Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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com multa e prisão.
Em casos de homicídios comuns, a lei lidava de uma maneira mais severa com os
Em casos de homicídios comuns, a lei lidava de uma maneira mais severa com os
casos em que armas mais letais estavam envolvidas. Em 1612 os juízes julgaram que um
homem, se provocado, no calor do momento, batesse em outro com uma arma
improvável de causar morte, mas acabasse o matando, ele seria culpado apenas de homicídio
involuntário. Por outro lado, em 1666 as cortes decidiram que se o acusado houvesse
usado uma arma provável de causar morte, o homicídio, embora cometido sob
circunstâncias semelhantes, seria julgado como assassinato.[ 29 ] De acordo com essas
regras qualquer crime cometido com uma arma de fogo deveria ser tratado com mais
rigor.
Um crime seriamente subnotificado que envolvia armas de fogo era o assalto em
estradas. A falha na notificação dos crimes era provavelmente devida ao fato de que
poucos assaltos ou assassinatos violentos eram cometidos durante o andamento do
roubo. A penalidade severa prescrita para roubo \u2013 o enforcamento \u2013 juntava-se ao fato
de que as vítimas eram reembolsadas pela comunidade local por uma grande parte de
suas perdas para acalmar o ultraje inicial. Era provavelmente com a intenção de
desencorajar a notificação que os salteadores eram, com freqüência, ostensivamente
educados para com suas vítimas e as deixavam com desejos calorosos de melhoras e com
algum dinheiro para a viagem de retorno para casa. Para as pessoas daquela época os
salteadores de estrada possuíam uma aparência glamorosa que outros criminosos não
tinham. Suas façanhas e proezas abundam em cartas e diários contemporâneos.[ 30 ]
Até mesmo um Inglês do século dezessete \u201csensato e prosaico\u201d como John Verney, ao
recontar as façanhas de uma dupla de salteadores, observou sobre sua captura, \u201cÉ uma
pena que tais homens devam ser enforcados.\u201d[ 31 ] Quando um ladrão era enforcado ele
era geralmente acompanhado ao local de execução por milhares de pessoas que torciam
por ele e ofereciam encorajamento. Em 1664 John Evelyn pagou um xelim por um
lugar bom para assistir a um enforcamento desse tipo, embora tenha reclamado que a
multidão, que ele estimou entre doze e quatorze mil pessoas, atrapalhava sua visão.[ 32
]
As fileiras de salteadores eram inchadas com soldados desempregados, filhos
caçulas de pouca sorte, e batedores de carteiras que almejavam lucros maiores \u2013 todos
preparados para arriscar suas vidas pelo rico espólio dos viajantes. Homens sensatos
viajavam em grupos armados. Os ladrões eram tão numerosos que um provérbio de
Buckinghamshire daquela época dizia, \u201cAqui, se você bater num arbusto, é bem
provável que atinja um ladrão.\u201d[ 33 ] Embora alguns vigias fossem colocados ao longo
das estradas, particularmente em locais de crimes recentes, os ladrões os localizavam
com facilidade e escapavam deles. Muitos homens colocados para vigiar estavam tão
pouco interessados em achar os ladrões como estes em serem descobertos. Mas os
salteadores de estrada perderam muito da simpatia do público quando o número de
roubos atingiu proporções epidêmicas durante as décadas de 1650 e 1660. Por volta de
1677 os ladrões se tornaram tão descarados que um deles apanhou o cetro do chanceler
de sua cama enquanto ele dormia, e teria roubado o Grande Selo da Inglaterra \u201cse este
não estivesse debaixo do travesseiro do chanceler.\u201d[ 34 ] Em 1683, como diz a história,
o Juiz Holt fez uma visita a um amigo preso, o qual ele havia acabado de sentenciar.
Quando o juiz perguntou pelos antigos amigos de faculdade o prisioneiro respondeu:
\u201cAh, meu senhor, eles foram todos enforcados, exceto por mim e por vossa Senhoria.\u201d[
35 ]
Onde havia simpatia e pouco incentivo para denunciar o crime, muitos assaltos à
mão armada não eram reportados. O fato de que o processo judicial e suas despesas
eram deixados quase que completamente nas mãos dos indivíduos afetados deve ter
dissuadido muitas vítimas. Bem como acontecia com os casos de infanticídio, os
números totais para assaltos em estradas podem ter sido acentuadamente minimizados.
