Pietro Ubaldi   Profecias
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Pietro Ubaldi Profecias


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se move o homem num mundo de 
conceitos filhos do relativo e próprios apenas às suas condições, mas que não 
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valem mais se sairmos delas, observemos também a relatividade do conceito 
do "nada". Ele só tem valor em relação às nossas posições e se dissipa quando 
estas são superadas. Até o fato de que, em nosso plano, sua concepção só seja 
possível como um contraste entre o ser e o não-ser, prova que ele é o resultado 
de uma cisão da unidade originária, é um efeito da queda. No absoluto, estes 
conceitos relativos não cabem, e tudo simplesmente "é". Aí tudo é unidade e o 
conceito "nada" só pode aparecer no dualismo, efeito da queda, pelo que tudo 
só pode existir na forma do ser ou do não-ser, ou seja, apenas perceptível como 
contraposição ao seu contrário. A negação, em oposição à afirmação, nasceu 
com a revolta, pois que em Deus não pode haver negação, no absoluto não há 
possibilidade do não-ser, do nascer e morrer, do vir-a-existir por criação, o que 
é um conceito relativo, e que só pode significar transformação de um estado 
precedente, o qual, por ser diferente em relação ao novo, se chama o nada. Eis 
aí então, que o nada é outro conceito que só vale para o nosso relativo e que 
desaparece no absurdo, logo que se supere esta posição. No fim do caminho 
evolutivo, com o regresso do ser a Deus, vimos no volume Deus e Universo 
que o não ser será reabsorvido pelo ser, o dualismo na unidade, o nada 
desaparecerá, assim como o tempo, a concatenação... causa-efeito, efeito-
causa..., a sucessão dos acontecimentos, a incerteza da escolha, nosso mundo 
do relativo. Mas, o universo não partido, no estado integral, uno, em que tudo é 
coexistente e presente, sem tempo, sem o nada, perfeito e determinístico, já 
existe acima do nosso, à espera de tornar a unir-se com o nosso, uma vez 
terminado o caminho evolutivo. 
Ora, quanto mais o ser se avizinha, pela evolução, desse estado de 
reintegração no estado originário, mais seu modo de existir se identificará com 
esse estado, que tem todas as qualidades que vimos. Para o problema proposto 
interessam primordialmente as da contemporaneidade e do determinismo. Os 
termos do problema são dois: de um lado, um plano superior do ser, em que 
essas qualidades são realidade; do outro, um plano inferior, em que elas não 
são realidade, havendo, entretanto, possibilidade de aproximar-se delas por 
evolução. A solução do problema da previsão do futuro está justamente nessa 
possibilidade, pela qual o ser pode aproximar-se, por evolução, das zonas 
superiores de unidade, concomitância e determinismo, porque em tais zonas o 
futuro é presente, e sempre acontece só uma coisa: a melhor, e nada mais pode 
acontecer. 
Não se diga que os dois mundos são separados e estranhos. As qualidades 
do sistema perfeito permaneceram no âmago do que é imperfeito, o mundo 
superior, ainda que se corrompendo, projeta-se no inferior, e esses continuaram 
comunicando-se. Só por isso é possível que o segundo se possa purificar, até 
voltar à perfeição de origem. No universo decaído, Deus permaneceu em seu 
aspecto imanente. Se a evolução é uma realidade, e significa passagem de um 
plano inferior a um mais alto, isto quer dizer que eles estão conexos. Assim, a 
estrada para atingir a previsão do futuro está traçada, significando que o 
fenômeno é possível. Só precisa de um elemento: o homem evoluído, ou seja, 
aperfeiçoado tanto psíquica como espiritualmente, que saiba pensar não só 
pelos meios racionais normais, como também pela inspiração e intuição, e 
possa assim perceber os planos mais altos, acima do normal relativo. E os 
profetas representam justamente esse tipo biológico de antenas sensibilizadas 
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pela evolução. Os verdadeiros profetas são também gênios e santos. Na 
profecia, o homem se aproxima das esferas superiores, em que não há tempo e 
que, por sua perfeição, são naturalmente determinísticas. E onde não existe o 
tempo, tudo é presente e os acontecimentos não aparecem cindidos na sucessão 
que os devora, ligados por uma cadeia de causalidades; onde tudo é 
determinístico, o futuro não pode ser um mistério. É assim que a profecia é 
possível, porque quanto mais se sobe para o ápice e para a unificação, tanto 
mais se pensa e se age com perfeição, isto é, deterministicamente. 
