Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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da população ascendeu a novos níveis de conforto. Talvez por ter comandado com
sucesso grande parte da economia durante a guerra, e por ter alargado sua autoridade
em muitas áreas depois, talvez por sua atenção ao bem-estar do indivíduo do berço ao
túmulo, quando a questão era o crime e a proteção individual o governo não tinha
remorsos em insistir que tinha o que era preciso para manter o monopólio no uso da
força. Onde o bem maior estava em jogo, um público desarmado deve ter parecido mais
importante do que qualquer segurança individual. Coincidentemente, esse novo poder
ajudaria a suprimir as perturbações internas \u2013 que podem ter sido, como em 1920, o
objetivo real. Em nenhuma proporção, o público inglês, acostumado com o governo
cuidando de tantos aspectos de suas vidas, não pereceu nem surpreso e nem inclinado a
protestar contra.
Períodos pós-guerra produzem taxas de criminalidade comumente mais altas, e os
anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial não foram exceção. Não obstante, os
homens e mulheres ingleses sentiram que havia um elemento novo e preocupante neste
aumento. Aquilo que se tornou conhecido como delinqüência juvenil estava em alta, e a
culpa foi jogada sobre uma geração criada durante o trauma da guerra. Esses novos
infratores eram freqüentemente organizados em gangues armadas com correntes,
socos-ingleses e canivetes. Em novembro de 1948 a Casa dos Lordes ponderou sobre o
mundo transformado que era a Inglaterra pós-guerra. O The Times relatou a discussão
sob a manchete \u201cCausas e Cura do Crime: Padrões Morais na Vida Nacional.\u201d Os
subtítulos para as declarações mostram a essência da matéria: \u201cVirtudes Singelas
Desaparecendo\u201d, \u201cUm Problema Moral\u201d, \u201cNúmeros Graves para 1948\u201d, \u201cFalta de
Respeito pelas Cortes.\u201d Os Lordes estavam alarmados pelo grande aumento no crime
entre 1938 e 1947, especialmente com a alta porcentagem de crimes cometidos por
pessoas menores de vinte e um anos de idade. Eles geralmente concordavam sobre as
causas: primeiro veio a guerra, depois o aumento do custo dos bens que fazia valer a
pena roubá-los, a \u201cruptura da vida doméstica\u201d, e finalmente \u201ca crescente perda de
respeito pela lei.\u201d O Visconde Simon adicionou \u201cum respeito decrescente pelo respeito
aos direitos do indivíduo no tocante à propriedade privada.\u201d Em sua resposta o lorde
chanceler focou na perda de respeito pelas cortes, especialmente pelas cortes juvenis, e
identificou um problema com sua abordagem: \u201cHavia uma idéia de que cada criança com
a qual lidávamos tinha o direito a um primeiro delito, da mesma maneira que se
costumava dizer que um cão tinha direito a uma primeira mordida.\u201d Então ele
adicionou \u201cum outro fator de imensa importância [...] de que grandes áreas não podiam
mais alegar verdadeiramente que eram um país Cristão.\u201d Parece que ele tinha em mente
o número crescente de divórcios. Os Lordes concordaram que o Home Office, o
Ministério da Educação e os líderes da Igreja deveriam trabalhar juntos para lidar com
o problema.[ 15 ] Se tais reuniões realmente aconteceram, elas falharam em levar a Grã-
Bretanha de volta a ser um reino pacífico.
O governo Britânico estava plenamente preparado para consertar antigas políticas
e adotar outras novas em nome da prevenção ao crime. As estratégias governamentais
desde a década de 1950 até o presente momento[ xxvii ] têm combatido o problema em
três direções: desarmar a população, tratar os infratores juvenis com leniência, e reduzir
as sentenças de prisão e o efetivo da polícia, ambos com o objetivo de cortar custos.
Todas as três táticas parecem ter abastecido o aumento do crime violento. A primeira
delas, a monopolização de uso da força pela polícia, tem a relevância mais imediata na
relação entre o crime violento e a propriedade privada de armas.
