Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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de um crime. Os oito homicídios com armas restantes
foram cometidos com armas de cano longo. Destes um foi acidental. Nem um sequer
foi associado a algum crime. O exame feito por J. A. Sharpe nos registros de Essex do
século dezessete descobriu que em metade dos homicídios que ocorreram entre 1620 e
1680 as armas usadas foram os pés e as mãos. A segunda categoria na lista de armas
mais usadas para um assassinato eram os bastões ou as varas. Esta é uma mudança de
evidências em relação à Idade Média, onde as armas afiadas causavam a maioria dos
homicídios. Entre os onze tipos de armas que Sharpe lista como comuns em um
homicídio, as armas de fogo estavam em quarto lugar.[ 93 ] Ele também descobriu que
aqueles acusados de matar com facas tinham poucas chances de ser executados. Isto não
surpreende, já que os ataques feitos com armas com alta probabilidade de causar a
morte eram tratados com muito mais dureza. Mais surpreendente, apesar da regra, é o
fato de que um número desproporcional de tiroteios resultava em absolvição por conta
da morte ser acidental.[ 94 ] Sharpe atribui esta taxa de acidentes à falta de cuidado e
nas falhas em observar as regras de segurança. Devemos adicionar, contudo, que as
armas daquela época eram dispositivos freqüentemente perigosos e não confiáveis.
Para concluir, esta época na qual as armas de fogo chegaram e se tornaram comuns
na vida diária bem como nas milícias de cidadãos, o século em que o direito dos homens
ingleses de possuir \u201carmas para sua defesa\u201d foi proclamado, também foi o que viu um
declínio acentuado dos homicídios violentos. Isto é ainda mais extraordinário se
considerarmos a turbulência política do período.
vii A tradução livre para este título seria \u201cComentários sobre as Leis da
Inglaterra\u201d \u2013 NT.
viii Nome da corte judicial presente no Palácio Real de Westminster desde o final
do século quinze até 1641 \u2013 NT.
ix O Commonwealth da Inglaterra foi a unidade política que substituiu o Reino
da Inglaterra nos períodos de 1649 a 1653, e 1659 a 1660 \u2013 NT.
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O SÉCULO DEZOITO: \u201cFRUTÍFERO
NAS INVENÇÕES DE MALDADES\u201d
Dificilmente há um ato criminoso que não tenha sido coberto pelas
provisões do Ato Negro; delitos contra a ordem pública, contra a
administração da justiça criminal, contra a propriedade, contra a pessoa,
prejuízos maliciosos a propriedades em diversos níveis \u2013 tudo ficou debaixo
desse estatuto e tudo era punível com a morte.
\u2013 Leon Radzinowicz, A History of English Criminal Law and its
Administrarion (1750)
A se julgar por suas leis criminais o século dezoito foi a época mais violenta e
perversa da história da Inglaterra. Nunca antes ou depois dele foram criados tantos
crimes capitais. Em 1715 foi aprovada a Lei do Tumulto, seguida em 1723 pela
notória Lei Negra de Waltham, que sozinha adicionou um recorde de 200 a 350 novos
delitos; e em 1752 o Parlamento se sentiu obrigado a inventar uma punição
literalmente pior do que a morte para deter os assassinos.[ 1 ] Tal legislação, Lorde
Hardwick insistiu, era absolutamente necessária, dada \u201ca degeneração dos tempos
atuais, frutífero nas invenções de perversidades.\u201d[ 2 ] Alguns estudiosos modernos
concordam que a época foi realmente violenta. Ainda assim, apesar do código legal
repressivo, J. M. Beattie descobriu que a sociedade do século dezoito era culpada de
uma \u201calta tolerância para com o comportamento violento\u201d em casas, escolas, tavernas e
nas cortes, e ainda que os assassinatos fossem relatados muitas outras formas de
violência eram subnotificadas e deixavam de ser indiciadas.[ 3 ] Teóricos Franceses
argumentaram que com a ascensão do capitalismo no século dezessete e especialmente
no dezoito, os crimes contra propriedade excediam os crimes violentos.[ 4 ] Contudo,
o predomínio e o tratamento para com as armas de fogo parecem estar em conflito com
esses relatos. Armas de fogo e armas brancas eram altamente disponíveis, mas nenhuma
das muitas leis existentes procurava refrear o comportamento criminoso ou
criminalizar os muitos tipos de distúrbios menores de forma restrita à posse de armas
de fogo.
