Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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como era definido pelos
jurados. Este nível alto de homicídios e crimes violentos existia quando poucas armas
de fogo se encontravam em circulação.
vi A tradução livre para este título seria \u201cA História das Vidas dos Mais Notáveis
Salteadores, Bandoleiros, Ladrões e Trapaceiros de Ambos os Sexos, em e ao redor de
Londres e Outros Lugares\u201d \u2013 NT.
2
OS SÉCULOS TUDOR-STUART:
REVOLUÇÃO NA IGREJA,
ESTADO E ARMAMENTOS
As armas [...] [são] não apenas para a defesa contra estrangeiros, mas
para vigiar e reencaminhar, para atender o clamor público, e de outra
maneira para manter a paz dentro do reino, e para a execução da justiça,
assistindo o xerife quando ele tiver a ocasião para usar o Posse Comitatus, e de
outra maneira [...]. E sendo o uso de armas mais geral, também o é para a
mais imediata defesa.
\u2013 \u201cProceedings in the case of Ship-Money between the King and John Hampden\u201d
(1637)
A Inglaterra na Era dos Tudors e Stuarts era única em muitos aspectos. Foram
tempos turbulentos. As trocas dramáticas de religião durante o século dezesseis \u2013 de
Católico Romano a Protestante sob Eduardo VI, de volta a Católico sob Maria
Tudor, para Protestante novamente sob Elizabeth I \u2013, agitaram as consciências do
corpo político e adicionaram uma nova dimensão que complicou e colocou em perigo a
estabilidade interna do reino e seu posicionamento internacional. Em 1588 a Espanha,
a maior potência europeia da época, despachou sua Armada Gloriosa para conquistar o
reino insular de Elizabeth, mas graças, como diziam os homens, a um \u201cvento
Protestante\u201d milagroso, a Inglaterra emergiu triunfante. Quarenta anos mais tarde, no
entanto, no meio do século dezessete, o reino foi rasgado pela agonia peculiar da guerra
civil e da revolução; em 1660 ele experimentou uma contra-revolução, e em 1688-89 foi
rompido novamente, se não violentamente, pela Revolução Gloriosa. Não obstante
tudo isso, este período ainda foi, em sua maior parte, próspero e brilhante. Londres
cresceu de 60 mil pessoas em 1520 para o dobro disso em 1582, e quase o dobro
novamente em 1605.[ 1 ] Na esfera mais silenciosa das cortes, a lei do homicídio
tornou-se mais sofisticada, e a definição de assassinato foi tanto ampliada como
endurecida.
As armas de fogo teriam sua primeira popularização de uso. Pela metade do século
dezesseis elas se tornaram comuns, junto a leis que procuravam governar como e por
quem elas seriam usadas. Antes do final do reino de Henrique VIII elas faziam parte do
equipamento comum das milícias. Durante o final do século dezessete foi feito um
esforço concentrado para restringir o acesso a essas armas de acordo com classificações
políticas e de classe. Isto, junto às outras ameaças de Tiago II às liberdades política e
religiosa, produziu tamanha repercussão que acabou por destronar Tiago, na
Revolução Gloriosa, entrando em seu lugar um novo rei e uma nova rainha, William de
Orange e Maria Stuart, que juraram manter a nova Carta de Direitos. Dentro desse
documento estava o direito às pessoas de possuírem armas de fogo para sua defesa
própria. Alguém poderia apostar que essa combinação de eventos produziria um nível
mais alto de homicídios e de crimes violentos. Essa pessoa estaria errada. Durante o
início da era moderna, em particular no final desse período, tanto os homicídios como
os crimes violentos começaram um declínio longo e íngreme em direção ao século vinte.
Em um período de tantas mudanças, havia uma continuidade impressionante nos
padrões de crime da Inglaterra. O modelo medieval em geral se manteve, com os crimes
contra a propriedade sendo muito mais numerosos do que os crimes contra as pessoas.
