Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
229 pág.

Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


DisciplinaDireito Constitucional II7.963 materiais116.956 seguidores
Pré-visualização50 páginas
bastante \u2013 ou assumido \u2013 serem as
causas do aumento na criminalidade. \u201cEscassez, a escassez horrível\u201d, escreveu William
Cobbett em 1821, \u201cé a grande mãe do crime.\u201d[ 56 ] No entanto, foi o crime contra a
propriedade e não o crime violento que tendeu a flutuar com a economia Inglesa.[ 57 ]
Em sua pesquisa de Essex, King descobriu indiciamentos por crimes de propriedade
afetados pelas colheitas \u201cexcepcionalmente ruins\u201d de 1800-1801 e viu uma correlação
entre os preços do trigo e os indiciamentos por crime contra propriedade.[ 58 ] Tudo
isso não é surpresa, mas mesmo a relação entre crime contra propriedade e dureza
econômica é menos incisiva do que Cobbett havia assumido. Douglas Hay apontou que
em épocas de paz a relação entre o preço do trigo \u2013 o esteio do povo mais pobre \u2013 e a
criminalidade registrada era desprezível.[ 59 ] Durante a guerra o estado das operações
militares pareceu ter uma influência muito mais decisiva sobre a taxa de criminalidade
do que o tamanho da colheita.[ 60 ] Os principais picos de criminalidade seguiam ou
acompanhavam a desmobilização das tropas e não os períodos de falha na colheita. Com
todas as subidas e quedas, e apesar de toda a proteção legislativa, os indiciamentos por
crimes contra a propriedade caíram entre o fim do século dezesseis e o começo do
dezoito.[ 61 ] Mais importante para nossa investigação: os crimes violentos
continuaram seu declínio estável, na verdade dramático, no mesmo período.[ 62 ]
Lawrence Stone descobriu que por volta do terceiro quarto do século dezoito a taxa de
homicídios condenados (reconhecidamente diferente da taxa de homicídios) para
Londres e Middlesex estava numa média de apenas quatro por ano. E conforme o
século dezoito caminhava para o fim, visitantes estrangeiros em viagem pela Inglaterra
comentavam sobre seu nível muito baixo de crimes violentos.[ 63 ] Se a escassez era a
mãe do crime, não era a mãe do crime violento. Aqueles que tentam relacionar os
padrões de mudança de crimes graves \u201ccom alguma noção preconcebida de mudança
econômica,\u201d avisou Sharpe, devem confrontar o problema de que os padrões de crimes
graves não parecem ter mudado muito entre o século quatorze e 1800.[ 64 ]
Armas de Fogo, a Lei e o Crime Armado
É difícil manter noções do século vinte afastadas de estudos históricos,
especialmente em um tópico controverso como a relação entre armas e violência. Assim
como os estudiosos com idéias preconcebidas sobre o impacto da mudança econômica
no crime devem considerar o fato estranho de que os padrões Ingleses de crime contra a
pessoa e contra a propriedade mudaram pouco no decorrer de quatro séculos, aqueles
com preconcepções sobre o impacto das armas na taxa de crimes violentos são
freqüentemente tentados a pular para as conclusões. O estudo de J. S. Cockburn sobre
mortes violentas no condado de Kent entre 1720 e 1850 é um caso em questão. De
acordo com Cockburn, os números de Kent dão base à tese de que \u201co homicídio é mais
freqüentemente cometido em sociedades onde as armas estão prontamente disponíveis.
No início da Inglaterra moderna, tanto a prudência como a moda ditaram o porte de
armas.\u201d Mas o que levou Cockburn a essa conclusão? Primeiro ele descobriu que até
1750 cerca de metade dos homicídios em Kent envolviam o uso de \u201carmas curtas,
cassetetes ou bastões.\u201d[ 65 ] Infelizmente ele não informa \u2013 provavelmente porque não
sabe \u2013 qual proporção dessas mortes foram decorrentes de armas de fogo. Mesmo as
provas um tanto esparsas de Kent pressupõem que este era um condado típico, mas no
século dezoito esse não era nem de longe o caso. Naquela época contrabandistas
infestaram a costa de Kent, protegidos por seus próprios \u201clutadores\u201d armados.
