Pietro Ubaldi   Queda e Salvação
207 pág.

Pietro Ubaldi Queda e Salvação


DisciplinaIntrodução à Teologia e História da Teologia91 materiais1.839 seguidores
Pré-visualização50 páginas
os conceitos de dor e de volta para o 
bem e a salvação. 
Mas os princípios de negatividade e positividade contêm também outros 
conceitos e aspectos. Vimos que a Lei reage retificando o primeiro movimento com o segundo, 
isto é, corrige o erro com a dor. Por quê e como acontece isto? Qual é a mecânica desse 
processo? Com que técnica se cumpre o fenômeno da salvação ou redenção? Eis o que vamos 
estudando, com esse conteúdo e objetivo ético: a norma que dirige a nossa conduta, premiando 
os nossos esforços positivos, refreando e endireitando os afastamentos para o negativo, e 
sempre nos reconduzindo para o caminho certo da salvação. O ser rebelde é louco. A Lei é 
sábia. O ser quer encontrar as qualidades positivas nos caminhos das negativas. A Lei, para 
salvá-lo, o reconduz com a dor aos caminhos da positividade. Esse é o jogo da mecânica da 
salvação. O ser rebelde quer encontrar a luz nas trevas, mas a Lei o reconduz à luz; quer 
encontrar a vida na morte, mas a Lei o leva novamente para a vida. 
Descemos aqui o terreno das teorias gerais, penetrando sempre mais na 
prática de nossa vida. Problemas que nos tocam de perto e nos interessam, porque se trata de 
nosso sofrimento ou bem-estar. Com a revolta o ser foi à procura de felicidade, mas fora da 
ordem, da regra e justa medida, o que representa um absurdo. É lógico então que, seguindo o 
caminho da revolta que é emborcamento, o ser encontrasse o sofrimento. Poderia perguntar-se: 
por que motivo o caminho da volta, reconstrução, é feito de dor? Porque o ser procurou a 
felicidade, que é qualidade positiva, no terreno da negatividade, com a desobediência na 
desordem e não com a obediência na ordem, no AS fora do S, isto é, às avessas. É lógico que 
ele encontrasse felicidade às avessas, isto é, dor. Aqui está a tragédia da revolta. Eis o erro 
fundamental do ser, o que o fez fracassar no absurdo. Para crescer demais fora da ordem, ele 
entrou na desordem; para se afirmar além dos limites devidos, entrou a negação. Para se 
estender além da lei da sua existência, o ser saiu do S, isto é, da positividade e de todas as suas 
qualidades, e entrou no AS, isto é, na negatividade com todas as suas qualidades. Assim, do 
Queda e Salvação Pietro Ubaldi 
 
