Pietro Ubaldi   Profecias
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Pietro Ubaldi Profecias


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para as sangrentas lutas napoleônicas e, tendo 
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assassinado o manso rei Luís XVI como rei tirano, deixam-se matar pelo 
grande guerreiro Napoleão. Vista assim, do lado de fora, a História é um 
absurdo. Mas, se a observarmos mais profundamente, nisto tudo veremos uma 
velha e geral lei biológica: isto é, que a árvore, como o animal e o homem, 
quando viveram sua maturidade e deram seu fruto, têm que acabar, pois que a 
vida esgotou, nessa forma de vida, as energias que lhe destinara e, para que a 
vida possa continuar, deve renovar-se num novo ser, filho do velho que morre 
e do qual deve continuar a obra. Assim, mesmo agindo como inovador, esse 
filho será sempre o filho, que repete e continua o tipo biológico do pai. Fará as 
mesmas coisas que ele, pois não tem outros modelos diante dos olhos; mas não 
as fará idênticas, e sim com algumas alterações, mais evoluídas. Não é fácil 
fabricar modelos novos; isto é um trabalho de um povo e de um século. Luís 
XIV criara um modelo de Estado, e a Europa o assimilara. Para todos, essa era 
a psicologia política dos tempos. Napoleão, filho da revolução e continuador 
do poder real que havia sido suprimido, só podia reportar-se àquele modelo e 
revivê-lo, isto é um poder, tanto ou mais absoluto que os precedentes, exercido 
em nome da revolução, e aceito como legítimo, se bem que em total 
contradição com os princípios donde se originara. Mas ele foi aceito, porque 
correspondia às leis biológicas, isto é, a uma utilidade e necessidade para a 
vida da França, naquela hora; aceito e reconhecido como legítimo, porque o 
poder de Napoleão satisfazia a maior necessidade da revolução naquele 
momento, que era de vencer subjugando os povos, para lhes inculcar e impor 
seus próprios princípios inovadores. 
Este é apenas um exemplo, em que vemos, sob teorias e aparências 
formais, uma realidade totalmente diversa; a vida é prática, tem um utilitarismo 
imediato; e as ideologias, mesmo sendo utilitárias, são-nos a longo prazo e de 
forma vaga e incerta. Por trás das ideologias, há a luta de classes, há o espírito 
gregário, há a concepção egoística do poder \u2212 pura exploração em benefício 
próprio, em dano do povo explorado, e com razão, ao menos neste nosso plano 
animal, porque aqui esta é a lei para os ignorantes e ineptos, a favor dos mais 
hábeis e fortes. 
Prossigamos observando o que faz a verdadeira História, nesse período 
que citamos. Mostra-nos ela, após a revolução francesa, o período 
napoleônico, feito de guerras e imperialismo; ou seja, mostra-nos que as 
revoluções não se preocupam absolutamente em realizar, de imediato, os ideais 
pelos quais se lançaram à luta, mas antes, mesmo se representam uma explosão 
de princípios novos, estes se concretizam de início numa expansão bélica, a 
que se pretendem, para sua divulgação. Assim se realiza a estranha 
contradição, pela qual os princípios tão proclamados de Liberdade, Igualdade e 
Fraternidade, se aplicaram como invasão a mão armada, na submissão de 
outros povos, numa tentativa de domínio sobre toda a Europa. Não é isso 
mesmo que está fazendo no mundo a revolução russa, em nome da justiça 
econômica? Esta foi a primeira aplicação desses princípios da revolução 
francesa. Depois, a reação da Santa Aliança cancelou tudo, e pareceu que tudo 
tivesse voltado a seu lugar e as nações a suas fronteiras. Então, a revolução 
servira apenas para fazer guerras e dar lugar ao imperialismo napoleônico? 