Batalhas armadas aconteceram ocasionalmente entre os contrabandistas e os agentes do
governo. Portanto, mesmo o nível espetacular de homicídios por armas de fogo em
Kent pode ter sido muito acima da média. Quanto aos usuários de armas de fogo,
tanto os corretos como os criminosos, Cockburn diz que \u201ca maioria esmagadora dos
homicídios relacionados a armas de fogo\u201d depois de 1660 foram cometidos por homens
descritos como trabalhadores, em circunstâncias que implicam que as mesmas eram
prontamente disponíveis a todos, com exceção dos mais pobres entre os homens
ingleses, tanto antes como depois de 1660. Ele relata que, na segunda metade do
século dezoito, \u201cas armas mais tradicionais\u201d haviam sido \u201csubstituídas largamente pelas
armas de fogo\u201d, e que isso causou 21 por cento dos homicídios entre 1720 e 1810.[ 66
] Este resultado está alinhado com os achados de Thomas Birch de que 19 por cento
dos assassinatos em Londres, durante o século dezoito, foram causados por armas de
fogo.[ 67 ] Os números de John Marshall sobre os homicídios em Londres com armas
são um pouco mais altos. Seu estudo, publicado em 1832, relatou que entre 1690 e
1730 vinte pessoas foram baleadas, trinta e seis foram esfaqueadas, e vinte e duas
morreram pela espada.[ 68 ] Eric Monkkonen assume que nem todas as mortes por
tiroteio consistiam em assassinatos, embora a maior parte dos esfaqueamentos
provavelmente fosse. Se estes são números típicos ele conclui que havia \u201cno mínimo três
vezes mais assassinatos com instrumentos pontiagudos do que com armas de fogo
durante o período.\u201d[ 69 ] Na primeira metade do século dezenove, no entanto,
Cockburn descobriu que as armas de fogo e as armas brancas, juntas, causaram apenas
13 por cento das mortes violentas, enquanto que 41 por cento das mortes eram
resultado de pancadas e/ou chutes. Sobre a evidência de um declínio acentuado nos
homicídios por armas de fogo, ele presume que armas laterais de todos os tipos \u201cse
tornaram aparentemente menos predominantes durante a primeira metade do século
dezenove.\u201d Essa lógica o levou à conclusão de que \u201cportar armas\u201d causa mais violência.
Como temos visto, em vez de aumentar, os crimes violentos e os homicídios
declinaram dramaticamente durante o século dezoito, bem quando Cockburn descobre
que as armas de fogo substituíram em grande parte as armas tradicionais. Ainda assim,
noções preconcebidas são preconcebidas por uma razão: elas parecem lógicas, e o porte
de armas laterais pode ter aumentado os homicídios. É importante procurar por
outras evidências para descobrirmos se este foi realmente o caso.
Dada a ansiedade dos Parlamentares do século dezoito em relação à manutenção da
ordem e sua inclinação por proclamar novos delitos, era de se esperar que o direito dos
Protestantes de se armar fosse restrito a uns poucos privilegiados, e que um plebeu
portando uma arma de fogo estivesse cometendo um delito criminoso, algo grave. Mas
a história é cheia de surpresas. Os redatores da Carta de Direitos de 1689 e seus
sucessores pretendiam aparentemente o que proclamaram, de que os Protestantes
pudessem ter \u201carmas para sua defesa.\u201d Ironicamente, foi no século dezoito, tão severo
em sua abordagem da ordem, que o direito dos Protestantes de se armar foi
estabelecido completamente. De fato, ao final desse século a visão de que essas armas
privadas eram um baluarte da constituição e podiam, in extremis, proteger ou, se
necessário, restaurar as liberdades do povo, foi abraçada pela cultura legal ortodoxa.
De início, no entanto, o efeito prático do direito proclamado não ficou claro. Isto
era verdade para muitos dos artigos da Carta de Direitos, pois quando o documento
foi elaborado ainda havia leis nos livros que contradiziam ou infringiam alguns dos
direitos nela declarados. No caso da propriedade privada de armas de fogo, a Lei da
Caça de 1671 ainda proibia explicitamente todos os que não se qualificavam para a caça
de possuir ou utilizar tais armas. A revisão parlamentar seguinte da lei da caça, a Lei da
Caça de 1692, omitiu as armas de fogo da lista de dispositivos proibidos àqueles não
qualificados para a caça, mas deixou o resto da Lei da Caça de 1671 em vigor. Esta
jogada foi sugestiva mas não necessariamente conclusiva,