Não obstante, um roubo que resultasse em ferimentos ou morte acabaria normalmente
como notícia pública.
Como regra geral os atos de violência que não resultavam em morte eram punidos
de forma bastante inadequada durante esse período. Mas um ultraje a um de seus
próprios membros fez com que o Parlamento agisse prontamente. Em dezembro de
1670 a Câmara dos Comuns estava organizando uma audiência sobre a possibilidade de
se taxar os donos de teatros. O rei, Carlos II, era um entusiasta do teatro e seus
bajuladores compareceram diante do comitê para argumentar contra a taxação com base
em que \u201cos Atores eram servos do Rei, e faziam parte de seu prazer.\u201d[ 36 ] Sir John
Coventry, um membro do comitê, perguntou se \u201co prazer do Rei estava nos Atores ou
nas Atrizes.\u201d Essa pergunta sarcástica chegou à Corte, e naquela noite, em seu
caminho para casa, Coventry foi emboscado por vinte e cinco guardas reais, que
quebraram seu nariz. Seus colegas, ultrajados, aproveitaram a primeira oportunidade
para passar uma lei que tornava certas formas de desfiguração intencional em crime.[ 37
] Esta lei de 1671 foi a única do período que lidava com assalto com agravante.
***
As regras que governavam a atividade criminal e sua supressão nos séculos
dezesseis e dezessete preocupavam de perto o homem comum, que, como na Idade
Média, continuava a ter um papel principal na manutenção da paz local. Ele era
justificado ao tomar todas as medidas razoáveis para impedir um crime cometido em
sua presença e era de fato obrigado a fazê-lo.[ 38 ] Olhar para o outro lado não era
tolerado. Um homem era culpável se deixasse de intervir ou de responder a uma
convocação de um oficial da lei para ajudar a dispersar um tumulto ou uma assembléia
ilegal, enquanto que o oficial da lei poderia também ser culpável se aquele negligenciasse
sua tarefa.[ 39 ] Se um delito não houvesse sido cometido, apenas uma força \u201crazoável\u201d
poderia ser utilizada, mas se um delito tivesse acontecido \u2013 e todos os agitadores eram
culpados de delito \u2013 todos os indivíduos tinham o dever de prendê-los. De acordo com
Holdsworth, se um agitador fosse morto ao resistir à prisão, o homicídio era
justificável. Claramente, era vital para o homem comum entender estas distinções e
saber manusear suas armas.
Tanto essa tarefa civil como a necessidade de defesa pessoal criaram as formalidades
legais nebulosas que ainda acompanharam uma acusação pesada e onerosa de defesa
própria. No século dezesseis essa situação levou a um esclarecimento legal essencial para
a lei do homicídio no estatuto de Henrique VIII, \u201cQue um Homem matando um
Ladrão em sua Defesa, não poderia confiscar seus Bens.\u201d[ 40 ] Esta lei estendeu a
categoria de homicídio justificável, isto é, o homicídio que merecia absolvição. Uma vez
que os reis ingleses haviam se envolvido nos casos de assassinato de seu reino, aqueles
culpados de morte, mesmo em defesa própria, poderiam ser punidos com o confisco de
seus bens até que o caso fosse resolvido, e aqueles julgados como homicidas em defesa
própria recebiam o que viria a ser um perdão de rotina. Não é claro a freqüência com
que tal confisco ainda ocorria em 1532, mas sua eliminação específica foi um benefício
para os súditos de Henrique. A opinião pública sobre as decisões de julgamento por
júri eram rastreáveis desde o século doze, quando a imposição da pena de morte para
todos os homicídios criminosos foi de encontro a muitas atitudes diferentes da
comunidade. Embora não haja nenhum estudo que explique o momento desta
generosidade da parte de Henrique, a data, 1532, quando o chamado Parlamento da
Reforma estava profundamente envolvido numa série de movimentos que por fim
levariam à separação da igreja Inglesa da igreja de Roma, é sugestiva. O estatuto pode
muito bem ter sido uma espécie de quid pro quo, uma jogada de baixo custo da parte