
Evangelho, acusam-se mutuamente, em nome dele, de possuírem bens terrenos; enquanto, na prática, elas 
os possuem. A única forma, neste caso, de se lembrar do Evangelho, parece ser aquela de cada um 
escandalizar-se daquilo que pratica somente quando o vê praticado pelos outros, ocasião de que se 
aproveita para acusar o próximo. Mas isto corresponde perfeitamente ás leis da vida no plano humano, 
que coloca no ápice da escala dos valores, os meios humanos; e até Deus só é respeitado porque poderoso 
e temível. Nesse plano, em que vencer é a coisa mais importante, é natural que cada um queira tudo para 
si e tenha inveja das riquezas que exprimem as vitórias dos outros. 
 
 O contraste entre duas leis que querem dirigir o mundo, a do passado e a do futuro, ou seja, a 
animalidade e o Evangelho, apresenta nos fatos estranhas contradições entre o que é o que deveria ser, 
entre o que se diz e o que se faz. Acontece que as próprias ordens franciscanas que se baseiam na pobreza, 
têm posses. Como se resolve esse conflito? Diante das claras palavras do Evangelho e dos fatos que se 
comprovam, temos apenas três soluções: 1) O Evangelho é um belo sonho irrealizável hoje na terra; 
portanto, não se pode tomá-lo em consideração. Neste caso, o mundo tem razão em não aplicá-lo. 2) O 
Evangelho é feito para ser vivido na terra; Cristo deu ordens para que fossem cumpridas. Neste caso, o 
mundo está mentindo, porque não pratica o que prega. No primeiro caso, o mundo tem razão e Cristo está 
errado. No segundo caso, Cristo tem razão e o mundo está errado. De qualquer forma, um dos dois deve 
ter errado, e este é o fato que pode justificar o conflito, que, sem a culpa de ninguém, não se explica. Qual 
dos dois está errado? Então o Evangelho representa um extremismo espiritual que não