Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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começou a fazer consultas diretas à
população. O Ministério do Interior conduziu suas próprias pesquisas sobre
criminalidade em 1982, 1984, 1988, 1992 e 1998. Os autores de um estudo que
compara os relatórios criminais da polícia com pesquisas do Ministério do Interior
com vítimas de crimes estavam convencidos de que as estatísticas da polícia \u201cnão são um
guia confiável tanto para a extensão dos crimes como para suas tendências,\u201d notando
que \u201co aumento dos crimes de violência e vandalismo tem sido amplificado pelas
estatísticas da polícia e esta é a fonte principal para o aumento geral dos números desde
1981.\u201d[ 23 ] Uma década depois as estatísticas da polícia sobre os crimes eram tão
duvidosas que o Times de Londres sugeriu duas vezes que eles fossem dispensados de
fazê-las.[ 24 ]
Apesar de todos esses problemas, a questão da relação entre armas e violência é
importante demais para ser ignorada. Historiadores, incluindo esta que vos escreve,
descobriram que mesmo evidências com falhas podem despertar descobertas-chave,
especialmente quando usadas em conjunto com uma ampla variedade de materiais e
colocadas em contexto histórico. E esse contexto é extremamente rico e complexo.
Compreender a relação verdadeira entre armas de fogo e violência é essencial para
desenvolver políticas que possam fornecer aos cidadãos cumpridores da lei a segurança
pessoal que Blackstone chamou de o primeiro entre os direitos importantes e
primários da humanidade. Eu espero que a história que se segue possa contribuir para
esse esforço.
i A tradução livre para esse título seria \u201cO Crescimento do Crime: a Experiência
Internacional\u201d \u2013 NT.
ii A tradução livre para esse título seria \u201cPadrões do Crime\u201d \u2013 NT.
iii A tradução livre para esse título seria \u201cUm Calendário do Assassinato: o
Homicídio Criminoso na Inglaterra desde 1957\u201d \u2013 NT.
iv A tradução livre para esse título seria \u201cControle das Armas de Fogo: um
Estudo sobre o Crime Armado e o Controle de Armas de Fogo na Inglaterra e no
País de Gales\u201d \u2013 NT.
v A tradução livre para esse título seria \u201cCultura das Armas ou Controle das
Armas? Armas de Fogo, Violência e Sociedade\u201d \u2013 NT.
1
A IDADE MÉDIA: LEIS, BANDIDOS
E CRIMES DE VIOLÊNCIA
Toda era desde o século quinze até os nossos dias tem produzido
testemunhas ansiosas por atestar a violência e a criminalidade sem
precedentes de sua própria geração.
\u2013 J. S. Cockburn, \u201cPatterns of Violence in English Society: Homicide in Kent,
1560-1985\u201d
As armas causam crimes? Se este for o caso, então um mundo sem armas de fogo
privadas deveria ter um nível menor de criminalidade do que um outro onde elas
estejam disponíveis. E a propagação das armas deveria ter se manifestado através de
taxas crescentes de assassinatos, roubo e outros atos violentos. O uso comum de
armas de fogo privadas se iniciou na Inglaterra durante o século dezesseis. Desse modo,
é no final da Idade Média, os séculos quatorze e quinze, que nossa investigação deve
começar.
