Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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de oficiais corruptos, enquanto que a
Câmara dos Comuns pedia uma melhor aplicação das leis e a punição para
oficiais corruptos. Os lordes mantinham tropas em suas propriedades para
se protegerem contra os bandidos, mas as pessoas da área rural reclamavam
que as tropas caseiras dos lordes eram os grandes responsáveis pela violência.
Os juízes apontavam que os criminosos os brutalizavam e ameaçavam, de
modo que não podiam fazer seu trabalho, enquanto todos acusavam os juízes
de vender a justiça como mercadoria e de punir homens que não poderiam
pagar por sua absolvição. Jurados camponeses absolviam seus vizinhos
depois de atos criminosos repetidos para que, quando fossem eles mesmos
capturados, seus vizinhos fizessem o mesmo por eles.
Hanawalt diz que tais reclamações são \u201cparte da tradição ocidental de se queixar
socialmente.\u201d[ 6 ] Mas Cockburn, em seu estudo sobre o período moderno inicial,
encontrou períodos nos quais a comunidade e o Parlamento estavam profundamente
perturbados com o crime e tentaram combatê-lo a todo custo.[ 7 ] Uma lei de 1962,
por exemplo, dizia que \u201cas estradas e vias [...] têm estado, nos últimos tempos, mais
infestadas com ladrões e assaltantes do que antigamente\u201d e que os assassinatos e roubos
cometidos por estes causavam \u201ca grande desonra das leis deste reino e de seu governo.\u201d
Para encorajar o público a denunciar assaltantes era oferecida uma recompensa de
quarenta libras para informações que levassem à captura e condenação de um salteador.
Era também prometido ao informante o cavalo do ladrão, suas armas, e qualquer coisa
que estivesse em sua posse, desde que fossem de propriedade do bandido.[ 8 ]
Se preconcepções e evidências anedóticas podem distorcer nossa perspectiva,
também o podem os documentos. É muito comum estudiosos, mergulhados em
arquivos dos tribunais, serem facilmente levados a assumir que uma minoria era acusada
por crimes. Os arquivos, as reclamações e a fofoca necessitam ser postos dentro de um
contexto. O problema principal, no entanto, não é tanto com os arquivos enviesados,
mas sim com os imprecisos e idiossincráticos, especialmente antes de 1805, quando as
estatísticas nacionais sobre criminalidade começaram a ser compiladas. Por cinco
séculos e meio, de 1250 a 1800, apenas vinte conjuntos de arquivos criminais da
Inglaterra sobreviveram, e são de regiões de tamanhos e características variados, e de
períodos diferentes.[ 9 ] E mesmo esses conjuntos de arquivos são incompletos. Uma
série completa de indiciamentos por crimes sérios sobreviveu até o século dezoito.
Felizmente, o homicídio, o crime mais pertinente à nossa investigação, está também na
categoria com mais probabilidade de ser documentado; mas mesmo alguns homicídios
escaparam da documentação legal ou foram arquivados como acidentes, defesa própria,
ou como resultado de causas naturais ou \u201cintervenção divina\u201d.[ 10 ] Mais ainda, tanto a
definição de homicídio como as atitudes a respeito do mesmo mudaram no curso da
história. Uma pesquisa sobre a lei e sua evolução, bem como os números de armas de
fogo e seu papel no crime, é assim essencial para nossa missão. Mas primeiro
precisamos considerar o que já foi descoberto sobre tendências de longo prazo na
criminalidade. Sobre a questão chave do impacto das armas de fogo, é notável que nem
aqueles que acreditam na existência de uma Inglaterra pré-industrial pacífica nem os
que sustentam que era uma sociedade violenta vêem a proliferação das armas como algo
que cause uma mudança nas taxas de criminalidade.
