Pietro Ubaldi   Profecias
153 pág.

Pietro Ubaldi Profecias


DisciplinaIntrodução à Teologia e História da Teologia91 materiais1.846 seguidores
Pré-visualização50 páginas
também pode acontecer que, na visão permitida pela contemporaneidade dos 
planos superiores, às vezes se misture, como no Apocalipse a normal sucessão 
dos acontecimentos, que depois se projetarão na Terra em forma de sucessão 
no tempo. É por isso que, nas profecias, falta com freqüência a precisão do 
tempo, que é a que mais gostaríamos de saber. Por isso é que mais emergem, 
ao invés, elementos morais, porque no plano de onde descem as profecias, eles 
são fundamentais, e as profecias descem para transmiti-los ao nosso plano. 
Assim, seu objetivo é de converter ao bem, mais do que se satisfazer nossa 
curiosidade ou de fazer-nos organizar defesas contra reações merecidas, e 
portanto necessárias. 
Se são essas as características da profecia, o problema de sua função é 
outro, quando a visão desce à Terra e é comunicada aos homens. Sua tarefa 
aqui é de avisar, para que os maus se encaminhem para o bem e para que os 
bons aí permaneçam com fé e paciência. O alvo das profecias na Terra é de 
indicar o cumprimento da Lei e de convidar o homem a segui-la de bom 
ânimo, se não quiser sofrer tremendos desastres. É natural, pois, que essas 
profecias se recusem à exploração que o homem quer fazer, ou seja, não 
querem fornecer informações e revelar o futuro, para que seja utilizado esse 
conhecimento não para o bem, mas contra o bem, isto é, para fazer a própria 
vontade e ter bom êxito nos próprios intentos e até na guerra contra Deus. Das 
profecias, então, não devemos esperar o que não podem nem devem dar-nos, 
ou seja, informações para dominar os acontecimentos, para escapar ao 
determinismo da Lei que deve premiar-nos ou punir-nos como merecemos. Por 
isso, se uma profecia tiver que dizer: "acontecerá isto ou aquilo", procurará 
logo retrair-se, cobrindo-se de véus, porque, se deve e quer avisar, deve ao 
mesmo tempo impedir que as forças do mal, porque involuídas são ignorantes, 
o saibam e disso se aproveitem, para organizar melhor suas batalhas contra o 
bem, é natural, assim, que muitos fiquem desiludidos das profecias e se 
desinteressem delas. Mas, as profecias não querem mesmo dizer tudo o que o 
homem, ao invés, desejaria; elas recusam-se a ser exploradas pelo mal; estão já 
prevenidas para impedir este mau uso que delas se desejaria fazer. As forças do 
mal que espiam essas luzes caídas do céu, para descobrir os desígnios divinos 
só para melhor zombar ou escapar deles, ou contrastá-los, respondem as 
profecias: "não, nada sabereis". Tudo o que do Céu cai na Terra tem que estar 
prevenido contra o mau uso que em nosso mundo se consegue fazer de tudo. 
Quantos olhos espiam, quantos ouvidos tentam escutar estas intuições do 
futuro. Que vantagem poder conhecê-lo por antecipação, para defender-se 
melhor! Ouvem-nas os bons, para ter coragem e perseverar, mas escutam-nas 
também os levianos, por curiosidade, e as escutam sobretudo os maus, para 
reforçar-se no mal. 
Ora, vimos que, no Alto, nas grandes linhas, o futuro é determinístico, e 
portanto não deve ser embaraçado em sua atuação pelo pequeno poder da 
liberdade humana que tem fim completamente diverso: isto é, experimentar e 
estabelecer as responsabilidades, porque as ações entram no campo da 
fatalidade e do destino logo que livremente realizadas. Quem interroga as 
Profecias Pietro Ubaldi 
 112 
profecias só para saber o futuro, e então pôr-se a lutar contra a Lei, deveria 
antes interrogar a si mesmo, para ver qual sua posição diante da Lei, a posição 
que livremente quis tomar, com suas obras. Quando a profecia desce à Terra, 
trazendo consigo as notícias de outro mundo, ela vem chocar-se com uma 
realidade totalmente diversa. Então, o estado determinístico dos planos 
superiores, situados acima do devenir ou transformismo evolutivo, entra em 
contato com aquele estado de incerteza da escolha que nós chamamos livre-
arbítrio. Neste ponto, o problema filosófico do contraste entre o livre-arbítrio e 
o determinismo, torna-se vivo, atual, porque é o contato real entre duas forças e 
posições opostas. E se já resolvemos esse problema, teoricamente e em linhas 
gerais (veja Problemas do Futuro, cap. XI, "Livre-Arbítrio e Determinismo"), 
agora o argumento das profecias oferece-nos uma confirmação e aplicação do 
mesmo. 
Tudo está enquadrado dentro de limites. O homem, que gostaria de 
conhecer os acontecimentos para modificá-los, deveria ao invés compreender 
que seu modo de ser, sua forma particular de vida, baseada na chamada 
liberdade, não pode alcançar os céus, reino das profecias; deveria compreender 
que sua liberdade não pode ultrapassar os confins do campo humano de ação, 
não pode ultrapassar o limite e entrar no campo da Lei, onde reina o 
determinismo do absoluto. Os dois campos são diferentes: num domina o 
desenrolar-se obrigatório das grandes linhas, no outro a incerteza da pequena 
oscilação do livre-arbítrio humano. Um campo não pode entrar no outro, 
embora nas profecias cheguem a tocar-se; mais até, o mais alto penetra no 
inferior, e a este é concedido olhar aquele. Cada um dos dois campos tem que 
obedecer às suas leis. Assim, uma profecia muito exata e evidente, seja em 
relação ao futuro próximo ou longínquo, viria alterar a liberdade humana, 
introduzindo nela novos elementos de decisão e perturbando o cálculo das 
responsabilidades. A profecia não tem o objetivo de tranqüilizar-nos para que 
possamos entregar-nos melhor às nossas comodidades, e para poupar-nos o 
esforço de vigiar e estar prontos, agindo sempre bem. Assim se explica aquela 
linguagem sibilina, com que a profecia parece gostar de esconder seu 
pensamento, justamente aí onde mais se desejaria saber. Dessa forma, se se 
anuncia como certo um acontecimento, esconde-se o tempo de sua realização, 
e tudo fica encoberto num simbolismo de difícil interpretação. 
 
