Pietro Ubaldi   Queda e Salvação
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Pietro Ubaldi Queda e Salvação


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se, também a origem de nosso relativo, do vir-a-ser da evolução, do imperfeito no seio do 
perfeito, dos limites do tempo e do espaço, no seio da eternidade e do infinito. Uma evolução 
assim orientada para um seu telefinalismo adquire um sentido lógico, evolução por intermédio 
da qual se manifesta a obra salvadora de Deus em favor da criatura decaída. O maior fenômeno 
de nosso universo resulta, deste modo, dirigido para um objetivo seu, sem o que a evolução 
seria um caminho sem meta, iniciado sem razão, a percorrer fatalmente, uma condenação a 
subir, não merecida. 
Logo, a presença do mal, da dor, da morte, as qualidades da negatividade 
próprias de nosso mundo, que não podem ser produto direto da obra de Deus, encontram a sua 
razão de ser, sem se cair no absurdo de admitir que tudo isto tenha saído das mãos de Deus, o 
que demonstraria a sua maldade, ou pelo menos falta de sabedoria. Assim a contradição entre 
opostos, que é princípio no qual se baseia a estrutura e o funcionamento de nosso universo, 
encontra a sua explicação e justificação dentro da lógica de Deus, a qual fica inatingível e 
íntegra acima dos absurdos gerados pela revolta. Desta forma a sabedoria domina o erro, a 
ordem domina a desordem, o bem domina o mal, a vida é senhora da morte, o endireitamento 
supera o emborcamento, a salvação corrige a revolta, o Sistema é senhor do Anti-Sistema, 
Deus é superior ao anti-Deus, a Satanás. 
Neste sistema filosófico, a grande cisão do dualismo em que o nosso universo 
aparece inexoravelmente despedaçado, acaba saneada, porque enclausurada dentro de um 
monismo maior do que ela, que a abrange e fecha dentro de si ~ Está salvo assim o supremo 
principio da unidade do todo, em que reina Deus, um só Deus, em cujas mãos está todo o 
poder, não compartilhando com outro anti-Deus, não despedaçado no dualismo, como 
infelizmente apareceu a vários teólogos e filósofos que ficaram na superfície das aparências e 
não compreenderam. É verdade que com a revolta nasceu a desordem, mas sem sair da ordem, 
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nasceu o caos, mas sempre controlado por Deus, nasceu o mal, mas só como sombra do bem. O 
segundo termo do dualismo não é senão uma função menor no termo originário, que 
permaneceu como eixo fundamental à volta do qual continua a rodar, permaneceu o ponto 
central, em torno do qual tudo continua a gravitar. A cisão da unidade entre dois opostos não 
somente lhe é interior, mas é fenômeno temporário que, pela própria estrutura da obra de Deus, 
automaticamente tende para a sua solução. De fato, logo que surge a doença, aparece o seu 
tratamento, é o próprio erro da separação e involução que automaticamente leva para a 
evolução que o corrige, o processo do emborcamento não pode acabar senão no 
endireitamento. 
Na lógica desse sistema filosófico está resolvida a contradição entre 
monismo e dualismo, dois fatos que existem, que é impossível suprimir e que, embora 
aparentemente inconciliáveis, é necessário pôr de acordo, porque de outra maneira fracassa o 
princípio fundamental que é o da unidade do Uno-Tudo-Deus. 
Fomos assim observando esse sistema filosófico de todos os lados e tivemos 
de concluir que ele satisfaz todas as exigências da razão, tudo coordenando num quadro lógico, 
em que tudo encontra a sua explicação e justificação. Ele, simplesmente demonstrado, 
convence sem deixar como resíduo pontos obscuros que, por não ter sido equacionado o 
problema na forma certa, é necessário depois resolver à força com dogmas e mistérios. Esse 
sistema filosófico nos esclarece o significado de tudo o que nos cerca, até às suas razões mais 
profundas, satisfazendo o nosso instinto de justiça e desejo de felicidade, reconhecida como 
nosso direito, para a qual tudo progride. É um Sistema que, ao mesmo tempo que sacia o 
coração porque nos oferece uma grande esperança, nos dá de Deus um conceito que está longe 
das maldades de que o carrega o antropomorfismo, um conceito em que Deus fica 
verdadeiramente bom e grande, apesar de tantos erros e sofrimentos de que aos nossos olhos 
aparece como estando cheia a obra Dele. 