Em Cheshire os crimes contra a propriedade contabilizavam entre dois terços e três
quartos de todos os delitos levados a julgamento.[ 2 ] Em Essex, de 1559 a 1602 nada
menos que 84 por cento dos crimes eram crimes contra a propriedade; em Sussex e
Hertfordshire, de 1559 a 1625, os crimes contra a propriedade perfaziam 74 e 86 por
cento, respectivamente, do total de crimes violentos.[ 3 ] Apesar de sua população
abarrotada e tempestuosa, 92,5 por cento das 7.736 pessoas indiciadas por crimes no
condado de Middlesex, entre 1550 e 1625, foram acusadas de crimes contra a
propriedade, comparado a apenas quatro por cento acusados de assassinato e
homicídio.[ 4 ] Embora as áreas fronteiriças tendessem a ser mais violentas do que o
restante do país, um estudo inicial de indiciamentos criminais do final do século
dezessete, em Northumberland, mostrou um padrão similar aos que prevaleciam em
todos os outros lugares.[ 5 ] Como apontou J. A. Sharpe, \u201cAqueles que buscam
relatar a mudança de padrões de crimes sérios com alguma noção preconcebida de
mudança econômica devem [...] confrontar o problema de que os padrões de crimes
sérios não parecem ter mudado muito entre o século quatorze e 1800.\u201d[ 6 ]
Os homicídios como um todo flutuaram mais do que os assassinatos e, como no
passado, a maioria deles ainda era cometida \u201cno calor do momento.\u201d De 364 mortes
investigadas nos inquéritos judiciais de Kent entre 1559 e 1625, por exemplo, a vasta
maioria era espontânea, freqüentemente resultando de fortes bebedeiras.[ 7 ] Não
somente eram poucos os homicídios premeditados, mas poucos eram cometidos
durante o curso de um outro crime. Aparentemente, \u201cmesmo os criminosos habituais
deste período não eram nem muito brutais e nem muito violentos.\u201d[ 8 ] Um estudo
dos homicídios de Somerset de um século depois descobriu as mesmas verdades para
esse condado.[ 9 ]
Nem todos os padrões antigos se mantiveram. A mudança mais significativa foi no
número de homicídios. Estes na verdade declinaram fortemente, especialmente na
aproximação do final do século dezessete. Lawrence Stone estimou que as taxas de
homicídio na Inglaterra do século treze eram aproximadamente o dobro daquelas dos
séculos dezesseis e dezessete.[ 10 ] No século treze a taxa estimada de homicídios era de
18 a 23 casos para cada 100.000 habitantes, mas no século dezesseis essa taxa, em
Nottinghamshire era menor que 14,8 para cada 100.000, enquanto que em Middlesex
era de aproximadamente 6,3.[ 11 ] Embora houvesse variações de curto prazo, os
indiciamentos por homicídio nos séculos dezesseis e dezessete nos condados de Essex,
Hertfordshire e Sussex revelam um padrão distinto das reclamações contemporâneas de
violência e brutalidade crescentes.[ 12 ] A última parte do início da era moderna
vivenciou um declínio ainda maior na violência. Entre 1660 e 1800 houve uma queda de
dois terços na taxa de homicídios.[ 13 ]
Desenvolvimentos legais podem ter tido um impacto pequeno nesta tendência
afortunada. Por um lado, novos estatutos e interpretações ampliaram e enrijeceram as
regras contra o assassinato; por outro lado expandiram os tipos de mortes que
poderiam ser consideradas como permissíveis por questão de defesa própria ou como
homicídio justificável. Entre os delitos adicionais classificados como homicídio estavam
dois relacionados a brigas espontâneas \u2013 a causa primária para mortes violentas. O
estatuto do esfaqueamento de 1604 foi criado para refrear as brigas ferozes entre
Escoceses e Ingleses que haviam se tornado muito comuns, à medida em que os dois
povos se acotovelavam para pedir favores à corte de Tiago I.[ 14 ] Agora se um homem
esfaqueasse um outro que não tivesse sacado uma arma, ou que não tivesse
primeiramente atacado o esfaqueador, e a pessoa esfaqueada morresse nos seis meses
seguintes, o esfaqueador seria culpado de assassinato. Uma outra lei tornou em
assassinato o ato de matar um oficial da lei ou um magistrado, na execução normal de
seus ofícios, ainda que a morte não houvesse sido premeditada.[ 15 ] Ainda assim, os
juízes davam um valor considerável à premeditação, ou seja, ao dolo, que distinguia
legalmente o assassinato do homicídio. Na definição de Sir Edward Coke, o assassinato
envolvia \u201cmatar ilegalmente uma criatura sensata, que vive e está