Pietro Ubaldi   Queda e Salvação
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Pietro Ubaldi Queda e Salvação


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do caminho da evolução. 
Há duas grandes forças que operam neste sentido: uma negativa e outra 
positiva, colaborando para atingir a mesma finalidade. Pela primeira, o ser é repelido para 
longe do AS, pela segunda, ele é atraído para o S. Quanto mais o ser insiste na revolta, tanto 
mais ele desce para o AS, isto é, aprofunda-se nas suas qualidades de negatividade, que são as 
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trevas, a dor, a morte. Ora, como é possível que o ser queira insistir para sempre num caminho 
que o leva para uma tão absoluta negação do que ele mais almeja? O que vai contra ele mesmo, 
contra a sua própria natureza, não pode durar. 
Por outro lado, quanto mais o ser se torna obediente à Lei, tanto mais ele se 
aproxima do S, isto é, ganha nas suas qualidades de positividade, subindo para a luz, para a 
felicidade, para a vida. Como pode o ser continuar usando a sua liberdade no sentido de 
aumentar o próprio dano e diminuir a própria vantagem, quando o seu instinto quer o oposto, 
isto é, diminuir o primeiro e aumentar o segundo? O fato é que há sempre maior vantagem em 
obedecer e sempre maior dano na desobediência. Do fundo do senão pode deixar de falar a sua 
própria natureza íntima, que é a de ser cidadão do S. Acontece então que automaticamente a 
posição em descida se faz cada vez mais insustentável e insuportável. Eis que o problema tende 
a resolver-se por si mesmo, porque a mecânica da utilidade cessante e do dano emergente, por 
si mesma leva fatalmente ao arrependimento à retificação. 
Tudo isto, porém, não basta para destruir a possibilidade teórica duma revolta 
perpétua e definitiva, possibilidade que não se pode negar, porque sem ela a liberdade do ser 
não seria mais liberdade. É necessário que a obra de Deus esteja em absoluto acima de toda 
tentativa de alteração, inatingível na sua perfeição. Então, há no fim outro meio, último e 
definitivo de defesa: o da destruição do ser. Veremos agora em que sentido. 
Antes de tudo a lógica impõe ter de admitir essa possibilidade teórica, porque 
se não se admitisse a mesma, seria necessário admitir-se uma possibilidade ainda mais difícil 
de aceitar: a da criatura destruir a obra de Deus. Resta então apenas uma solução: quando o ser 
quiser usar a sua liberdade para permanecer definitivamente rebelde a Deus, então não é 
escravizado; ele é eliminado. Essa solução é devida a duas impossibilidades: 
1) a de tirar ao ser a liberdade, violando a própria natureza da divina 
substância de que é constituído. 
2) a de permitir que tal liberdade possa destruir a perfeição da obra de Deus. 
Temos falado de destruição e eliminação do ser. Como é 
que isto acontece? 
Neste caso também, Deus continua sempre respeitando a liberdade do ser. 
Não é que Deus o queira destruir à força, o que sereia pior que tirar-lhe a liberdade. A 
destruição do ser está implícita na própria estrutura do fenômeno. O ser não fez na liberdade o 
uso para o qual ela estava destinada, isto é, no sentido positivo, construtivo, mas a empregou às 
avessas, em sentido emborcado, isto é, negativo, destrutivo. É lógico que, com a revolta o ser, 
aprofundando-se cada vez mais na negatividade do AS, por si mesmo acabe destruindo-se e 
eliminando-se. É lógico que, no caso limite da revolta perpétua e definitiva, o ser tenha que 
atingir o extremo do processo de emborcamento da positividade na negatividade, isto é, um 
estado de destruição completa de toda a positividade e de absoluto triunfo da negatividade, o 
que quer dizer o nada. É automático e fatal que, por sempre querer negar tudo, o ser rebelde 
acabe negando até a si próprio, até ao seu próprio aniquilamento. Não quis ele, usando a sua 
livre vontade, destruir todas as qualidades positivas que possuía no S? E o que pode ficar 
quando tiramos de uma entidade tudo o que é positivo? Não pode ficar senão o nada. Eis a 
solução, automática e fatal, implícita no próprio fenômeno da queda, sem intervenções coativas 
e exteriores. É o próprio fato de ter o ser desejado com a revolta escolher o uso do método da 
negação, que fatalmente deve levá-lo para o seu aniquilamento do nada. 
