Pietro Ubaldi   Queda e Salvação
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Pietro Ubaldi Queda e Salvação


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em forma de 
dor, da qual não há força que permita e o faça fugir. É assim que se realiza a ação saneadora por 
meio da dor, porque o homem, realizando as suas experiências, vai aprendendo pelas reações 
dolorosas que recebe, e com isso, adquirindo uma sabedoria que lhe ensina a não mais se rebelar, 
ou seja, a não mais se desviar por meio do erro fora do caminho certo da Lei. A dor existe como 
método de ensino e educação na escola dos primitivos. 
Os involuídos são ignorantes porque, decaindo no AS, perderam a luz da inteligência, 
que é qualidade das criaturas da S. Ora, para ensinar aos ignorantes não se podem usar os meios 
duma inteligência que eles não possuem. Por isso é necessária e aparece a dor, porque este é o 
único raciocínio que eles podem compreender. Não há outro meio para que na forma mental. de 
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um rebelde possa entrar o convencimento de que o caminho da desobediência não representa uma 
vantagem, mas é prejuízo, não leva à felicidade, como só um emborcado na lógica do absurdo 
pode acreditar, mas de fato leva à dor. O ser ignaro, por falta de conhecimento, vai 
experimentando ao acaso, por tentativas, de todos os lados. E para ele aprender o caminho certo, é 
necessário, todas as vezes que entrar na porta errada, ser repelido para trás, porque ao invés de 
encontrar a almejada felicidade, encontrou a dor. Até ele, pelo muito experimentar, descobrir a 
porta certa e entrar nela. Isto se verifica quando o ser, cansado de todas as experiências realizadas 
no terreno do AS, desiludido por não ter aí encontrado a felicidade, acaba apercebendo-se de que 
esta é inatingível no AS. Então é constrangido a procurá-la alhures, com uma fuga do mundo 
inferior que o traiu. Inicia então uma nova tentativa em direção diferente, evadindo-se nos céus, 
isto é, em superiores níveis de evolução. Verifica-se assim o fenômeno da sublimação dos 
instintos e aparece o homem superior e o santo. Quando o homem tiver assimilado todo o fruto da 
sua escola terrena, então não será mais ignorante e tão simplório que vá de encontro à Lei, 
errando, mas pelo contrário se terá tornado inteligente, e por isso acabará com a loucura de 
cometer erros, de modo que não receberá mais o seu efeito, que é a dor. 
Esse choque entre tais impulsos opostos nos mostro de um lado a loucura do homem que 
quer procurar a felicidade, onde é absurdo que ela se encontre, e de outro lado a sabedoria da Lei. 
que usa a dor como meio seguro para que o ser compreenda qual é o caminho para atingir essa 
fe1icidade. De um lado é lógico que o ser, porque é um revoltado, seja levado a percorrer o 
caminho às avessas. De outro lado é lógico também que a Lei, sábia e boa, o endireite com o 
único meio possível a dor, deste modo dirigindo-o para o único caminho que leva à felicidade, 
Dada a estrutura do sistema do universo, é absurdo que esta possa ser encontrada pelos caminhos 
da revolta à ordem de Deus, enquanto é lógico que, procurando a felicidade no AS, isto é, às 
avessas, com a revolta, em vez da obediência, não se possa encontrar senão o oposto, isto é, uma 
felicidade, emborcada, o que quer dizer: a dor . 
Esta é a estrutura da lógica desse jogo entre os dois impulsos opostos: o erro, da parte do 
ser, e a dor da parte da lei. O se! está livre de movimentar-se à vontade, mas só dentro das 
paredes da gaiola de ferro que é a Lei. Ele, com a sua experimentação, livremente. tem de 
aprender a dirigir-se com exatidão, sem fazer movimentos errados que o levem a bater a cabeça 
contra as paredes. Se age em harmonia com a Lei, tudo corre bem, sem choques, Mas se vai 
contra Ela, eis que se realiza o atrito que se chama dor. Quanto maior for a desobediência do ser e 
o seu desvio fora da ordem, tanto maior será o oposto impulso da reação da parte da Lei, na 
forma de dor, para restabelecer o equilíbrio. Quanto mais baixo o nível evolutivo do ser e mais 
rebelde ele é contra a ordem, tanto maior é a reação da Lei, para que tudo volte à ordem, Tudo 
automaticamente se equilibra em perfeita justiça. 
