Economia e sociedade - Max Weber - vol2.
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portanto, em povos fortemente expansivos e governados por uma camada de
honoratiores proprietários de terras. Seu campo de aplicação principal é, hoje, a
região de ótimas oportunidades econômicas: a América. Em Roma, a liberdade de
testar cresceu com a política de expansão guerreira, que prometeu aos descen-
dentes deserdados oportunidades de ganhar a vida nas terras conquistadas e
desapareceu em virtude da prática da inoficiosidade, adotada do direito helênico,
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quando terminou a época de colonização. No direito inglês, tinha o fim de con-
servar o patrimônio das grandes famílias, a que podiam servir, de outra maneira,
também os institutos formalmente opostos: a sucessão enfeudada na propriedade
de imóveis, o direito de primogenitura e o fideicomisso. A eliminação ou a limi-
tação da liberdade de testamento por meio de altas taxas e a supressão do direito
de primogenitura no caso de imóveis, que no código francês chegou até a impo-
sição coativa da repartição, estavam e ainda estão condicionadas, nas legislações
democráticas modernas, sobretudo por motivos políticos. No caso de Napoleão,
existia, ao lado da intenção de destruir a velha aristocracia, mediante a imposição
coativa da repartição, a outra de instituir feudos como base de uma aristocracia
nova, a ser por ele criada, e a esta última instituição referia-se sua conhecida
afirmação de que a introdução do código colocaria nas mãos do governo a forma
da distribuição de poder social.
A supressão da escravidão, ao se proibir também a sujeição voluntária a
relações formalmente escravizadoras, foi, sobretudo, produto do deslocamento
do centro do domínio mundial econômico para regiões em que, devido ao alto
custo de vida, o trabalho dos escravos era pouco rentável. Ao mesmo tempo, foi
produto do desenvolvimento da obrigação indireta ao trabalho, como a oferece o
sistema de salário, com sua ameaçadora probabilidade de demissão e desempre-
go, constituindo ela um meio eficaz para extorquir trabalho aos dependentes,
mais eficaz do que a coação direta em relação à qualidade de trabalho, e evitan-
do, ao mesmo tempo, o grande risco do patrimônio formado por escravos. As
comunidades religiosas, especialmente o cristianismo, tinham na Antiguidade
participação insignificante na luta contra a escravidão, mais insignificante do que,
por exemplo, a do estoicismo. Essa participação cresceu um pouco na Idade
Média e na Época Moderna, mas não foi decisiva. Na verdade, a escravidão capi-
talista da Antiguidade diminuiu com a pacificação externa do Império, que res-
tringiu a fonte de importação de escravos para o Ocidente quase exclusivamente
do tráfico de escravos pacífico. A escravidão capitalista dos estados sulistas ame-
ricanos estava condenada à morte depois de esgotar-se o solo desocupado e
subir monopolicamente o preço dos escravos, devido à suspensão da importação
de escravos. A antecipação de sua eliminação pela guerra civil foi acelerada por
causa da rivalidade puramente política e social entre a democracia de farmers e a
plutocracia burguesa dos estados do Norte e a aristocracia de plantadores do Sul.