J 
 
Após haver compreendido, nas linhas gerais, o significado e a natureza do 
ato profético, ocupemo-nos, agora, do Apocalipse. A interpretação do 
simbolismo com que se exprime esse grande livro, tentou muitas mentes, 
algumas delas movidas pela curiosidade e pela mentalidade de adivinho. É 
natural, então, que elas se tenham perdido no emaranhamento dos pormenores, 
ou tenham chegado às interpretações mais contraditórias, produzindo apenas 
discordantes círculos viciosos de fantasia. É inútil querer enfrentar esse livro 
sem antes ter conhecido e resolvido os grandes problemas da vida e da 
História. Inútil enfrentá-lo com olhos míopes, diretamente, por análises, sem 
saber antes olhar de longe, bem orientado pela visão panorâmica de síntese. A 
Profecias Pietro Ubaldi 
 113 
interpretação do Apocalipse não pode ser jogo de adivinhos, mas só trabalho 
de intuição e, ao mesmo tempo, raciocínio filosófico profundo. 
 
Muitas interpretações foram feitas com objetivo preconcebido, de modo 
que, ao invés de representar obra de pesquisa, representam uma tentativa de 
servir-se da autoridade desse livro, para fazê-lo pronunciar, e assim valorizar, a 
condenação dos próprios inimigos, provando o lado bom da causa do próprio 
grupo e a segurança de seu triunfo. As demonstrações e conclusões mais 
opostas são obtidas dessa maneira, com a mesma precisão de cálculos e 
surpreendente coincidência de fatos. Ora, é certo que o Apocalipse não foi 
escrito para serviço particular de ninguém, nem para alimentar antagonismos 
de um grupo contra outros. Ao contrário, poderemos dizer que, dado seu 
caráter universal, quanto mais impessoal for sua interpretação, tanto mais terá 
probabilidade de aproximar-se da verdade. 
Procuraremos, então, fazer aqui uma pesquisa lógica do Apocalipse, 
observando como seu pensamento concorda com o pensamento da Lei de 
Deus, dirigente da