Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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ou em uma divisão do mesmo.
Finalmente, em 1856, todos os condados e cidades foram obrigados a estabelecer uma
força policial a apontar um policial-chefe para liderá-la.[ 72 ] Com a força policial veio
também o controle crescente sobre essas forças pelo governo central, através do Home
Office.[ xviii ]
Tanto o projeto de lei da polícia como a probabilidade de um maior controle
central encontraram resistência parlamentar e popular.[ 73 ] Ambos os governos, Tory
e Whig, depararam-se com pagadores de impostos ultrajados com a possibilidade de
que mais verbas seriam exigidas para propósitos policiais. Westminster já estava
arcando com parte do custo, mas qualquer aumento no subsídio encontraria uma
oposição convicta na Casa dos Comuns.[ 74 ] Um caso extremo de indignação pública
aconteceu quando a polícia tentou dispersar uma reunião de protesto dos trabalhadores
em Coldbath Fields, Clarkenfield, em maio de 1833.[ 75 ] A multidão havia sido
incitada a comparecer armada, e aparentemente obedeceu, trazendo uma coleção mista
de facas, pedaços de tijolos, cacetes e lanças. Em torno de seiscentos policiais, em
inferioridade numérica de dez para um, foram ordenados a interromper a reunião. Na
briga subseqüente a polícia sofreu perdas pesadas, e um policial, Robert Culley, foi
esfaqueado no peito e morreu. O júri considerou esse caso como \u201chomicídio
justificável\u201d porque a Lei do Tumulto não havia sido lida antes da tentativa de dispersar
a multidão, e a polícia foi acusada de se comportar de maneira brutal. Os jurados foram
aclamados como heróis locais. Cada um foi presenteado com uma taça de prata e com
um passeio de barco no Rio Medway. Outras comunidades protestaram mais
silenciosamente, mas com a mesma insistência, contra a polícia. Em Manchester o
conselho da vila, uma reunião dos pagadores de impostos, e a comissão de polícia
estavam juntos em oposição ao novo estabelecimento. O escriturário da cidade de
Birmingham havia sondado os membros do conselho e informado ao Secretário do
Interior: \u201cEu encontro entre eles um sentimento forte de indignação, em relação à
medida de 1839, insultante e despótico; insultante a eles mesmos, pessoalmente, como
membros do Conselho Municipal, e despótico como algo tendendo ao sistema de
centralização que todo bom inglês deve abominar e abjurar completamente.\u201d Em 1840
um magistrado de Todmorden escreveu: \u201cA Polícia do Condado logo será estabelecida
aqui, e o fato das circunstâncias de sua introdução serem odiosas à maior porção de
nossos habitantes renderá, muito provavelmente, algumas tentativas sérias de
perturbação da ordem.\u201d[ 76 ] Tumultos irromperam contra a polícia em Colne, em
1840, e quando sessenta e cinco policiais tentaram desarmar uma multidão em Ashton-
under-Lyne, em 1841, os policiais foram forçados e se refugiar na delegacia.[ 77 ] Em
áreas onde o Cartismo era forte a hostilidade era ainda maior. Essa aversão quase que
geral apareceu apesar do fato de que, com raras exceções, os policiais eram armados
apenas com cassetetes e eram comedidos ao lidar com as multidões.
Peel pressionou ainda mais, ávido por impor um controle central sobre a polícia.
Para aqueles ansiosos sobre a ameaça às liberdades individuais, comissões do governo
consideraram a questão. Uma Comissão Real sobre Lei Criminal de 1839 concluiu que
direitos poderiam ser suprimidos para o bem maior sem danos indevidos. Um outro
relatório, do ano seguinte, julgou \u201cque todas as leis específicas para a segurança das
pessoas ou das propriedades seriam em vão, a não ser que a operação de tais leis fosse
protegida pela imposição de restrições eficientes a violações forçosas da ordem pública.\u201d
A Comissão Real da Polícia de Condado admitiu que a polícia poderia penetrar na
liberdade individual, mas explicou: \u201cos males [criminais] que encontramos em
existência em alguns distritos, e a submissão abjeta da população aos temores [do
crime] que podem ser colocados como um estado de escravidão [...] formam uma
condição muito pior em todos os aspectos do que qualquer condição que possa ser
imposta por qualquer governo que pudesse existir no estado atual da sociedade nesse
país.\u201d Seu estudo do desenvolvimento deste \u201cestado policialesco\u201d convenceu V. A. C.
