Pietro Ubaldi   Queda e Salvação
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Pietro Ubaldi Queda e Salvação


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de vida, e a morte, de morte. 
Mas quando pelo contrário o ser se encontra na posição emborcada de negatividade, cujo ponto 
de referência é o "eu" individual, em função do AS, a vida assim concebida tem de adquirir o 
valor de morte, e a morte valor de vida. Para quem vai do + para o -, é lógico que tudo seja às 
avessas de quem vai do - para o +. 
Eis um exemplo que nos mostra como a mente humana, ainda emborcada no 
AS, é levada a conceber tudo às avessas: as religiões concebem a ressurreição de Cristo como 
um milagre (prova de sobrevivência), encarando-a como prova da morte. Ela é prova de vida 
para a psicologia do involuído do AS, porque para ele a vida está no corpo; mas ela é morte 
para a forma mental do evoluído, porque para ele a vida está no espírito. O dato de que o 
homem concebe a ressurreição de Cristo como prova de vida física, demonstra que ele concebe 
como positivo o que é negativo, julgando ser vida o que é morte. Somente pode fazer isto o ser 
que está situado na negatividade do AS. Para o ser situado no pólo oposto ( + ): o corpo ( - ) 
representa apenas a forma, a casca que aprisiona o espírito, não vida mas morte, o abismar-se 
da positividade na negatividade. O mito da ressurreição de Cristo, satisfazendo o instinto do 
homem, deifica este produto da negatividade, a matéria, levando-o para fora da Terra, o único 
ambiente onde ele pode ter uma razão de existir, razão que não há nos céus. 
Que a maior paixão de Cristo consista em ter descido até à matéria, isto é 
inconcebível. Mas que Ele tivesse de levar consigo aos céus as ferramentas da sua maior 
tortura, é difícil compreender. Tanto mais isto é verdade, que essa sobrevivência nos céus, dum 
corpo feito só para a Terra, e em nada proporcionado ao seu ambiente, implicava o fato de o 
espírito de Cristo continuar morando aprisionado nele, a não ser que o colocasse dc lado como 
uma relíquia sem vida, outro cadáver para enterrar. Então essa ressurreição não seria a 
continuação da vida de Cristo, mas a do seu aprisionamento na negatividade da matéria, o que 
para o espírito é morte, Impor a Cristo essa condenação para sempre, mesmo depois de Ele 
com a morte ter atingido a libertação, é crueldade demais, E sem essa libertação pela destruição 
do corpo físico, como podia com o invólucro de animalidade humana voltar ao Pai? 
O homem, porque vive na negatividade do AS, acredita que a vida e o "eu" consistam 
no corpo. Para ele a morte é morte e não libertação. A verdadeira ressurreição está nessa 
destruição material, que liberta o espírito. A sobrevivência física é morte. Mas, para o homem 
que concebe a sobrevivência às avessas, é necessário que esse corpo saia do túmulo, para 
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continuar vivendo. o homem concebe tudo à sua imagem e semelhança, porque não pode 
pensar senão com o seu cérebro e a sua forma mental, que é filha do plano físico onde ele se 
encontra. Tudo o que sai desse seu mundo desaparece como morto, não existe mais, porque 
não é percebido. As idéias do homem saem do seu cérebro para satisfazer as suas necessidades. 
Ele assim tudo transforma em mito para o seu uso conforme as suas exigências mentais. E isto 
é justo porque as religiões são feitas para o homem. O mito é uma adaptação dos fatos às 
necessidades de sua psicologia humana, que assim os transforma. A verdade é outra coisa, que 
existe de modo independente da maneira como o homem a vê. Prova-o o fato de que as 
interpretações que dela o homem faz mudam e evoluem com o seu cérebro, o que prova o 
ponto de referência é o "eu" humano. Isto quer dizer antropomorfismo, que é egocentrismo, 
demonstrando que o ser humano pertence ao AS. 