Duas versões concorrentes da violência na Inglaterra pré-industrial chegaram até
nós. A primeira enxerga essa era como bucólica e quieta, até que a Revolução Industrial
destruísse a ordem, a comunidade e a família tradicionais; a outra pinta o período como
violento, sem lei, sem polícia, e não civilizado. O primeiro conceito vem dos grandes
teóricos sociais do século dezenove e início do vinte. A noção de que a modernização
levou ao colapso social, que por sua vez levou ao aumento da criminalidade, foi
desenvolvida a partir das teorias de Marx, Tonnies, Durkheim, Weber, e outros.[ 1 ]
A Inglaterra, como primeira nação a experimentar o impulso completo da Revolução
Industrial, parecia ser o paradigma de uma comunidade que experimentou a
transformação de uma sociedade plácida para uma moderna, esta sem lei. Enquanto
alguns pensadores também apontaram uma mudança no tipo de desvio \u2013 de crimes
violentos para crimes contra a propriedade \u2013 sua premissa básica gerou a visão comum
de que as mudanças drásticas nos padrões de vida e trabalho criaram um ninho para o
crime.[ 2 ]
O segundo cenário, projetado pelas próprias pessoas da Inglaterra pré-industrial,
retrata a Inglaterra medieval como uma sociedade rude e violenta, obrigada a manter a
ordem com códigos legais severos e punições aplicadas com uma publicidade
intencionalmente cruel. A Inglaterra pode ter evitado a tortura judicial em uso no
Continente e ostentado uma longa tradição de julgamentos por júri, mas a comissão de
roubos menores trouxe homens e mulheres para as forcas. Os traidores eram
enforcados publicamente, afogados e esquartejados, e suas cabeças deixadas para
apodrecer em lanças nas extremidades da London Bridge como uma lição objetiva para
todos. Indivíduos condenados por crimes menores eram, algumas vezes, marcados com
ferro quente ou tinham suas orelhas cortadas.
Os contemporâneos lamentavam os perigos e a depravação de sua era, e
freqüentemente recontavam com fascinação e horror os detalhes de crimes
particularmente sinistros.[ 3 ] As impressoras alimentavam o apetite público por
contos de vilania, com panfletos que recontavam os últimos assassinatos, roubos e
julgamentos. Os autores e editores do gênero justificavam sua escolha de assunto
dizendo que assim ofereciam lições de cautela valiosas. Considere os títulos de dois
panfletos principais da época:
Uma Descoberta de Roubos Numerosos, Grandes e Exagerados: o
comprometimento tardio com a devassidão e com o mal afetou os soldados
[...] desde a recente dispersão do Exército do Norte [...] em que está
inclusa a descrição de um combate exagerado, entre 9 Soldados e 6
Assassinos, que se encontraram na estrada, e o que se seguiu. Com diversas
outras ofensas e abusos, feitos por eles dentro desta Cidade (1641)
Inquérito sobre Sangue. Sendo uma Relação de diversas Inquisições de
todos que Morreram por qualquer tipo de Morte violenta na Cidade de
Londres, e Vila de Southwark, começando em 1º de Janeiro de 1669 [...] E
também um relato breve daqueles que foram achados Culpados, com menção
aos seus Crimes e Punições. Publicado para a Satisfação de alguns, e para
prevenir os Erros de outros (1670)
O trabalho de Alexander Smith, de 1711, The History of the Lives of the Most Noted
Highwaymen, Footpads, Shop-lifts and Cheats of Both Sexes, in and about London and Other Places,[
vi ] se tornou tão popular que teve cinco edições. Claramente, esse período não era
diferente do nosso em sua fascinação pela violência. Na verdade, pelo fato de não ter
havido uma polícia profissional até o século dezenove, e estando a responsabilidade por
manter a ordem local nas mãos dos locais, sua preocupação com a atividade criminal é
ainda mais compreensível.
Os conflitos entre as pessoas que respeitavam a lei e os criminosos se
transformavam em publicações horripilantes, mas que entretiam muitos. Ainda assim,
se formos ouvir exclusivamente os críticos contemporâneos ou depender de nossas
noções próprias sobre um passado rebelde, corremos o risco de nos esquecermos da
tendência, em cada era, de reclamar das condições predominantes. Como observou
James Cockburn: \u201cA maioria dos Ingleses do século dezenove estavam convencidos de
que a criminalidade crescia como nunca antes na história; comentaristas do século
dezoito estavam completamente alarmados por algo que viam como uma onda crescente
de criminalidade violenta; e denúncias de um colapso iminente da lei e da ordem
pontuaram a Idade Média\u201d[ 4 ] J. A. Sharpe sustentou que ainda que os Ingleses
discutissem freqüentemente sobre a ilegalidade, eles não viam isso como \u201cum
problema.\u201d[ 5 ] No entanto, a investigação de Barbara Hanawalt sobre a Inglaterra do
século quatorze a convenceu de que \u201ca preocupação com o predomínio da desordem e
do crime estava expressa em cada quarteirão e em todas as classes.\u201d
O rei promulgou estatutos contra a ilegalidade, empreendeu reformas
administrativas, e tentou se livrar