Gatrell de que com ele \u201ca proteção não dos direitos naturais, mas da ordem política e
social \u2013 igualado com o estado em si \u2013 foi elevada a objetivo primário da lei.[ 78 ]
Os números da polícia cresceram rapidamente. Em 1861 havia um policial para
cada 937 pessoas na Inglaterra e País de Gales; em 1891 havia um para cada 731. O
custo do policiamento também cresceu dramaticamente, de 1,5 milhão de libras em
1861 para duas vezes e meia essa quantidade em 1891 e quase quatro vezes e meia em
1911.[ 79 ] Suas atividades são freqüentemente consideradas como uma das razões para
o declínio dramático nos crimes graves. Uma série de leis deu a eles grande poder
discricionário, ou o que Gatrell chama de \u201cproibição antecipatória,\u201d um tipo de justiça
preventiva.[ 80 ]
Armas e o crime violento
Armas de fogo haviam sido necessárias ao público para ajudar a manter a paz, mas
também sujeitas ao mau uso por desordeiros e criminosos. Com o estabelecimento da
polícia nacional o governo pode ter sentido que não era mais necessário que indivíduos
armados protegessem uns aos outros e, portanto, que o estado deveria minimizar os
riscos que um público armado implicava. As armas foram um fator para o crime
violento dessa época? Um dos benefícios da força de polícia nacional foi o início das
estatísticas criminais nacionais. Embora estas representem apenas os crimes
registrados pela polícia, elas oferecem números reais para se trabalhar, ainda que
somente para mapear tendências. Apesar de todas as restrições usuais por conta de sua
falta de confiabilidade, a maioria dos historiadores tem endossado o quadro oficial.
A taxa de homicídios para a Inglaterra e País de Gales chegou a 2 casos por
100.000 apenas uma vez durante esse século, em 1865; no restante do período ela era
de aproximadamente 1,5 por 100.000 e ocasionalmente baixou para 1 por 100.000, um
recorde para baixo.[ 81 ] Entre 1857 e 1890 raramente havia mais do que 400
homicídios relatados por ano, e na década de 1890 a média se manteve abaixo de 350.[
82 ] Em 1835-1837, 9 por cento de todos os crimes ingleses consistiam em crimes
violentos, e de 1837 até 1845 essa fatia caiu para 8 por cento.[ 83 ] Mesmo esses 8 por
cento são inflados pelo fato de que dos crimes contra a pessoa 25-33 por cento eram
casos de infanticídio, que não envolviam armas de fogo. Crimes cometidos com armas
de fogo eram raros. Entre 1878 e 1886 o número médio de assaltos em Londres, nos
quais alguma arma de fogo tenha sido usada, era de dois por ano; de 1887 a 1891 esse
número subiu para 3,6 casos por ano.[ 84 ] \u201cEra uma sociedade dura\u201d, concluiu David
Phillips após examinar o crime Vitoriano, \u201cmas não era uma sociedade notavelmente
assassina. Os casos de homicídio involuntário não mostram o uso livre de armas
letais.\u201d[ 85 ] Por outro lado, cidadãos comuns eram livres para usar armas letais para
sua defesa própria. E conforme as dificuldades de impor restrições às armas privadas
indicavam, os membros do Parlamento e seus eleitores eram vigorosamente contra
quaisquer dessas tentativas.
A quantidade de crimes violentos permaneceu relativamente estável apesar do
aumento populacional agudo. Em 1751 havia entre 6 e 6,5 milhões de pessoas na
Inglaterra.[ 86 ] Um século depois havia 16,8 milhões, e em 1871 em torno de 21,4
milhões.[ 87 ] Entre 1850 e 1914 a população dobrou, e a população urbana triplicou.
[ 88 ] Ainda assim em 1900 a polícia registrou menos de 3 crimes de todos os tipos
para cada 1000 pessoas. Em contraste, em 1974 quase 4 crimes foram registrados para
cada 100 pessoas, ou seja, 13 vezes mais delitos indiciáveis.[ 89 ] Esse grande declínio
na violência aconteceu apesar da grande sensibilidade do público e