O mundo, pelo fato de que está imerso no AS, é ignorante E por isso que vive 
enganado e acredita que a vida, seja vida, enquanto é morte, que o caminho da desobediência o 
leve à felicidade, enquanto o leva à dor. E quanto mais ele se apega a essa sua vida de 
emborcado em busca de gozo, tanto mais se aproxima do sofrimento. Tudo isto se explica com 
plena logicidade e justiça, porque para quem vive na negatividade, não observa senão o 
contrario do que aparece, porque todas as afirmações se tornam negações. Por isso o mundo foi 
definido como a Grande Maya2 ou ilusão. Quem tem a sua forma mental, que é emborcamento 
na negatividade, ao invés de vida encontra a morte. 
Acontece que, quando o herói da forca acredita obter vida vencendo na Terra, de fato 
ele obtém morte, porque endividando-se, depois tem de pagar; com a violência lucra e triunfa, 
mas involuindo, isto é, descendo a dor do AS, positividade aleatória que é dívida de 
negatividade, vida temporária que amarra à necessidade de morrer. E quando o mártir do 
sacrifício perde vida vencido na Terra. de fato ele ganha vida porque dá, assim adquirindo 
crédito, pelo qual terá de ser compensado; com a bondade e o seu sofrimento perde, é vencido, 
mas evoluindo, sobe para a felicidade do S, positividade estável que não é empréstimo a 
devolver, vida eterna. onde a morte não existe. O primeiro método parece certo, mas esta 
errado porque é contraproducente, isto é, gera dano ao invés de vantagem. O segundo método 
parece errado, mas está certo porque é produtivo, isto é, gera verdadeira vantagem e não dano 
como parece, e não pode ser de outro modo. No terreno do emborcamento não pode existir 
senão verdade às avessas, isto é, engano. Tal é o método do mal, o de prometer vantagem, e 
fazendo o contrário. 
E lógico que as vitórias do mundo sejam contraproducentes, porque o caminho é o da 
negatividade. Os triunfos do mal são como o afirmar-se da vida do câncer. Quanto mais ele 
cresce e vence, tanto mais se aproxima da morte, porque é negativo, não tem vida própria e não 
pode viver senão destruindo a vida dos outros. Esta é a automática punição dos vencedores à 
custa dos outros, dos que com a força ou a astúcia, quereriam furtar-se à justiça da Lei. Nada se 
pode ganha ganhar com o roubo. O que é fictício não pode dar senão frutos fingidos. Mais cedo 
ou mais tarde cada um tem de ficar reduzido aos seus valores substanciais. O que é negativo e 
quereria viver à custa da positividade dos outros, tem de acabar aniquilado no vazio da sua 
negatividade, Quem age, positivamente, ganha vida, quem age, negativamente, ganha morte. O 
primeiro evolui para o S e vai-se enchendo de vida e enriquecendo de todas as qualidades 
positivas. O segundo involui para o AS e vai-se esvaziando de vida e empobrecendo de todas 
as qualidades positivas e adquirindo as negativas. Por isso, como já há pouco nos referimos, as 
conquistas do mundo nunca chegam a satisfazer a insaciável fome de nossa negatividade. 
O vencedor no mundo não é vencedor'. Na sua vitória está a sua condenação, porque 
 
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 - Termo sânscrito: engano, apar6encia (N. da E.) 
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com ela ele penetrou mais e se tornou rei no reino do AS, que é o reino das dores. As vitórias 
humanas vacilam e acabam caindo, porque não têm base Não se pode adquirir coisa alguma 
furtando-a aos equilíbrios da Lei. A felicidade só pode ser atingida permanecendo-se na ordem 
do S, com o método positivo. Pela própria estrutura do fenômeno, com o método da 
negatividade, nunca se poderá encontrar senão felicidade emborcada, isto é, dor. A condenação 
do rebelde está no fato de que ele não pode seguir outro caminho. A sua meta natural e fatal é o 
fracasso, Furtar felicidade não pode dar felicidade, mas carência de felicidade. A punição está 
no fato de que o rebelde pela sua própria posição tem de acreditar no absurdo, e na 
possibilidade de se realizar alguma coisa ao negativo. Com o método