Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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em tempos passados não era
possível.\u201d Ao dar ao indivíduo \u201coportunidade através do Parlamento e das Cortes para
sua compensação final\u201d, adicionou ele, \u201cnós iremos tirar sua atenção das armas de forma
mais eficiente.\u201d[ 39 ] Quando a questão foi colocada a Casa se dividiu, com 254 dos
membros votando pela aprovação da lei e apenas 6 contra.[ 40 ]
A nova lei exigia um certificado para a arma de fogo de qualquer um que desejasse
\u201ccomprar, ter em sua posse, usar, ou carregar qualquer arma de fogo ou munição.\u201d[ 41
] O chefe de polícia local decidiria quem poderia obter tal certificado e excluiria
qualquer um de hábitos imoderados, de mente doentia, ou qualquer um que ele
considerasse \u201cpor qualquer razão impróprio para receber uma arma de fogo.\u201d Além de
ser certificado como alguém temperado e obediente à lei, o requerente tinha que
convencer o policial de que tinha uma \u201cboa razão para requerer tal certificado.\u201d Na Casa
dos Lordes o governo concordou que a \u201cboa razão\u201d seria \u201cdeterminada pela prática.\u201d
Claramente, ambos os critérios eram altamente subjetivos e flexíveis. O certificado não
especificava somente a arma, mas também a quantidade de munição que um indivíduo
poderia comprar e carregar consigo de uma só vez. Cada certificado expirava depois de
três anos. A renovação envolvia uma taxa adicional e a necessidade de ser requalificado.[
42 ] A penalidade para a violação da lei era de multa não excedendo cinqüenta libras \u2013
uma soma substancial em 1920 \u2013 ou a prisão com ou sem trabalhos forçados por um
período máximo de três meses, ou ambos.[ 43 ] O direito dos indivíduos de se armar
sempre havia sido, nas palavras da Carta de Direitos de 1689, \u201cconforme permitido
pela lei.\u201d Esta nova lei, que tornou o direito condição sob os caprichos do secretário de
Home Office e dos policiais, transformou o direito em um privilégio.
Entre as Guerras
Em contraste com a Lei das Armas Curtas, a Lei das Armas de Fogo de 1920
parece ter sido aplicada com vigor. Antes do final do ano, o Parlamento ouviu duas
reclamações sobre a aplicação lei com zelo demasiado, e o secretário do interior, em
resposta a inúmeras outras reclamações, emitiu instruções para ajudar a polícia \u201ca levar
a cabo, sobre bases justas e razoáveis, a administração da Lei.\u201d[ 44 ] Então se iniciou a
série de diretivas confidenciais, do Home Office para os chefes de polícia, que definiram
o que constituía uma boa razão para conceder um certificado de arma de fogo. A
primeira diretiva deu estas linhas mestras sobre a necessidade de uma arma para defesa
própria: \u201cSeria uma boa razão para se ter um revólver se uma pessoa vive em uma casa
solitária, onde a proteção contra ladrões e assaltantes é essencial, ou se tem sido
exposta a ameaças de morte definidas no tocante ao desempenho de alguma tarefa
pública.\u201d[ 45 ] Esta orientação era muito mais restritiva do que o Parlamento havia
sido levado a crer, mas era uma diretiva secreta, e nem o Parlamento nem o público
tiveram a oportunidade de debater o assunto.[ 46 ] Em 1920, com as taxas de
criminalidade bastante baixas, talvez a necessidade real de defesa própria parecesse
problemática para o secretário do interior. Ainda assim, com o passar dos anos, mesmo
quando a taxa de criminalidade começou a subir a variedade de razões aceitáveis para se
armar continuou a diminuir. O segundo critério, o da adequação, também foi
explicitado. O chefe de polícia tinha que estar certo de que a concessão de um
certificado a uma pessoa específica fosse \u201csem perigo para a segurança e para a paz
públicas\u201d e tinha que julgar isto \u201cprincipalmente pelo caráter, antecedentes e
companheiros da pessoa, tão certo como possa ser verificado.\u201d[ 47 ]
O número de indiciamentos sob a Lei das Armas de Fogo foi muito maior do que
os da Lei das Armas Curtas de 1903. Em 1926 houve 618 processos judiciais e 486
condenações, a maioria por posse de arma de fogo sem certificado. Em 1929 esses
números caíram um pouco, para 386 processos e 290 condenações.[ 48 ] Mas se no
começo da década de 20, quando esse controle foi instaurado, apenas uma pequena
porção das centenas de milhares de armas eram registradas, vê-se então que esses
números não são tão expressivos.[ 49 ] Dado o grande número de armas não
registradas entregues em anistias especiais de anos anteriores, muitas e muitas pessoas
podem jamais ter registrado suas armas, mas simplesmente ter mantido uma arma em
casa, algumas talvez como relíquias de guerra, para defender a si mesmos e sua
propriedade.