Temos agora diante dos olhos todo o caminho do ser, saindo do Sistema, 
onde Deus o criou, e viajando até ao Anti-Sistema, de onde Deus o traz à salvação. Através do 
vir-a-ser involutivo e evolutivo, podemos agora seguir o roteiro que a cada um cabe percorrer 
até atingir o ponto final de sua trajetória. E quando conhecemos o problema maior nas suas 
linhas gerais, é possível orientar-nos em cada momento o ponto de nossa caminhada, é possível 
colocar no lugar que lhe cabe no quadro geral, cada fenômeno e movimento do ser e os fatos 
particulares de nossa vida. Eles assim, por pequenos que sejam, encontram a sua razão de ser, 
até à longínqua primeira origem das coisas. Só deste modo se poderá viver inteligentemente, 
compreendendo o sentido de tudo o que nos cerca e sabendo o que temos de fazer e por quê. É 
progresso, porque nos aproxima do estado orgânico do Sistema; é vantagem, porque nos 
reconduz à felicidade plena. Filosofia sadia, que quer ajudar, que admite o utilitarismo honesto 
do homem de bem, filosofia que vem ao nosso encontro para nos salvar, que nos mostra a ativa 
presença de Deus entre nós, de um Deus bom, que antes de tudo é nosso amigo e nos quer bem. 
Filosofia consoladora, que nos fala com a forma mental do Sistema que está no Alto, trazendo 
luz à forma mental do Anti-Sistema, para levantá-la a ele, até níveis de vida mais adiantados e 
felizes. Somos infelizes decaídos no caos, nas trevas, no mal, no sofrimento, na morte. Esta 
filosofia nos mostra que, apesar de tudo e com as aparências que nos deixam acreditar o 
contrário, nas profundidades do caos há ordem, nas trevas há luz, no mal há o bem; o 
sofrimento é um meio para se chegar à felicidade, e a morte serve para se ressuscitar numa vida 
sempre melhor. Assim vemos: além da injustiça domina a justiça, e acima da negatividade 
destruidora do Anti-Sistema está a positividade reconstrutora do Sistema de Deus. Que coisa 
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diferente e quanto maior se torna a vida - quando a vivemos em profundidade, em contato com 
Deus, com o mais poderoso centro vital do universo! 
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A parte mais interessante deste sistema filosófico é o seu aspecto prático, 
quando descemos ao terreno das suas conseqüências e aplicações nos casos concretos de nossa 
vida. Ê pelo fruto que se conhece a árvore, é neste terreno que se pode medir o valor da teoria, 
quando para controlar. a sua verdade a colocamos em contato direto com os fatos. Se ela nos 
orienta, explicando-nos o significado das coisas, por sua vez a realidade em que vivemos tem 
de concordar com a teoria até às últimas conseqüências práticas, tudo fundindo no mesmo 
sistema filosófico que, assim, embora baseando-se sobre os longínquos princípios abstratos do 
absoluto, pode ser vivido em todos os seus pormenores em nossa vida miúda de cada dia. 
Isto é o que temos procurado fazer nós mesmos e de duas maneiras: 1) por 
mais de meio século na minha vida observando e controlando se os meus conhecimentos 
pessoais e os dos outros confirmavam a interpretação filosófica do universo oferecida por esta 
teoria; 2) racionalmente coordenando e logicamente controlando os frutos destas observações, 
para construir uma norma de conduta humana ou ética, não mais empírica, como as que estão 
vigorando, não mais fruto de desabafo de instintos em vez de conhecimento e de uma 
compreensão do problema, mas uma ética positiva, filha da lógica dos fatos, racionalmente 
demonstrada até à primeira fonte da qual deriva, apoiada sobre bases cósmicas que a 
justificam; moral biológica, resultado