Economia e sociedade - Max Weber - vol2.
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a uma associação, podia-se somente distinguir entre as regras vigentes
numa associação ou num círculo de pessoas composto de acordo com determina-
das qualidades de status dos participantes e as regras vigentes em virtude de um
contrato funcional e, portanto, restritas às ações dos participantes diretos, pois
todo direito especial era originalmente direito de um círculo de pessoas delimita-
do por qualidades de status. Isto mudou, como já mencionamos, com a crescente
diferenciação e a escassez económica dos bens monopolicamente apropriados
pelos diversos círculos de pessoas, e de forma tão radical que, como resultado
final, quase chegou a valer a regra oposta: direitos especiais eram quase sempre
direitos vigentes para uma relação social ou económica especial. Já a Idade Média
chegou perto dessa concepção, como devemos admitir, de acordo com a tese de
Heusler, que exagera ao negar a existência de um direito estatal. O direito feudal
era o direito vigente para a relação feudal. Nunca foi o direito de um Estado
vassalo, pois este não existiu. O direito de corte valia para as relações entre as
cortes de senhores feudais; o direito de serviço, para os feudos de serviço; o
direito mercantil, para os bens e negócios dos comerciantes; o direito artesanal,
para os negócios e oficinas dos artesãos. Mas, além de estarem sujeitos a estes
direitos especiais, o vassalo, o comerciante, o ministerial, o camponês dependen-
te e o servo pessoal estavam quase sempre sujeitos também, fora daquelas rela-
ções concretas, ao direito comum do país. Um homem podia possuir, ao mesmo
tempo, terras livres e terras enfeudadas, encontrando-se sujeito, para umas, ao
direito de corte, e para as outras, ao direito comum do país. Do mesmo modo, um
não-comerciante que dava dinheiro in commenda ou como empréstimo marítimo
estava sujeito, exclusivamente para este ato, ao direito mercantil. Mas esta forma
puramente funcional de tratamento não era, de modo algum, universal. Quase
todas as relações para as quais existiam semelhantes direitos especiais tinham
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conseqüências estamentais, isto é, afetavam a situação jurídica global, como, por
exemplo, quase sempre as tinha a posse de bens sujeitos ao direito de corte e ao
direito de serviço. Alguns destes direitos eram considerados incompatíveis numa
única pessoa, e contra a tendência de romper esta vinculação estamental atuava
renovadamente a tendência ao hermetismo do círculo dos consortes jurídicos.
Qual das tendências era a mais forte dependia da constelação concreta dos inte-
resses em cada caso isolado. Para o direito urbano da Alemanha, também Heusler
admite que era um direito estamental dos cidadãos e não um direito para a posse
de solo urbano e outras relações funcionais. Na Inglaterra, as cidades tornam-se
corporações quase puramente privadas. Mas, em geral, é verdadeiro que prevale-
ceu a tendência ao tratamento dos direitos especiais como direitos para determi-
nados objetos e situação de fato, e que esta circunstância facilitou bastante a
inclusão dos direitos especiais, como disposições jurídicas especiais funcionais,
ao direito comum do país, a lex terrae. Sua ocorrência, de fato, dependia, sobre-
tudo, de circunstâncias políticas. Quando a inclusão não era completa, o proble-
ma da relação entre os diversos direitos especiais e tribunais especiais correspon-
dentes e o direito comum do país e seus tribunais regulamentava-se de maneira
muito diversa em cada caso. Para o direito comum, o senhor territorial, e não o
dependente, era o proprietário legal dos bens. Mas, já no caso do feudo, a rela-
ção não se regulamentava de maneira tão simples, apresentando, por exemplo, o
Sacbsenspiegel discrepâncias parciais entre o texto e a glosa. Também no direito
romano o problema deixou marcas.