Não. A História verdadeira trabalhara em outro sentido. Através de todo 
esse tumulto de contradições, o trabalho real fora o lançamento de novos 
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princípios, de uma semente de que nasceram os governos representativos, a 
liberdade política, os Estados nacionais etc. Essa semente começou a 
desenvolver-se devagarzinho, e foi necessário um século, para que pudesse 
frutificar; isso porque a revolução lançara, mas não realizara as novas idéias e, 
construir, de fato, um novo modelo de vida, é obra de povos e de séculos, já o 
dissemos. 
Assim, cada passo tivera sua função, logicamente, em cadeia. A 
revolução, como sempre, tivera apenas uma função negativa, de limpar o 
terreno, de destruir o velho a fim de poder em seu lugar construir o novo. E, 
enquanto destruía, a revolução afirmou os novos princípios, mas sem fixá-los. 
Napoleão divulgou-os, e só como meio de divulgação ele e seu imperialismo 
foram aceitos pela História. Tanto é verdade, que, atingido esse seu objetivo, a 
História rejeitou tudo, e nada restou do imperialismo. Assim, a morte de Luís 
XVI foi necessária, para que pudesse com ele morrer o velho sistema e ficar 
desimpedido o terreno político. A revolução foi indispensável, para reclamar as 
novas idéias, Napoleão e o imperialismo para divulgá-las. O trabalho de um 
século e de vários povos, para assimilá-las e fixá-las em formas concretas e 
particulares, que bem se distanciam das originais. Como se vê, a História 
verdadeira agiu com um rígido processo lógico, uma espécie de proposições 
encadeadas, proposições conceituais, mas expressas na forma concreta dos 
fatos, já que os fatos são as palavras e as proposições da linguagem da História. 
 
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Apliquemos, agora, tudo isso, ao atual momento histórico, para 
compreender quais são \u2212 além das formas exteriores aparentes \u2212 o caminho 
real e os objetivos da História presente e do futuro próximo. Referimo-nos à 
revolução francesa e ao imperialismo napoleônico, porque hoje estamos num 
período de revolução e imperialismo. É no ciclo de desenvolvimento das 
revoluções que se realiza a série de proposições que acima examinamos, ou 
seja: esgotamento do velho sistema; revolução para abatê-lo e lançar a idéia de 
um mais evoluído; guerras de conquista para defendê-lo; imperialismo da 
nação revolucionária para dominar outros povos, submetendo-os a si com 
violência, assim como o macho fecunda a fêmea; esgotamento das guerras, fim 
do imperialismo, já inútil, como tal, logo que se tenham atingido os objetivos 
da divulgação; isolacionismo da nação que iniciou a revolução e liquidação de 
suas conquistas imperialistas; assimilação secular da idéia da revolução, 
adaptada aos vários povos, mas de uma forma impessoal, em que se esquece o 
país de origem, que já se tornou inútil ao progresso. Isso tudo, não é a regra de 
um caso ou período, mas o desenvolvimento da lógica que está na inteligência 
da História. Podemos então tomá-lo como lei geral, estabelecida por um 
repetir-se constante do mesmo processo racional, quando a História torna a 
percorrer as mesmas passagens e estão em jogo as mesmas forças. A lógica das 
coisas autoriza-nos, pois, a aplicar ao momento atual a mesma lei. 
Assim, a revolução russa e suas conseqüências estão enfeixadas dentro 
desta lei. Também a revolução francesa teve suas ideologias, mas permanece 
sempre a mesma substância em cada caso: o desenvolvimento das proposições 
lógicas dessa lei. Dá-nos ela então, mesmo no caso atual da revolução russa, 
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um caminho traçado. É isto que temos perto de nós, como atual realização 
histórica. O conteúdo das ideologias diz respeito a outros séculos, pois não se 
improvisa um modelo de vida social novo em poucos anos e o mundo ainda 
vive nos velhos sistemas, os únicos que até agora foram assimilados. Mais 
tarde as ideologias se transferirão a outros povos que as adaptarão a si, naquilo 
que lhes sirva, esquecendo até talvez sua origem russa, já longínqua no tempo. 
É esse um trabalho longo e profundo, que só a inteligência da História 
conhece, um trabalho que