Pietro Ubaldi   Queda e Salvação
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Pietro Ubaldi Queda e Salvação


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da revolta, e se fundamenta sobre o princípio de contradição. É 
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por isso que a ética tomou a forma dualística de erro e sua correção. Até às suas últimas 
conseqüências, tudo é o resultado da primeira revolta, da qual se conservam os caracteres 
fundamentais. Eis por que a luta de todos contra todos é o motivo dominante de nossa vida. 
Sem a revolta. dada a exigência lógica, absoluta, que Deus seja unidade, o fato inegável dessa 
contraposição dualista, não se poderia explicar. Entre as duas partes não há outra ponte que 
possa ter estabelecido uma passagem, a não ser um desvio que tenha realizado o 
emborcamento. O ser quis separar-se? Eis a separação desejada: o dualismo e a luta. A 
presença desta, prova a revolta, sem a qual não se explica como esse método e estado de luta 
poderia ter nascido. Nem se compreenderia como um Deus unitário tivesse escolhido essa 
técnica separatista, de oposição de contrários, quando o principio Dele é o da unidade. 
Só assim se explica e justifica o fato de que existe uma Lei, que é regra de 
vida, e ao lado dela o impulso da desobediência. Não é esta a história de cada ato nosso e da 
nossa vida? Temos sempre, de um lado o legislador e a ética que se querela impor à forca, e do 
outro o instinto humano da revolta. Não é verdade que sabemos o que teríamos que fazer e que 
acabamos fazendo o contrário? Está sempre presente a Lei, que representa a ordem do S. Mas 
parece que essa afirmação solene dos nossos deveres esteja aí só para ser renegada nos fatos a 
cada passo. A Lei é sempre a pedra angular do edifício da vida, mas só para nós batermos a 
cabeça contra ela em choques contínuos. O que quer prevalecer em tudo, não é a ordem do S, 
mas a desordem do AS. Tudo isto tanto mais é verdade, quanto mais, descendo 
involutivamente nos aproximamos do AS e nos afastamos do S. Prevalece então sempre mais o 
princípio divisionista e a luta se torna mais feroz. O contrário se verifica se subirmos 
evolutivamente e nos aproximamos do S que representa o princípio unitário, até a luta 
desaparecer completamente na harmonia universal. 
Se o sistema da luta é o que domina em nosso universo, ele não existe no S; 
gerado pela separação, ele desaparecerá com o regresso ao ponto de partida. A primeira e 
maior luta foi entre a criatura rebelde e Deus. No estudo da ética veremos voltar esse motivo da 
luta a cada passo, entre a Lei que representa a ética e o ser que, na sua conduta, não quer 
seguir-lhe as normas. Vemos desaparecer sempre o mesmo contraste entre a vontade do ser e a 
de Deus. Eles são os centros dos dois impulsos e os dois elementos básicos do problema da 
ética que enfrentaremos, Mas não se trata de um contraste inútil, destrutivo, mas construtivo, 
porque se vai resolvendo sempre mais até desembocar na salvação. Seja o que for que o ser 
realiza, ele tem de voltar à ordem da Lei. O AS rebelde se contrapõe à positividade do S na 
posição menor de negatividade. O impulso da positividade é maior e por isso tem de vencer, 
levando tudo à salvação final. 
Esta é a maravilha do processo da queda: a semente da salvação foi 
depositada nela, salvação automática e fatal. Estamos observando a técnica desse fenômeno. O 
nosso universo é caos e luta, para transformar a desordem em ordem, a guerra em paz, as 
rivalidades em concórdia. Compreende-se e se justifica este triste fato - ainda que ninguém o 
queira, aparece insuprimível: a guerra -- um acontecimento inconciliável com a bondade de 
Deus e com as regras da moral que o homem prega. O que ele prega representa o impulso 
salvador do S; o que ele faz deriva do impulso destruidor do AS. Explica-se assim a ferocidade 
da vitória do mais forte sobre o mais fraco, que não se coaduna com a justiça de Deus. No 
entanto, por intermédio das rivalidades, se realiza o progresso, que faz vencer o mais adiantado 
e que sempre mais vai destruindo a ignorância, o mal e a dor. Desse triste palude desabrocha a 
esplêndida flor da redenção e da salvação. O impulso para o emborcamento acaba 
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emborcando-o, ou seja: ele mesmo, automaticamente, tudo retifica. Tantos extermínios de 
vidas nas guerras existem para se chegar à paz tantas inimizades, para chegar a compreensão, 
tão grande mar de sofrimentos tem de ser atravessado para se chegar à felicidade. Eis o 
significado da presença da dor e da luta numa criação que foi obra da bondade de Deus. 