O ius ciuile romano era o direito dos cidadãos romanos, no sentido de que
ninguém que não fosse cidadão ou equiparado a este, em virtude de sua admis-
são contratual, podia aparecer como parte perante os tribunais romanos, fechar
os acordos jurídicos específicos do direito civil ou ser julgado de acordo com as
disposições deste direito. Nenhuma lex romana tinha vigência fora do círculo dos
cidadãos. A estipulação de que jamais se pudesse referir a não-cidadãos tinha
conseqüências políticas muito importantes, por estabelecer para todo o território
submetido, mas ainda não incorporado ao direito, o poder soberano dos funcio-
nários públicos e do Senado. Por outro lado, e desde sempre, o cidadão romano
não era julgado, exclusivamente, de acordo com o direito civil e não podia ter
processos somente perante tribunais que aplicavam o direito civil, pois, para o
período histórico, cabe definir o ius ciuile como aquele direito especial ao qual as
pessoas interessavam juridicamente somente em sua qualidade de cidadãos, isto
é, como membros dessa associação de status específica. Ao lado dele, existiam
círculos jurídicos, de que participavam não exclusivamente cidadãos ou não to-
dos os cidadãos, e cujo direito aparece, em parte, como direito de associações de
status e, em parte, como direito especial funcional. A esta categoria pertenciam,
em primeiro lugar, todas as situações padronizadas pelo direito administrativo,
cujo número e importância prática eram muito grandes. Até a época dos gracos, a
propriedade civil do solo existia somente naquela parte das terras que fora legal-
mente destinada a este fim. A situação de propriedade no ager publicus nem
estava regulamentada pelo direito civil, nem podia ser objeto de queixas civis,
pois não afetava apenas cidadãos, mas também aliados. Quando, na época dos
gracos, os cidadãos fizeram menção de regulamentar a situação deste domínio
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público mediante o estatuto de cidadãos (lex), aqueles aliados reagiram imediata-
mente com a exigência de serem admitidos à associação dos cidadãos. Aquela
situação de propriedade estava submetida, portanto, somente à cognição dos
magistrados, que procediam segundo regras estranhas ao direito civil, pois este
direito não conhecia, por exemplo, a enfiteuse, nem os gravames reais, nem ter-
ras de serviço, enquanto o direito administrativo das terras públicas estava fami-
liarizado com todos estes conceitos. Do mesmo modo, o direito estatal de bens
conhecia, nas relações com pessoas particulares, instituições que o direito civil
desconhecia e que, quando correspondiam juridicamente a certas instituições do
direito civil, tinham nomes diferentes (praes para o fiador por estipulação, prae-
dium para a hipoteca de caráter administrativo). A competência do funcionário
administrativo era, neste caso, a portadora deste direito especial puramente fun-
cional. Não existia uma associação de consortes jurídicos deste direito, pois o
círculo destes constituía-se dos interessados em cada caso concreto. Outra área
em que valia um direito especial consistia na competência do pretor, que julgava
nas causas entre cidadãos e estranhos. Este podia aplicar o direito civil, mas não
em virtude do estatuto de cidadãos (lex) , senão em virtude de seu poder de
cargo. Aplicava, porém, um direito de outra proveniência, cuja vigência tinha
fundamento diferente: o ius gentium. Este direito não foi criado paralelamente ao
estabelecimento daquele cargo. Era o direito comercial internacional que há mui-
to tempo servia para resolver os conflitos ligados ao mercado, que, primeiro,
provavelmente tinham apenas proteção de caráter sagrado, por juramento. Além
disso, não eram objetos possíveis de processos civis as relações entre patrão e
cliente, que, por sua natureza, pertenciam ao direito feudal e que antigamente
eram de grande importância prática. Assim como no direito alemão, na área da
propriedade legítima (gewere) , tocavam-se também, no direito romano, a esfera
do direito civil e a do direito feudal na área da possessio (praecarium). Mas o
direito civil conhecia esta relação também fora dessa área, e as prescrições