Desordem ou civilidade: a visão longa
Os registros históricos Ingleses revelam um padrão constante, no qual os crimes
contra a propriedade são muito mais comuns do que os crimes contra as pessoas.[ 11 ]
E virtualmente todos os historiadores concordam que os crimes contra as pessoas,
especialmente o homicídio, declinaram na Inglaterra desde a Idade Média até o nosso
século.[ 12 ] A pesquisa de Thomas Green sobre os júris Ingleses medievais mostrou
que, embora os homicídios fossem comuns e perfizessem \u201cuma proporção muito grande
da agenda da corte\u201d, os números diminuíram entre os séculos treze e dezenove.[ 13 ]
Lawrence Stone estimou que \u201cas taxas de homicídio na Inglaterra do século treze eram
aproximadamente o dobro daquelas dos séculos dezesseis e dezessete, que por sua vez
eram de cinco a dez vezes maiores do que as de hoje.\u201d[ 14 ] Outros, menos preparados
para apresentar porcentagens específicas, concordam de qualquer maneira com a
conclusão geral. Cockburn encontrou \u201cuma base forte para a tese de que os quatro
séculos após 1560 viram um declínio decisivo na incidência de homicídios na
Inglaterra.\u201d[ 15 ] Em 1984, James Sharp concordou cautelosamente que, mesmo não
sendo um declínio suave, os indícios \u201cdão a impressão de uma mudança em direção a
uma sociedade menos brutal.\u201d[ 16 ] Já em 1996 ele estava mais seguro. Um grupo de
suas amostras sugeria uma taxa \u201ctípica\u201d de homicídios para o século treze de 18 a 23
casos por 100.000, diminuindo para 15 por 100.000 no século dezesseis, e caindo
\u201cdramaticamente\u201d por volta da metade do século dezessete.[ 17 ] Este declínio nos
crimes violentos, de acordo com T. R. Gurr, \u201ctem uma plausibilidade prima facie porque
vai de encontro ao aumento da sensibilização pública e da atenção official.\u201d[ 18 ] Sharpe
devaneia, dizendo que a razão para esse declínio \u201cpermanece inexplicável.\u201d[ 19 ] O longo
declínio nas taxas de criminalidade na maioria dos países ocidentais também permanece
inexplicável.[ 20 ]
Armas de fogo \u2013 mosquetes, espingardas e armas curtas \u2013 tornaram-se de uso
mais comum no século dezesseis, quando os homicídios já estavam em declínio. De lá
até 1920 não houve restrições efetivas à sua posse. As duas tendências se cruzam: os
crimes violentos continuaram claramente a declinar ao mesmo tempo em que as armas
se tornavam cada vez mais disponíveis.
Esse é o quadro geral, pintado com pinceladas largas. Precisamos examinar cada
época mais de perto para ter certeza de nosso embasamento, pois sob as tendências
gerais estão variáveis importantes, entre elas as mudanças na disponibilidade das armas
de fogo, na prática legal e nas atitudes da comunidade em relação ao homicídio e ao
roubo, esses crimes que William Blackstone via como \u201cde um tom profundo e atroz.\u201d[
21 ] É nestes atos violentos que as armas tinham mais chance de estar envolvidas.
Homicídio, roubo e lei
Os registros históricos são claros. A Inglaterra medieval, sem o benefício das
armas de fogo, era de fato, bem como em teoria, violenta e turbulenta. A taxa de
homicídios era extraordinariamente alta, aproximadamente 18 a 23 por 100.000 no
século treze e na primeira metade do quatorze; e esses números, como veremos, são
quase que certamente subestimados.[ 22 ] Por comparação, na América, em 1965,
apenas 0,4 por cento de todos os crimes eram homicídios. [ 23 ] Na primeira metade
do século quatorze Londres tinha uma média de dezoito homicídios por ano,
comparado a dois homicídios por ano em uma cidade norte-americana, de população
similar, em 1965.[ 24 ] O sistema de saúde muito mais precário da Idade Média, é
claro, resultava em mais ferimentos que levavam à morte, aumentando em certo grau a
taxa de homicídios.
A lei criminal medieval era rudimentar mas em evolução. Suas idiossincrasias e seu
desenvolvimento tiveram um grande impacto na catalogação e no tratamento, e por
conseqüência nos números registrados, dos assassinatos. A Coroa assumiu jurisdição
sobre todos os homicídios no século doze sob o raciocínio de que um assassinato não
atinge somente a vítima, mas também o rei, cuja paz é quebrada. Havia um motivo mais
escuso também, já que a lei requeria o confisco dos objetos associados à morte de um
homem. Se fosse confirmado que o acusado agiu em defesa própria ele era perdoado.[
25 ] Ao trazer os crimes mais sérios para debaixo das cortes reais estas tinham sua
autoridade fortalecida. O envolvimento real