Na Europa, evoluções puramente econômicas da organização do trabalho, espe-
cialmente do trabalho das corporações, impediram a penetração da escravidão,
que durante toda a Idade Média não desapareceu totalmente no Sul do continen-
te, no trabalho artesanal. Na agricultura, o desenvolvimento da produção para a
exportação provocou, na Época Moderna, outra diminuição da liberdade pessoal
da mão-de-obra do senhor de terras, até que o desenvolvimento da técnica de
produção moderna tornou definitiva, também nesta área, a falta de rentabilidade
do trabalho não-livre. Decisivas para a eliminação total da falta de liberdade
pessoal foram, em última instância e por toda parte, as fortes concepções ideoló-
gicas baseadas no direito natural. A escravidão patriarcal do Oriente, sede histó-
rica e específica dessa instituição relativamente menos divulgada na Ásia oriental
e na Índia, está em extinção, em conseqüência da proibição do tráfico de escra-
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vos africanos. Depois de tornar-se obsoleta sua grande importância militar, exis-
tente desde a Antiguidade egípcia até a Idade Média tardia, em virtude da técnica
guerreira dos exércitos mercenários, está também diminuindo, rapidamente, sua
importância económica, que nunca foi muito grande. No Oriente, jamais desem-
penhou um papel semelhante ao da escravidão, nas plantações de Cartago ou nas
empresas agrícolas da Roma republicana tardia. No Oriente, bem como no âmbito
helênico e helenístico, foi, em parte, escravidão doméstica, em parte constituiu,
tanto na Babilónia e na Pérsia quanto em Atenas, uma forma de investimento em
trabalhadores artesanais, que ainda rendeu juros. Tanto no Oriente quanto ainda
hoje no interior da África, esta escravidão patriarcal está muito mais próxima de
uma relação de trabalho livre do que se pode imaginar pela forma jurídica. Que a
compra, pelo amo, de um escravo no mercado, sem a aprovação deste, constituía
uma exceção, e que o descontentamento do escravo com o amo levava geralmen-
te à revenda dele; tudo isso era, como observou Snouck Hurgronje, em Meca,
conseqüência da forte dependência do amo em relação à boa vontade dos escra-
vos domésticos, mas dificilmente deve constituir um fenómeno normal, mesmo
no Oriente. Mas, no interior da África, o escravo sabe, ainda hoje, quando não
está contente com o amo, forçá-lo à noxae datio a outro amo a quem prefere.
Também este, com certeza, não é um fenómeno geral. Mas a natureza da domina-
ção teocrática ou patrimonial do Oriente, sua tendência ao aperfeiçoamento ético
do lado patriarcal de todas as relações de dependência, criou, pelo menos nesta
região, uma proteção convencional tão forte do escravo contra o amo que ficou
praticamente impossível sua exploração ilimitada, à maneira da escravidão roma-
na tardia. Já no direito judaico da Antiguidade, encontramos os primeiros passos
nesse sentido, e precisamente a circunstância de que a antiga execução pessoal e
a servidão por dívidas possibilitaram a escravização também dos membros do
próprio povo constituiu o impulso decisivo para tomar esta atitude.
Por fim, certos limites da liberdade de contrato têm sua razão em determi-
nados interesses sociais e económicos de camadas influentes, especialmente "bur-
guesas". Assim, por exemplo, a supressão de todas as instituições feudais e, em
geral, de instituições que permitem um gravame permanente de terrenos em fa-
vor de uma pessoa particular, tanto no direito romano republicano quanto, desde
as leis de desamortização, na Prússia: em ambos os casos, atuaram interesses de
classe burgueses e concepções económicas associadas a estes, pois a legislação
romana, que na época republicana conhecia a enfiteuse somente como ager uec-
figa/is sobre terrenos de corporações públicas, bem como a limitação efetiva atu-
al dos "bens de renda", no caso da colonização estatal ou estatalmente privilegi-
ada, na Alemanha, são ambas produtos do interesse da burguesia atingida na
mobilização jurídica do solo e na exclusão da possibilidade de surgirem vínculos
semelhantes aos feudais em relação a terrenos.
Como o direito romano, também o direito atual racionalizado não alcança
tecnicamente sua forma de regulamentação da liberdade de contrato, forma que
resulta da ação conjunta de todos estes motivos, mediante a proibição por leis
especiais de acordos do tipo repudiado, mas simplesmente deixa de pôr à dispo-
sição destes os esquemas contratuais correspondentes (em Roma: os esquemas
de queixa) e configura fatos por ele padronizados quanto às suas conseqüências
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jurídicas, de tal modo que estes padrões sejam logicamente incompatíveis com
estipulações contratuais do tipo desaprovado pela lei. Por outro lado, a forma
técnica em que são concedidas as autorizações para aquelas