Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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para alguns crimes. Ele reclamou que
muitas pessoas \u201ceram dissuadidas a processar um criminoso com receio de que
colocariam em perigo a vida de um semelhante, pois o valor era insignificante, de cinco a
quarenta xelins.\u201d[ 24 ] Em 1819 os membros da classe média de Londres admitiram
francamente que não estavam dispostos a prestar queixa contra larápios e pequenos
ladrões com medo de que fossem enforcados como resultado da acusação.[ 25 ] No
condado de Essex menos de 10 por cento dos criminosos eram indiciados, mesmo por
crimes sérios como roubo e assalto.[ 26 ] Para o roubo de gado a proporção era ainda
menor, com apenas um a cada 20 criminosos indiciados entre 1768 e 1790.[ 27 ]
Quando os crimes eram relatados e indiciados, os jurados do século dezoito, e mesmo
os juízes, cometiam o que Blackstone chamou de \u201cum tipo de perjúrio piedoso\u201d,
distorcendo os fatos de forma a evitar as penalidade extremas. Uma vez que o furto de
um bem no valor de 12 centavos constituía um delito punível com a morte, Blackstone
explicou que um júri poderia \u201cdefinir que o bem furtado estava abaixo do valor de doze
centavos, quando na verdade era de valor muito maior.\u201d[ 28 ] Lorde Holland descreveu
um caso onde a acusação era de um roubo de uma nota de 10 libras. O júri, \u201cna
cordialidade de seus sentimentos humanos,\u201d cometeu perjúrio e reduziu o valor em seu
veredito para algo abaixo de 40 xelins.[ 29 ] Mesmo num caso de \u201catirar
maliciosamente em alguém dentro de sua residência,\u201d um júri prendeu-se a um
tecnicismo \u2013 o fato de que o indiciamento confundiu os primeiros nomes do acusador e
do réu \u2013 para dar um veredito de absolvição.[ 30 ]
Interpretações e decisões judiciais também suavizavam, com freqüência, ou até
mesmo impediam a punição para crimes que possuíam uma pena mais branda anterior à
Lei Negra. Por exemplo, os juízes reduziam a pena pela morte de um veado. E com
relação à destruição de árvores, as cortes tendiam a se basear em \u201csutilezas
consideráveis\u201d para evitar a imposição da pena.[ 31 ] Por exemplo, a expressão \u201ccortar e
destruir\u201d era geralmente interpretada com o seguinte significado: se a árvore pudesse
ser enxertada após ser cortada, ela não havia realmente sido destruída. Para se
enquadrar na definição da lei, uma árvore tinha que ser literalmente arrancada pela raiz.
Assim, um homem que, por ressentimento, cortou quinhentas árvores do viveiro de
seu senhor não foi condenado dentro da jurisdição da Lei Negra, porque as árvores
puderam ser enxertadas.[ 32 ] Finalmente, se um criminoso fosse condenado, ainda
havia a possibilidade de escapar do enforcamento se ele conseguisse obter um perdão
sob a condição de ser transportado. A forte confiança no transporte de condenados
pode ter causado um impacto substancial na taxa de crimes violentos da Inglaterra.
O transporte ou a deportação de criminosos condenados e outros indesejáveis foi
empregado pela primeira vez em 1597, quando os juízes das sessões trimestrais dos
condados, acostumados a banir vagabundos para outros condados, foram também
autorizados a banir trapaceiros, malandros e pedintes saudáveis deste \u201creino e de todos
os domínios dele\u201d ou a mandá-los para as galés para sempre. Os indivíduos expulsos
eram transportados às custas do condado. Se voltassem deveriam ser executados. A
idéia de que indivíduos sentenciados à morte pudessem, em vez disso, ser transportados
para as colônias inglesas, surgiu logo, em 1611, e houve casos em 1622 e 1638 quando
prisioneiros em processo de julgamento pediram para serem transportados para a
Virgínia. Na década de 1650, como um dos resultados da Guerra Civil Inglesa, foram
os prisioneiros de guerra, Católicos Irlandeses, e piratas os que foram transportados.
