Economia e sociedade - Max Weber - vol2.
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já na Anti-
guidade, o conceito de instituição. Mas essa concepção não foi desenvolvida
pelos juristas clássicos por ser estranha às categorias do direito privado da Anti-
guidade. Nem a tributação, no sentido do direito atual, estava desenvolvida em
tal grau que pudesse ter constituído um sucedâneo. Em conseqüência disso, o
conceito de fundação, por sua natureza, era totalmente alheio ao direito romano,
de modo que, para estes fins, somente existia o caminho, comprovável por docu-
mentos, de constituí-la como patrimõnio corporativo. O desenvolvimento do con-
ceito de fundação, tanto devido à sua natureza quanto por motivos puramente
técnicos, estava quase universalmente condicionado por considerações religio-
sas. A grande maioria das fundações destinava-se, desde sempre, ao culto dos
mortos ou a obras de piedade religiosamente meritórias. Interesse na construção
jurídica tinham sobretudo os sacerdotes encarregados de cuidar da realização das
tarefas da fundação. Por isso, um direito de fundações nasceu somente onde os
sacerdotes estavam suficientemente independentes do poder leigo para poder
desenvolver um direito sagrado. No Egito, as fundações são, por isso, antiqüíssi-
mas. Por motivos técnico-jurídicos e também, sem dúvida, político-jurídicos, eram
quase universalmente desconhecidas fundações puramente leigas e, sobretudo,
familiares, a não ser que se servissem da forma de concessão de feudos ou de
outras formas semelhantes, criando, portanto, uma dependência das famílias pri-
vilegiadas diante do príncipe. Por isso, não existiam dentro da pó/is. Esta situação
mudou pela primeira vez no direito bizantino, servindo-se a técnica jurídica de
normas sacras, depois de o direito romano tardio ter feito, nos fideicomissos, o
primeiro passo, ainda limitado, nesta direção. Em Bizâncio, a garantia de rendas
perpétuas para a própria família revestia-se, por razões que ainda cabe examinar,
da forma de fundações de conventos, com reserva da administração e do direito
a rendas por parte dessa família. As fundações deste tipo passaram a constituir os
wakufs do direito islâmico, que, em seu âmbito, desempenhavam um papel
extraordinariamente importante, de grande alcance também na vida econômica.
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No Ocidente, ao contrário, a técnica jurídica primeiro atribuiu a um santo a proprie-
dade dos bens da fundação, e o conceito medieval da fundação secular começou a
desenvolver-se depois de o direito canônico tê-lo preparado para fins eclesiásticos.
A concepção do conceito de instituição somente foi desenvolvida, do pon-
to de vista puramente jurídico, pela teoria moderna. Quanto à sua natureza, esta
concepção é também de origem eclesiástica, tendo suas raízes no direito eclesiás-
tico romano tardio. Algum conceito de instituição tinha que surgir neste direito,
depois de a concepção carismática da autoridade religiosa, por um lado, e a
organização voluntarista das congregações, por outro, cederem definitivamente
lugar à burocracia oficial dos bispos, e quando estes buscavam também a legiti-
mação técnico-jurídica para a representação dos direitos de bens eclesiásticos. Ao
direito da Antiguidade, para o qual os bens dos templos, desde a secularização
do culto por parte da pólis, eram juridicamente propriedade dessa última, era
totalmente alheio um conceito eclesiástico de instituição. A técnica jurídica da
Antiguidade ajudou, portanto, a Igreja cristã com seu conceito de corporação, e a
Idade Média, na medida em que os bens eclesiásticos não eram considerados
propriedade da Igreja, contribuiu com sua concepção primitiva, já mencionada,
do santo como proprietário e dos funcionários eclesiásticos como seus represen-
tantes. O direito canõnico, por sua parte, particularmente depois de declarar guerra
ao direito eclesiástico autônomo na luta das investiduras, desenvolveu um direito
corporativo eclesiástico separado, que, em virtude da sociologicamente necessá-
ria estrutura autoritária e institucional da Igreja, se distinguia, inevitavelmente,
do direito corporativo, tanto das uniões quanto das associações estamentais. In-
fluenciou, porém, intensamente o desenvolvimento do conceito de corporação
secular da Idade Média. Necessidades essencialmente técnico-administrativas da
administração estatal moderna, de caráter institucional, levaram então à intensiva
criação técnico-jurídica de empreendimentos públicos com caráter massivo, como
escolas, asilos, bancos estatais, institutos de seguros, caixas econômicas, etc.