A luta está destinada a resolver-se. A monstruosidade emborcada, o AS, saiu 
do S como um aborto. O câncer não tem direito à vida. A negatividade nada pode gerar, porque 
termina na sua própria destruição. O AS é uma doença contida no organismo sadio do S. Mas o 
S é Deus, isto é, um organismo tão forte que não há doença que possa vencê-lo. Então não é a 
doença que destrói o doente, mas é o doente que destrói a doença. O antagonismo existe em 
posição de inferioridade para quem se rebelou à ordem. Não pode vencer uma batalha quem se 
coloca e a faz em posição emborcada. Não pode avançar quem quer ir para trás. Nada se pode 
construir com os métodos destruidores da negatividade. Como pode a revolta alcançar sucesso, 
se ela consiste em colocar-se em posição de inferioridade? Quem toma esse caminho sempre 
trabalha em perda, e desde o início, pelo seu próprio método, está condenado à derrota. Esta 
derrota é a dor. Eis por que, para não ficar derrotado no sofrimento o rebelde tem que voltar 
dele mesmo à obediência. 
No S tudo é positivo. A negatividade foi um produto da revolta, com esta 
nasceu para terminar no seu próprio auto-aniquilamento. A unidade fundamental originária 
reabsorverá toda a cisão do dualismo. Mas com a revolta, até que se tenha tudo saneado, o ser 
que antes existia apenas numa posição, teve de viver oscilando entre os dois pólos opostos, o 
da positividade e o da negatividade. E ele terá de viver assim oscilando, até que tenha com o 
seu esforço- e sofrimento reabsorvido e neutralizado essa oscilação, reconduzindo a separação 
do dualismo à unidade. 
Como é possível encontrar a felicidade na negatividade? É como querer 
encontrar a plenitude da vida na morte. Como podia a revolta com essa lógica estranha realizar 
o absurdo? E o homem repete esse erro todas as vezes que se afasta da linha da Lei, isto é, das 
normas de conduta da ética. É o impulso inicial da rebeldia que novamente o leva a lutar contra 
Deus. Também nesse terreno das menores desobediências, como é possível construir 
destruindo, avançar retrocedendo, adquirir as qualidades do S, descendo para o AS? É lógico 
que, se a função da revolta é a de tudo emborcar, a sua lógica constitua um absurdo, nesse caso 
representado pelo fato de se querer procurar a felicidade onde não é possível encontrar senão 
dor. O princípio é sempre o mesmo. O processo de recuperação é só um. Não se pode sair do 
inferno do AS, senão subindo até ao S; não é possível libertar-se do sofrimento senão 
reintegrando a desordem na ordem, voltando em obediência ao seio da Lei . 
O absurdo da revolta é o de se acreditar que seja possível chegar à 
positividade ou felicidade, seguindo o caminho da negatividade, que é o da desobediência. A 
lógica do movimento oposto, da salvação, consiste em saber que somente se chega à 
positividade ou felicidade, percorrendo o caminho da retificação da negatividade em 
positividade. Continuaremos sempre encontrando frente a frente, de um lado o absurdo do ser 
rebelde, e do outro a lógica da Lei, esta corrigindo e ensinando para salvá-lo. É a lógica da 
obediência que retifica o absurdo da revolta. Eis o significado das palavras que Cristo deixou 
para repetir em Sua oração do Pai nosso: "seja feita a Tua vontade".