Mas foi após a restauração da monarquia em 1660 que o sistema foi completamente
legitimado. Agora um perdão poderia ser concedido a um criminoso condenado,
imediatamente após sua condenação, sob a condição de que ele ou ela concordasse com
seu transporte para as colônias por um prazo de alguns anos. Anteriormente,
aprisionar alguém fora do país era algo ilegal, mas a Lei da Habeas Corpus de 1679,
um marco divisório no assunto, excluiu especificamente \u201cqualquer pessoa, ou pessoas,
legalmente condenada por qualquer crime, que venha pedir abertamente à corte que seja
transportada para além-mar, e a corte deverá escolher entre deixar a pessoa, ou pessoas,
na prisão para esse propósito, [em vez de executá-la].\u201d[ 33 ] Depois do levante de
Monmouth em 1685 e da rebelião Jacobita de 1715, um grande número de rebeldes
foram transportados com base no perdão condicional. Alguns problemas surgiram
perto do final do século dezessete, no entanto. O gerenciamento do sistema de
transporte pelos mercadores ingleses, como um negócio que era, levou a abusos, e
colônias previstas para receber condenados começaram a não desejar receber mais
nenhum deles. Maryland e Virgínia aprovaram leis contra isso.[ 34 ] Mas um conceito
que deu ao sistema legal uma alternativa entre uma punição terrível ou a libertação do
criminoso era bom demais para ser abandonado. Portanto, com o advento do regime
Hanoveriano veio a Lei do Transporte de 1718. Esta lei tornou o transporte numa
punição, em vez de ser uma escolha para certos crimes.[ 35 ] Aqueles culpados por
crimes menores \u2013 crimes normalmente punidos com chibatadas, queimando as mãos ou
com trabalho pesado \u2013 poderiam ser mandados para a América por sete anos onde, de
acordo com o preâmbulo da Lei do Transporte, havia \u201cgrande necessidade de servos.\u201d
Pessoas condenadas por crimes mais sérios também poderiam ser perdoadas sob a
condição de serem transportadas, mas nesses casos era mais provável que o prazo
chegasse a quatorze anos. Até a Revolução Americana, as colônias Americanas eram o
destino preferido do governo, embora Beattie argumentasse que por volta da metade
do século o transporte de presos para a América estava \u201cperdendo sua ferroada\u201d como
forma de punição.[ 36 ] Criminosos mais jovens, aqueles com idade entre quinze e vinte
anos, podiam fazer um acordo para serem transportados por oito anos.[ 37 ] Com a
erupção da Revolução Americana um destino alternativo era necessário. Como medida
emergencial os criminosos foram enviados às galés no Tâmisa e empregados na limpeza
do rio. Em 1779 o sistema de transporte foi retomado, com alguns condenados sendo
enviados à África. Mas de 1788 até 1853 a Austrália substituiu a América como local
de banimento e, esperançosamente, de reabilitação. O banimento para o deserto pode
parecer uma medida severa, mas era certamente preferível ao enforcamento, a única
alternativa para muitos.
A Lei do Transporte alterou a taxa de homicídios e crimes armados na Inglaterra
através da remoção de um grande número de assassinos potenciais? Antes que
possamos abordar essa questão, duas outras precisam ser resolvidas antes. Primeiro,
quantas pessoas foram de fato transportadas durante o século dezoito, e segundo, era
provável que essas pessoas cometessem um assassinato se fossem deixadas na
Inglaterra? Embora não haja números exatos, um estudo estima o número de
transportados até 1776 em 50.000, enquanto V. A. C. Gatrell descobriu que entre
1787 e 1830 outras 41.000 pessoas foram transportadas da Inglaterra e do País de
Gales.[ 38 ] Aproximadamente um terço deles eram Irlandeses. Na década de 1830
aproximadamente 45.500 homens e 7.700 mulheres, um quarto dos criminosos
condenados nos inquéritos judiciais Ingleses e Galeses, foram transportados. O
transporte continuaria sendo um fator importante no controle do crime na Inglaterra
durante o século dezenove. Um estudo sobre os enforcamentos Ingleses durante o
século dezoito encontrou uma média de sessenta e sete execuções por ano, um número
bem maior do que o de outros países Europeus.[ 39 ] Ainda assim, de um total
impressionante de 35.000 pessoas condenadas à morte na Inglaterra e no País de Gales
entre 1770 e 1830, apenas cerca de 7.000 delas foram