A profecia é, portanto, logicamente possível e é um ato de inspiração. 
Quanto mais ascendemos, na direção das grandes linhas da História, menos 
elas obedecem ao capricho humano, porque mais nos avizinhamos dos grandes 
planos da Lei, e mais esta comanda e se manifesta evidente em sua natureza, 
que é determinística. Para melhor compreensão, referir-nos-emos a um 
fenômeno paralelo, conhecido também na física atômica. O movimento de 
cada uma das moléculas num gás não pode prever-se, porque é livre e 
irregular. Podem mover-se devagar ou rapidamente em qualquer direção. Mas 
o choque de bilhões de moléculas de gás, contra determinada superfície, 
produz um impulso constante que obedece a leis simples e bem definidas. Num 
universo dirigido por uma lei única e unitária, é lógico que ocorra a mesma 
coisa com os seres vivos; e assim nô-lo mostram, com efeito, as estatísticas. As 
ações de cada homem são livres e irregulares e, portanto, não podem ser 
previstas. Mas, a conduta de grande número deles, por longos períodos de 
tempo, representa um fenômeno de massa, completamente diferente, e obedece 
a leis bem definidas e, portanto, pode ser conhecido antecipadamente, desde 
que conheçamos aquelas leis. Não fora isso verdade, ao menos com certa 
aproximação, e não poderiam existir e funcionar as companhias de seguros. 
Outra referência. A liberdade de cada homem pode comparar-se à dos 
peixes, de mover-se nas águas de um rio. Quando pudermos conhecer o 
caminho do rio, o que corresponde a leis simples, saberemos também o 
caminho obrigatório de todos os peixes livres que estão lá dentro. Então, 
quanto mais nos afastarmos do pormenor e de uma visão analítica das coisas, 
ou seja, quanto mais concebermos por sínteses, que é o processo da intuição, 
tanto mais nos aproximaremos do determinismo da Lei, mais fácil e possível é 
a profecia. Assim, o inspirado é profeta, melhor poderá perceber as linhas da 
História, a natureza e os movimentos da grande onda que carreia homens e 
acontecimentos. A liberdade do indivíduo é uma oscilação menor que 
permanece, e que ele sente como livre-arbítrio, e o é, mas, na multidão, 
desaparece para dar lugar a uma lei diferente, maior, universal e de síntese, lei 
que o indivíduo, imerso na análise e no pormenor, vendo apenas a si mesmo, 
não percebe, mas que o profeta, com olhos de longo alcance, vê, e dessa forma 
pode prever os acontecimentos. Ele descuida da oscilação menor, que faz parte 
apenas da observação microscópica dos indivíduos, e que lhes é indispensável 
para sua experiência e suas conseqüências evolutivas. Por isso o profeta se 
mantém, com observação macroscópica de síntese, nas altas zonas das grandes 
linhas dos acontecimentos históricos porque, quanto mais descer e se avizinhar 
do contingente dos pormenores, tanto mais lhe escapará o determinismo da Lei 
e mais estará sujeito ao arbítrio do indivíduo, nu-ma zona imprevisível. Daí 
deriva o fato de que a profecia nos aparece como algo que desce de outros 
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planos, o que leva a um deslocamento de mirantes e de valores, que desorienta 
a psicologia normal, que está ávida, ao contrário, de elementos particulares e 
positivos, próprios especialmente ao seu mundo. Assim se explica porque