Tudo é simples e claro, regido por uma lógica perfeita, como num processo matemático. A 
dificuldade em compreendê-lo está no fato de que estamos acostumados a pensar 
antropomorficamente e ficamos fechados nessa forma mental, também quando enfrentamos 
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esses problemas. Por isso eles não são equacionados de modo certo e, não encontrando 
explicação, tudo tem de acabar na fé cega e no mistério. Mas esta não é solução, não pode ser 
aceita hoje, que a mente humana vai amadurecendo. Deus não é exterior 
aos fenômenos, como o é o homem que vive no relativo. Seria pensar antropomorficamente. 
Deus é interior a tudo o que existe, como o nosso eu é interior ao nosso corpo e nele age, o 
movimenta e cura, por dentro e não de fora para dentro. Eis o que nos ensinam estes 
fenômenos que vamos observando. 
Continuando o nosso processo lógico, poder-se-ia, porém, contrapor esta 
dificuldade: o ser, criatura filha de Deus, é antes de tudo espírito, constituído da substância de 
Deus que é eterna. ora essa substância e o espírito feito com ela, porque não tiveram origem, 
não podem ter fim, porque não foram criados, não podem ser destruídos . 
Respondemos: que foi criado na primeira criação realizada por Deus? O que 
nasceu não foi a substância, mas a sua individualização pessoal, que constitui o ser. A 
substância de Deus é a sua obra que, com a criação, foi transubstanciada no particular modelo 
da individuação pessoal. Somente esta individuação teve um nascimento. Por isso, ela somente 
pode morrer. Então o aniquilamento final de que aqui falamos, se pode referir só a essa 
individuação, que constitui o ser, e não à eterna substância da qual ele é constituído. Eis que, 
quando entendemos o conceito de destruição e aniquilamento neste sentido, tudo se torna 
lógico, claro e admissível . 
Tudo isto é também justo, porque o rebelde, neste caso, acaba destruindo 
somente a si próprio e nada mais, só a sua individuação, seu eu pessoal e nada do que pertence 
ao S, à Lei, nem aos outros elementos que não se rebelaram ou que escolheram recuperar o que 
tinham perdido, seguindo o caminho de volta. Assim o mal fica sempre fechado em si, isolado, 
levado à destruição só de si próprio, quando o singular elemento livremente o quiser. Ninguém 
pode ser infectado por essa doença, que mata só quem a gerou dentro de si e quis depois, 
definitivamente, aceitá-la. 
Tudo isto é justo, também, porque a destruição do ser é o retorno contra ele, 
do impulso de destruição que ele com a revolta lançou contra o S. Quanto mais aprofundamos 
a nossa pesquisa para compreender a estrutura da Lei e as suas reações, tanto mais nos 
apercebemos que não há um Deus à imagem e semelhança do ser humano que intervém 
premiando ou punindo. Os fatos falam diferentemente. Deus não opera nesta forma 
antropomórfica. Embora Ele exista em forma pessoal no Seu aspecto transcendente, em nosso 
universo não O encontramos, a não ser no Seu aspecto imanente em forma impessoal, presente 
a todos os fenômenos e individuações do Ser. Então, quando nós violamos a Lei e ofendemos 
Deus, não é que a Lei reage ou que Deus pune; são as forças do S que nos devolvem os 
impulsos que lançamos contra Ele. É o retorno dos nossos próprios impulsos que ricocheteiam 
para trás, que proporciona a reação à ação e as equilibra, constituindo a base da justiça divina. 
O que os fatos nos dizem a respeito da natureza de Deus, é diferente do que o homem, 
pensando antropomorficamente, até agora imaginou. É difícil para ele, acostumado à incerteza