O ser está livre e pode cometer à vontade todo os erros que quiser. A eles, porém, segue 
a dor que queima, Fica assim a regra absoluta à qual. ninguém pode fugir, e o ser não deseja cair 
na dor. logo ele tem de aprender e seguir as normas da boa conduta. O S é como um grande 
relógio que funciona com perfeição, porque cada roda está no seu devido lugar funcionando em 
devida ordem. O AS é um relógio cujas rodas se deslocaram emborcando os seus movimentos, 
numa desordem que gera atrito, isto é, dor. Para sair desse estado de sofrimento, o ser tem, com o 
seu, esforço, de eliminar os atritos que o geram, e, para eliminar os atritos, é necessário reordenar 
toda esta desordem, colocando cada coisa no seu devido lugar e aprendendo a movimentar-se 
ordenadamente. Este duro trabalho lhe pertence, porque foi ele que com a revolta gerou a 
desordem. Os seres são as rodas do relógio que saíram de posição e se atritam, gerando dor que 
não pode acabar enquanto não voltar ao seu lugar de origem, para funcionar em ordem. 
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Podemos agora compreender quais são as primeiras origens e as causas profundas do 
fenômeno da dor. Quando falamos que a Lei reage contra o rebelde, só usamos uma imagem 
antropomórfica que facilita a compreensão do homem, que concebe em função do seu instinto de 
luta para dominar. A Lei não é um \u201ceu\u201d livre e pessoal que queira dominar sobre alguém, mas é 
uma vontade determinística e impessoal que automaticamente exige a realização dos princípios 
que a constituem. Por isso não há lugar para a idéia de que exista na Lei uma específica vontade 
inimiga, de vingança contra o ser, porque ele errou, de ofensa e reação punitiva no sentido 
humano. Tal idéia é fruto da forma mental do homem que concebe tudo à sua imagem e 
semelhança. A Lei não odeia e não pune, mas só restabelece equilíbrios quando eles são violados, 
A Lei é somente um absoluto e universal princípio de ordem, que tens de se realizar, regendo o 
funcionamento de todo fenômeno. 
Dada essa estrutura da Lei, há efeitos necessários, já marcados com antecedência, que 
têm de se verificar como conseqüência de cada movimento, conforme sua natureza. Não se pode 
negar o fato de que vemos a Lei de ordem reagir e aparecer a dor quando violamos a ordem. Mas 
se olharmos melhor, veremos que quem gera a fricção, que é sofrimento, quem com a sua ação 
errada movimenta a reação da Lei e estabelece a forma e medida dessa reação, é o ser com a sua 
revolta. A reação da Lei é apenas uma resposta automática, determinística, que se pode calcular 
com antecedência, como estamos fazendo neste volume: uma resposta que, apesar de bem ativa 
em sentido contrário, parece passiva, porque ela obedece ao impulso do ser e nada, por si mesma, 
inicia ou provoca. A Lei quer somente permanecer em sua ordem, reconstruindo os equilíbrios 
violados. Fora disso ela existe para permanecer imóvel em sua perfeição e nada mais exige, até 
que a vontade livre do ser gere impulsos contrários que querem deslocar os seus equilíbrios. 
Quando do isto acontece, a Lei simplesmente os reconstrói. Se isto implica dor, esta pertence ao 
ser que quis deslocar os equilíbrios, O seu trabalho e a função da dor é que ele aprenda a não 
deslocá-los mais. 
A Lei é um perfeito organismo de ordem que ninguém pode violar. Ela é toda positiva, 
afirmativa. Nela não existe a cisão dualística dos contrários, não há lugar para a negatividade. Se, 
saindo da ordem, com o erro, geramos um vazio de negatividade, com isso movimentamos os 
impulsos reequilibradores da Lei, que têm de encher esse vazio, e eles o fazem na única maneira 
possível,