Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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também passaram a ver esse
direito como um dispositivo constitucional pelo qual as pessoas, in extremis, poderiam
proteger todos os seus outros direitos.
Os Ingleses trouxeram consigo ao Novo Mundo seu hábito de confiar nos civis
para a manutenção da paz e o direito destes de possuírem armas. Na verdade, essa
prática parecia tão crucial para a sobrevivência dos colonos na vastidão na nova terra que
a maioria dos Americanos ainda crê que a tão difundida dependência das armas de fogo
foi uma inovação colonial.[ 7 ] Quando os fundadores da república Americana
esboçaram sua própria Carta de Direitos eles incorporaram o direito de possuir armas
juntamente com outros escolhidos da Carta de Direitos Inglesa. A Segunda Emenda
Americana, no entanto, ampliou a letra da garantia Inglesa, que restringia o direito ao
armamento aos Protestantes e sugeria que alguma regulamentação fosse admissível. A
letra Americana assegura plenamente que \u201co direito das pessoas de possuírem e
portarem armas não deve ser violado.\u201d[ 8 ]
Na prática, o direito de ambos os povos era similar. Quaisquer outras diferenças
que a Inglaterra e os Estados Unidos tivessem, por três séculos eles concordaram
sobre a importância da propriedade privada de armas para defesa própria, para a
manutenção da paz pública, e para a estabilidade constitucional. Somente em nosso
século ocorreu uma forte divergência de política e de atitude. O direito dos Ingleses de
\u201cpossuir armas para defesa própria\u201d tem sido efetivamente demolido por uma série de
estatutos parlamentares e regulamentos burocráticos cada vez mais restritivos. Estes
culminaram em um regulamento confidencial de 1969, do Ministério do Interior, que
barrou a possessão de armas de fogo para proteção pessoal; o controle mais rígido
estabelecido pela Lei das Armas de Fogo de 1988 sobre o uso da espingarda, a última
das armas de fogo que podia ser comprada com uma simples demonstração de aptidão;
e a Lei das Armas de Fogo de 1997 praticamente completaram o banimento completo
das armas curtas. Armas de fogo à parte, e lei Inglesa atualmente proíbe civis de
carregarem consigo qualquer artigo que seja classificado como \u201cdefesa privada\u201d. Junto a
esta política se encontra um padrão legal muito estreito sobre que tipo de força é
aceitável para proteção pessoal.
Em contraste, enquanto as jurisdições Americanas restringem tipos específicos de
armas de fogo, e algo em torno de 20.000 regulamentos estaduais e locais controlam o
uso das armas, os cidadãos Americanos possuem aproximadamente 200 milhões de
armas de fogo. A NRA, Associação Nacional de Rifle, com seus 4 milhões de
membros, é o maior grupo de lobby dos Estados Unidos, e a maioria dos estados
permite atualmente que cidadãos cumpridores da lei carreguem suas armas fora da vista,
ou seja, escondidas. Vindo de um legado comum, o contraste entre as práticas Inglesa e
Americana não poderia ser mais dramático. A história desta origem comum e desta
divergência moderna é educativa. Há, é claro, diferenças culturais e legais importantes a
se considerar, mas uma sondagem cuidadosa que vá além das generalidades
constantemente repetidas pode aumentar nosso entendimento da relação entre armas e
violência.