É claro que as leis e as paixões que as criam podem ser enganosas, e o século
dezoito merece, e teve, uma repercussão mista. No lado positivo, a rebelião Jacobita, a
dissensão religiosa prolongada e os tumultos periódicos jamais chegaram ao nível,
tanto em tamanho como em amargura, das rebeliões e revoltas dos séculos dezesseis e
dezessete. Em vez disso a Inglaterra do século dezoito estava preocupada com guerras
estrangeiras quase que contínuas e com a expansão colonial. Industriais da classe média
e comerciantes prosperaram com o novo poder imperial Britânico e com os primeiros
frutos da Revolução Industrial, ainda que a aristocracia dona de terras continuasse a
ocupar o topo da pirâmide social. O homem inglês comum tinha sua parcela de
problemas, mas também prosperava. Graças a uma taxa de natalidade crescente e o final
de três séculos de visitação pela peste negra a população praticamente dobrou.[ 5 ] E
apesar da opinião contemporânea e do efeito confuso do novo código legal,
uniformemente severo, e apesar da disponibilidade de armas de fogo e de outras armas,
a taxa de homicídios caiu em dois terços entre 1660 e 1800.[ 6 ] O impacto, se é que
houve algum, que as armas ou as leis criminais draconianas tiveram nesta tendência
afortunada e inesperada merece um olhar mais próximo. Nós começaremos examinando
os novos crimes decretados, e então consideraremos o efeito da guerra, da economia e
do transporte de criminosos nas taxas de crimes violentos. Finalmente, com tudo isso
em mente, consideraremos o papel das armas de fogo nos crimes violentos.
A Lei do Tumulto
O primeiro dos novos delitos veio com a nova dinastia. Quando a Rainha Anne
morreu em 1714 ela foi sucedida por Jorge, Príncipe-Eleitor de Hanôver, cujo direito
ao trono foi contestado por uma rebelião em favor do filho de Tiago II, Tiago
Eduardo. A rebelião Jacobita se mostrou de vida curta, e a luta se limitou à Escócia,
mas o regime, alarmado, estava preparado para o pior. Entre suas primeiras
providências estava a promulgação de \u201cUma Lei para prevenir Tumultos e Assembléias
turbulentas, e para a punição mais rápida e efetiva dos Desordeiros,\u201d um estatuto mais
conhecido como Lei do Tumulto.[ 7 ] De acordo com a nova legislação, qualquer
grupo de doze ou mais pessoas \u201cagrupadas ilegalmente de forma tumultuosa e
desordeira, para a Perturbação da Paz Pública\u201d, poderia ser ordenado a se dispersar
pelo xerife local, pelo sub-xerife, pelo prefeito ou por qualquer outro oficial que lesse
ao grupo o texto da Lei do Tumulto. Se doze ou mais pessoas do grupo
permanecessem por mais de uma hora após tal leitura, cada uma delas seria culpada de
um delito punível com a morte, \u201csem o Benefício do Clero.\u201d[ 8 ] Os oficiais do
governo cujo dever era ler a Lei do Tumulto e prender os que resistiam estavam
autorizados a recrutar os serviços de \u201ctodos os Súditos de sua Majestade de Idade e
Habilidade para assisti-lo em sua tarefa.\u201d Se, no curso da prisão dos desordeiros, algum
deles fosse morto, mutilado ou ferido, o oficial e seus assistentes eram considerados
inocentes. Como é freqüente em medidas tomadas emergencialmente, a Lei do
Tumulto durou muito mais do que as ameaças para as quais foi criado, isto é, os
levantes Jacobitas de 1715 e 1745, e permaneceu nos livros de leis por 250 anos. Foi
lida pela última vez em 1919 e revogada somente em 1967.[ 9 ] Alguns membros
destas multidões \u201ctumultuosas\u201d do século dezoito poderiam estar carregando armas de
fogo, mas o Parlamento não fez nenhuma menção a limitar seu acesso às mesmas.
Muito pelo contrário.
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A Lei Negra
Uma lei muito mais significativa, única na história das leis criminais inglesas, foi a
Lei Negra de Waltham.[ 10 ] Ela foi aprovada com pouco debate em maio de 1723,
supostamente para evitar que homens disfarçados e com suas faces