Desarmando as pessoas
O desarmamento da população estava em pleno andamento por volta de 1950,
graças a interpretações ainda mais restritivas da Lei das Armas de Fogo de 1920. Uma
série de instruções secretas dadas à polícia pelo Home Office continuaram a reduzir o
número de razões aceitáveis para se receber uma permissão de propriedade de arma. As
instruções de 1937 haviam advertido: \u201cComo regra geral as requisições para posse de
armas de fogo para proteção pessoal ou do lar devem ser desencorajadas com base no
fato de que as armas de fogo não podem ser consideradas como um meio adequado de
proteção e podem ser uma fonte de perigo.\u201d[ 16 ] Em 1964 um outro conjunto de
instruções afirmou: \u201cDificilmente deve ser necessário que alguém possua uma arma de
fogo para proteção de sua casa ou pessoa [...] este princípio deve se manter válido
mesmo em casos de bancos e firmas que desejem proteger bens ou grandes quantidades
de dinheiro; apenas em casos muito excepcionais uma arma de fogo deve ser usada para
propósitos de proteção.\u201d Cinco anos depois as instruções do Home Office
proclamaram: \u201cJamais deve ser necessário que alguém possua uma arma de fogo para
proteção de sua casa ou pessoa.\u201d[ 17 ] Desde 1969 o número de certificados emitidos
para outros propósitos que não o de defesa \u2013 geralmente esporte \u2013 também foram
deliberadamente cortados, novamente como resultado de uma política secreta do Home
Office. De 1989 a 1996, por exemplo, enquanto a população e o crime cresceram o
número de pessoas com certificados caiu 20 por cento.[ 18 ] As instruções do Home
Office sobre os critérios para se emitir um certificado de arma se mantiveram
confidenciais até 1989, apesar de um relatório de 1972 que questionava se as decisões
de conceder certificados, \u201cuma matéria de importância considerável para o público em
geral\u201d, deveria continuar \u201cuma matéria de decisão individual dos oficiais chefes e das
cortes\u201d e reclamando que os critérios \u201cnão estava demonstrados em nenhum estatuto
ou outro instrumento legal.\u201d[ 19 ] Não houve debate ou consulta pública em nenhum
estágio da implementação da política do Home Office, que contrariava a intenção da
Lei das Armas de Fogo e removia efetivamente o direito de 1689, de que os ingleses
tivessem armas para sua defesa própria. A única razão que era aceita para se ter uma
arma de fogo eram os esportes de tiro, e os esportes não são protegidos
constitucionalmente. Em 1997, N. P. Chinball, secretário provado das Cortes Reais
de Justiça, esclareceu a situação legal ao ser perguntado se a Carta de Direitos ainda
estava inteiramente em vigência. Ele destacou que, embora houvesse emendas a algumas
provisões na Carta de Direitos, \u201cA provisão particular que permitia a súditos
protestantes possuir armas para sua defesa, adequadas à sua condição e conforme
permitida pela lei, não havia sido emendada, mas é algo certamente sujeito às inúmeras
restrições sobre o direito de possuir armas de diferentes tipos, incluindo armas de fogo
contidas em legislações subseqüentes.\u201d Chinball adicionou que o uso de armas de fogo
\u201csomente com propósitos esportivos não é protegido pela Carta de Direitos.\u201d[ 20 ]
O governo e o serviço civil usaram bases legais válidas quando alteraram a intenção
de um estatuto e eliminaram um direito constitucional sem uma emenda legislativa? T.
S. R. Allan, em um ensaio penetrante sobre a administração da lei, escreve: \u201cA
totalidade de nossa lei pública [...] pressupõe a visão de que os poderes estatutários dos
oficiais e autoridades públicas são confinados pelas palavras do estatuto relevante,
apropriadamente interpretado. Ninguém deve ser obrigado a agir de modo contrário a
seus próprios desejos \u2013 seja para o bem público ou para seu próprio \u2013 só porque os
ministros ou oficiais do governo acham que seja desejável.\u201d[ 21 ]
A despeito dos controles do governo sobre as armas de fogo, as noções antigas da
lei comum de defesa própria e do dever real de intervir para proteger os outros
permaneceu na força e na mente. Dois estatutos, a Lei de Prevenção ao Crime de 1953
e a Lei Criminal de 1967, alteraram a lei por trás daqueles conceitos tradicionais, talvez
para sempre.