A tarefa complicada de colocar os arquivos legais e governamentais de ambas as
nações em um contexto mais amplo tem sido extremamente facilitada graças ao
trabalho de estudiosos de uma gama de disciplinas. Eles têm enfrentado muitos
aspectos do problema \u2013 estatísticas de taxas internacionais de criminalidade, análises de
estatísticas nacionais de criminalidade, estudos sobre as motivações e contextos dos
criminosos, as possíveis causas do crime \u2013 tudo em busca da chave, ou chaves, para o
comportamento criminoso.[ 9 ] Surpreendentemente, embora as armas sejam
continuamente ligadas às taxas de criminalidade na opinião pública, investigações de
estudiosos na Inglaterra raramente consideram a possessão de armas como um fator no
nível de violência interpessoal. Em The Growth of Crime: The International Experience[ i ],
por exemplo, Sir Leon Radzinowicz e Joan King usam a Inglaterra como ponto de
partida mas em nenhum momento apontam as armas de fogo ou qualquer outro tipo
de armamento como causa ou solução para a criminalidade. O mesmo é verdade no
estudo estatístico fascinante de Paul e Patricia Brantingham, Patterns in Crime.[ ii ] Eles
detectam padrões básicos de violência que parecem existir independentemente da
disponibilidade de armas de fogo. Entre seus achados mais intrigantes está o de que
países com taxas muito altas de crimes contra a propriedade tendem a ter taxas baixas
de crimes contra as pessoas, e vice-versa.[ 10 ] Eles categorizaram tanto a Inglaterra
como os Estados Unidos como países com taxas altas de crimes contra a propriedade e
taxas baixas de crimes contra as pessoas. Quando Terence Morris passou do impacto
da pobreza, da prosperidade e do desemprego sobre a criminalidade na Inglaterra para o
\u201cproblema das armas de fogo\u201d, foi apenas para considerar o uso das armas de fogo pelo
polícia Inglesa, não como causa da violência, apesar do aumento no uso de armas de
fogo em crimes durante o período que ele estudou.[ 11 ] Morris e Louis Bom-
Cooper, em A Calendar of Murder: Criminal Homicide in England since 1957[ iii ], não dizem
nada sobre armas serem um fator que contribui para a criminalidade.[ 12 ] O estudo de
Robert Sindall sobre a violência nas ruas no século dezenove o levou a apontar o papel
da mídia de fomentador da noção de que o crime era um problema sério na época,
quando na verdade suas taxas estavam em declínio.[ 13 ] Nos esforços de Nigel Walker
para explicar os maus comportamentos, ele não menciona armas de fogo, mas descobre
que o princípio de Durkheim de \u201cum efeito, uma causa\u201d é algo sem sentido. Walker
argumenta que a busca por uma teoria geral \u201cque dará conta de todos os tipos de
crimes ou desvios ou comportamentos errados não faz mais sentido do que a busca por
uma teoria geral das doenças.\u201d[ 14 ] Duas exceções notáveis são Colin Greenwood e
Peter Squires. O livro inovador de Greenwood, Firearms Control: A Study of Armed Crime
and Firearms Control in England and Wales[ iv ], publicado em 1972, rastreia a legislação
Inglesa sobre armas de fogo e o impacto destas na criminalidade. Greenwood, então
inspetor chefe da Polícia de West Yorkshire, forneceu informações valiosas sobre os
controles Ingleses sobre armas de fogo até 1968 e seu impacto até 1969, descobrindo
uma pequena correlação direta entre o número de armas nas mãos privadas e o crime
armado. Mais recentemente, em Gun Culture or Gun Control? Firearms, Violence and Society[ v
], Peter Squires, um cientista social Britânico, compara as atitudes Inglesa e Americana
para com o que ele chama de \u201ca sociologia da arma\u201d. O título do livro faz uma distinção
mais simplista do que o conteúdo do mesmo, que fornece uma breve história de cada
país antes de focar em seus embates modernos, culturais e políticos, sobre o controle
das armas de fogo. Infelizmente \u2013 já que os números de Squires sobre homicídios nos
Estados Unidos param em 1994 \u2013, ele parece não estar ciente da queda vertiginosa dos
homicídios com arma de fogo nos Estados Unidos desde então, ou do aumento do
crime armado na Inglaterra, e conclui que \u201co momento mais agudo na crise das armas
no Reino Unido já passou.\u201d Se as tendências recentes teriam alterado as conclusões de
Squires ou não é incerto, pois ele não vê justificativa para uma política de armamento
mais permissiva na década de 1980, quando os crimes relacionados a armas de fogo
estavam em ascensão, ao mesmo tempo em que o número de registros de armas
declinava, e mantém a mesma visão quando o crime armado parecia estar em queda,
depois de 1994, ao dizer: \u201cO fato de que os crimes armados pareçam estar em queda
não é razão para que reconsideremos a questão da proibição de armas curtas.\u201d[ 15 ]
A preocupação Americana com o crime tem