O crime armado tinha se mantido muito baixo antes da lei e continuou a declinar
na década de 1920, embora os crimes contra a propriedade tenham crescido. De acordo
com as estatísticas oficiais, o número de crimes informados à polícia cresceu entre 1920
e 1923. Na verdade, os 110.206 delitos informados em 1923 foram o maior número
nos sessenta e sete anos em que as estatísticas estavam disponíveis.[ 50 ] Aconteceu um
aumento dramático, em 1923, de invasões a lojas e obtenção por falso pretexto,
respectivamente, 85 e 94 por cento a mais do que no ano anterior. Mas um relatório de
1925 sobre os homicídios e tentativas de homicídio conhecidas pela polícia mostrou
um declínio de uma média anual de 426 homicídios em 1909-1913 para 369 em 1923,
uma queda de 13,4 por cento, enquanto que os assaltos diminuíram de 1.739 para
1.522, uma queda de 12,5 por cento. Não foi fornecida nenhuma separação de dados
sobre o uso de armas de fogo nesses crimes, mas os autores do relatório concluíram:
\u201cO homicídio e outros tipos de crimes violentos contra as pessoas estão caindo
firmemente. O movimento se estende, embora num grau menor, aos assaltos e outros
delitos violentos menores que estão dentro da jurisdição comum das cortes sumárias.\u201d[
51 ] O relatório concluiu, \u201cpode arriscar-se dizer que o crime em geral tem diminuído
firmemente em um termo considerável de anos, e também que a redução é maior nas
formas mais sérias de quebra da lei.\u201d[ 52 ] Os autores não atribuíram essa queda às
restrições às armas de fogo, mas sim a um declínio na bebedeira.[ 53 ] Nenhuma
estatística sobre o uso de armas de fogo nos crimes parece ter sido coletada antes da
Segunda Guerra Mundial. Números apresentados ao Parlamento, no entanto,
mostram que nos dezoito meses entre julho de 1936 e dezembro de 1937 apenas vinte
pessoas presas em toda a área metropolitana de Londres estavam portando uma arma, e
doze desses eram armas curtas de ar ou de brinquedo.[ 54 ] Apenas sete estavam com
armas de fogo. Na média havia em torno de quatorze casos por ano de pessoas presas
com armas de fogo. Isso representa uma redução dos níveis de 1911-1913 e 1915-
1917, quando as médias eram respectivamente 41 e 18, embora, como destacou Colin
Greenwood, \u201ca maior redução \u2013 41 para 18 \u2013 foi atingida sem nenhum controle sobre
as armas de fogo.\u201d[ 55 ] Quanto às causas, um estudo sobre homicídios feito às
vésperas da Segunda Guerra Mundial convenceu Leon Radzinowicz e Joan King que
não foram as armas de fogo, mas \u201cas condições sociais e culturais que determinaram
tanto a taxa de assassinatos como a resposta penal.\u201d[ 56 ]
Se o objetivo verdadeiro da Lei das Armas de Fogo era prevenir tumultos e a
revolução, o governo foi rápido para colocá-la em teste. O período de 1919 a 1922 foi
varrido por grandes greves, que provocaram uma resposta drástica por parte do
governo.[ 57 ] Quando os ferroviários ameaçaram entrar em greve por conta de um
corte de salários, em setembro de 1920, o governo dividiu o país em doze divisões
administrativas, declarou estado de emergência, e chamou as pessoas para participarem
de uma guarda cidadã no combate à \u201cameaça pela qual estamos sendo confrontados
hoje.\u201d Na primavera seguinte, quando os mineiros ameaçaram entrar em greve com a
ajuda de outros sindicatos \u2013 a Aliança Tripla \u2013 o governo ordenou que fossem feitas
preparações para mobilizar os territórios e chamou as forças de reserva do exército,
marinha e