 53 
bem o ser caiu no mal, da luz nas trevas, da vida na morte, da felicidade na dor etc. Tudo é 
lógico. Então ele tem de ficar no mal, nas trevas, na morte, na dor, imerso nesse mar de 
tristeza, até o ter atravessado todo, reabsorvendo a negatividade que passou a ter com a revolta 
e, assim neutralizando-a, voltar à Lei, reintegrando-se na positividade perdida. 
Com a revolta, quis fazer de si mesmo centro e ponto de referência, enquanto 
o centro só pode ser Deus e nada pode existir senão em função desse ponto de referência. Eis 
por que com a revolta o ser não podia adquirir senão qualidades negativas. Elas agora são suas 
e não há outro caminho para libertar-se delas senão a marcha à ré da reabsorção da 
negatividade e da recuperação da positividade. Para endireitar-se, é necessário que o ser 
cumpra à sua custa o trabalho de redimir-se e com o seu retorno cumprir, no caminho da fuga 
da ordem, a fadiga de voltar atrás em disciplina, assimilando a sua culpa. Isto é dor, e eis 
porque ela adquire qualidades positivas de recuperação. Eis a sua origem, a razão da sua 
presença, a função que cumpre, o objetivo que deve atingir. 
O impulso fundamental do existir é sempre o do S, isto é, positivo, o da 
própria vantagem. Mas o ser tinha de realizar esse impulso positivo neste sentido, dentro da 
ordem. O erro do ser foi querer realizá-lo em sentido negativo, fora da ordem, dai o seu dano. 
Eis por que a linha NN1 a do erro, é também a linha de prejuízo do ser, enquanto a linha N1N, a 
da dor, é a de sua vantagem. Assim pelo fato de que a linha do erro é a do emborcamento ( - ), 
e a dor é a do endireitamento ( + ). 
Mas as linhas da negatividade e positividade têm também outros significados 
afins e paralelos. Observemo-las para esclarecer melhor o assunto. A primeira é a linha dos 
rebeldes, dos criminosos, dos guerreiros, dos chamados fortes que, à disciplina de todos os 
seres no estado orgânico do S, ao redor do centro único ou "Eu" de Deus, substituíram a revolta 
na desordem do caos, cada ser por si mesmo, ao redor de tantos pequenos centros ou 
egocentrismos individuais das criaturas. O método delas nessa sua posição, não é a espontânea 
colaboração, mas a imposição pela força. Podemos agora compreender por que existe na Terra 
a lei do mais forte, o que ela significa e por que se pratica esse método de vida. Podemos 
compreender como o princípio vigorante em nosso mundo, o da luta e da vitória do mais forte, 
represente um princípio separatista e, por isso, próprio do AS e não do S. Isto quer dizer um 
estado primitivo, involuído, mais próximo da animalidade que do homem evoluído. Então essa 
lei biológica não é uma expressão de positividade, isto é, de poder construtor, como se acredita, 
mas de negatividade, isto é, de poder destruidor; já que é uma sobrevivência de estados 
involuídos do passado, perante a Lei que quer o evoluído do S e não o involuído do AS, 
representa não força, mas fraqueza, não virtude, mas defeito, não vitória, mas derrota. O 
principio da força parece ser de afirmação, mas o é só em função do ponto de referência: 
homem. Mas isso significa caminhar às avessas, contra a Lei, Perante Deus quer dizer 
afastamento ao longo da linha do erro. 
De fato, o método do triunfo do mais forte leva a ganhar não em sentido 
positivo, gerando e construindo, para o bem dos outros, o que conduz para o S, mas em sentido 
negativo, escravizando, destruindo, matando, semeando para os outros, como acontece em 
todas as guerras, mal e sofrimentos, o inferno do AS. O vencedor não cria nada, mas só ganha 
espaço vital subtraindo-o aos demais. Tal é o método das rivalidades, oposto ao da concórdia. 
Estamos no caminho da negatividade, no qual se conquista a vida própria tirando-a dos seus 
semelhantes enquanto que no caminho da positividade para conquistar a vida é necessário 
Queda e Salvação Pietro Ubaldi 
 
 54 
procurá-la para os outros. Eis os dois tipos: o do guerreiro, egoísta e agressivo, e o do homem 
pacífico do Evangelho, altruísta, pronto a colaborar. O primeiro é positivo só em relação à gota 
de água, que é o seu mundo, do qual ele se faz centro; mas ele é negativo em relação ao 
universo, do qual sem saber faz parte e cujo centro é Deus. O mártir do sacrifício para o bem 
de todos é negativo dentro da gota d\u2019água humana, mas é positivo dentro do universo perante 
Deus. Tudo está emborcado em nosso ambiente terreno e, por isso, se julga fraco e se condena 
como tolo quem se sacrifica para o bem do próximo. Explica-se assim por que há um absoluto 
antagonismo entre o mundo e o Evangelho, porque existem, e o que significam esses dois 
métodos opostos. O homem do dever sacrifica-se, mas constrói na ordem, o homem da força 
triunfa em proveito próprio, mas destrói porque é rebelde à ordem; o mártir morre, mas semeia 
vida, o herói do mundo vence e vive, mas semeia morte. O sacrifício em obediência à Lei 
reconstrói ao longo da linha positiva da dor; a força na revolta à Lei destrói ao longo da linha 
negativa do erro e do mal. O triunfo do mundo é emborcado ao negativo, nos antípodas do 
triunfo positivo, nos céus; representa a vitória das células do câncer; e não a das células sadias 
do organismo. O triunfo do mundo se constrói esvaziando e destruindo e não gerando e 
construindo valores. Por isso o homem fica sempre insaciável, porque aquele nutrimento é 
fingido, negativo, não satisfaz, mas apenas dá fome. 
Verifica-se então esse fenômeno: o caminho representa