Estes, por não terem sócios e direitos de sócio, mas apenas órgãos heterônomos
e heterocéfalos, não podiam ser construídos na forma de corporações. Criou-se,
por isso, o conceito jurídico independente de instituição.
O conceito racional de corporação do direito romano desenvolvido foi um
produto da época imperial, e tem sua origem no direito das comunas políticas.
Em oposição ao Estado, as comunas políticas, como fenômeno freqüente, existi-
am somente desde a guerra de alianças, que incorporou grande número de cida-
des, até então soberanas, na associação de cidadãos, conservando, porém, sua
autonomia corporativa. As leis dos primeiros imperadores regulamentaram defi-
nitivamente estas relações. Em conseqüência de sua mediatização, as comunas
perderam a qualificação de instituições políticas: ciuitates priuatorum loco baben-
tu r, dizia-se já no século II, e com toda razão chama Mitteis a atenção para o fato
de aparecer o termo commune para os bens da comuna, em vez de publicum.
Suas controvérsias eram, em parte, administrativas (assim, a controversia de terri-
torio), em parte, privadas, oriundas de contratos, e para estas últimas servia o
procedimento judicial ordinário. Podemos observar que nas corporações priva-
das da época imperial reaparecem exatamente os mesmos títulos do funcionalis-
mo municipal. Sem dúvida, deve-se a esta circunstância a burocratização do con-
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r
ceito de corporação, segundo o modelo da instituição comuna, originalmente
política, para o qual era indiscutível a separação absoluta entre os bens da comu-
na e o patrimônio individual, bem como a regra: quod uniuersitati debetur, singu-
!is non debetur. Ao mesmo tempo, na monarquia juliana, todas as fundações de
uniões foram submetidas à exigência de concessão, e isto, sem dúvida, por moti-
vos políticos. Não sabemos ao certo se junto com a simples concessão era adqui-
rida a personalidade jurídica completa, ou apenas partes dela; na época tardia,
coincidiam ambos os atos. Provavelmente, a expressão corpus collegii habere sig-
nifica a capacidade jurídica plena. O termo típico da teoria era, mais tarde, o de
universitas. Se Mitteis tem razão com sua suposição plausível de que as relações
internas da corporação privada tenham estado sujeitas, em princípio, somente à
cognição administrativa, também esta circunstância seria um fenômeno parcial
típico daquela burocratização das corporações que marca toda a situação jurídica
da época imperial. Constituía, ao mesmo tempo, uma daquelas transformações
secularizantes da situação anterior que caraterizam todo este desenvolvimento,
pois, na época republicana, a situação era evidentemente outra. Não há certeza,
mas não parece improvável, que as Doze Tábuas, segundo o modelo das leis de
Sólon, reconhecessem a autonomia das corporações existentes. Caixas comuns,
como demonstram as leis proibitivas que surgiram mais tarde, eram consideradas
algo normal. Por outro lado, não existe a possibilidade técnico-jurídica para uma
queixa civil. Também o edito a conhece, sem dúvida, somente na época imperial.
Para as controvérsias entre os membros, como tais, sobre direitos de sócio falta
um esquema de queixa. A razão disto encontra-se evidentemente no fato de as
corporações daquela época estarem sujeitas, em parte, ao direito sacro e, em parte,
ao direito administrativo, à cognição sacerdotal ou à oficial. Isto se explica, por sua
vez, pelas condições estamentais