Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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resultou na melhor preservação dos
registros e num desenvolvimento legal mais uniforme. Ainda assim, a jurisdição,
mesmo para os crimes mais sérios, era ainda um tanto turva devido à tradição do
\u201cbenefício do clero\u201d, que isentava o clero da autoridade das cortes seculares. Este
privilégio acabou sendo estendido a todos aqueles conectados à igreja e mais tarde a
todos os \u201cescriturários\u201d, definidos como pessoas que sabiam ler. A maior punição que
um membro do clero poderia receber, mesmo se matasse com um tiro um assaltante
que lhe desse um soco, era de um ano de prisão mais a marcação do \u201cmúsculo do
polegar.\u201d[ 26 ] Este privilégio bastante comum foi acertadamente repudiado e
gradualmente limitado até que, após 1512, não houvesse mais nenhuma exceção para a
pena completa por assassinato premeditado. Mas, na Idade Média, o benefício do clero
significou que algumas pessoas acusadas de crimes sérios e até mesmo de homicídio não
chegaram às mãos das cortes seculares.
As definições legais, mesmo as de homicídio, se alteraram no decorrer do tempo e
tiveram assim um impacto sobre a taxa de criminalidade. Escrevendo no século
dezessete, Sir Edward Coke explicou que a lei comum dividia as mortes violentas em
três tipos: assassinato, homicídio voluntário e homicídio involuntário. Ele definiu
assassinato como \u201cmatar ilegalmente uma criatura sensata, que vive sob a Paz do Rei,
com malícia premeditada expressa ou implícita, sendo a morte ocorrida dentro de um
ano e um dia.\u201d[ 27 ] Mas este não foi sempre o entendimento sobre o assunto. Antes
de 1400 o termo assassinato parecia ter sido usado somente para mortes secretas ou
acobertadas nas quais o assassino era desconhecido. Demorou para que assassinato
viesse a significar uma morte \u201cmaliciosa, premeditada ou deliberada\u201d.[ 28 ] O
\u201chomicídio\u201d de Coke \u2013 homicídio voluntário \u2013 consistia no assassinato intencional mas
sem a premeditação maliciosa. A distinção crucial entre assassinato e homicídio
voluntário era um problema para as cortes medievais e foi gradualmente esclarecida por
diversos estatutos. \u201cHomicídio involuntário\u201d, a terceira categoria de Coke, envolvia
alguém que \u201cmatasse casualmente, e por desventura, sem o desejo que traz o dolo ao
ato.\u201d Ele incluía tanto as mortes acidentais como os casos de defesa própria durante
uma briga, um tumulto ou uma discussão.[ 29 ] Em casos de morte acidental a corte
considerava se o ato causador da morte era em si mesmo legal e apropriado.
Assassinatos cometidos por alguém que estivesse cometendo um delito, mesmo os não
intencionais, eram considerados merecedores do tratamento mais severo e eram
tratados como premeditados. Em seu texto sobre a história das leis Inglesas, George
Crabb usou o seguinte exemplo de tal tipo de assassinato: um homem que desejava
roubar um veado atirou no mesmo e acabou matando uma pessoa. Como o ato era
ilegal em si, a morte seria julgada como assassinato ou como homicídio voluntário.[ 30
]
As mortes que causavam as maiores divergências durante a Idade Média, e que
produziram os padrões da lei comum, tão mal compreendidos atualmente, eram as
mortes por defesa própria. A defesa própria foi há muito tempo reconhecida como não
somente uma, mas como a \u201clei primária da natureza\u201d. Sobre isso Blackstone explicou: \u201ca
lei respeita as paixões da mente humana; e [...] torna legal à pessoa fazer por si mesma a
justiça imediata, para a qual seja requerida pela natureza e cujos motivos prudenciais
não sejam fortes o suficiente para refreá-la. Ela considera que o processo futuro da lei é
de forma alguma um remédio adequado para ferimentos acompanhados por força.\u201d[ 31
]
Era uma política pública sensata a permissão de tal defesa. Blackstone achava que
era \u201cimpossível dizer a que dimensão arbitrária os ultrajes cruéis desta feita poderiam
ser levados à cabo, a não ser que fosse permitido a um homem se opor à violência de
outro.\u201d De acordo com isso, ele insistia, o direito à defesa própria não poderia ser
tirado pelas leis da sociedade. Ainda que a lei tivesse de ter certeza que aquele que
matou foi obrigado a fazê-lo para se proteger de um dano grave, dano que nenhuma
ação legal futura poderia possivelmente reparar. Portanto, cercou-se a defesa própria
com regras para assegurar, como Blackstone se apressou em adicionar, \u201cque a
resistência não exceda os limites da mera defesa e prevenção; caso contrário o defensor
se tornaria ele mesmo o agressor.\u201d[ 32 ]
Padrões distintos de comportamento foram necessários para circunstâncias
distintas. Em uma alegação de defesa própria quando um homicídio acontecia durante
uma briga, \u201ccom o sangue quente\u201d, o réu tinha que provar que havia fugido tanto
quanto possível, ou \u201caté que desse com as costas na parede\u201d, antes de se utilizar de uma
força mortal.[ 33 ] Esta regra tinha a intenção clara de reduzir as chances de que uma
briga se tornasse um confronto mortal. Em um caso de 1369, em Newgate, um capelão
alegou que teve que matar em defesa própria. Os jurados explicaram que o homem que
havia sido morto havia perseguido o capelão com um bastão e o havia atingido, e que o
capelão revidou a agressão e matou seu atacante. O júri foi cuidadoso ao adicionar que
o assassino, \u201cse assim desejasse\u201d, poderia ter fugido. Eles sentiram claramente que esse
não era um caso válido de defesa própria. A justiça acabou condenando o capelão como
culpado, já que \u201cele tinha a possibilidade de fugir para tão longe quanto pudesse com
segurança.\u201d[ 34 ]
Hoje alguns acreditam que essa insistência, da necessidade de fugir em tais casos,
era o único comportamento que a lei comum permitia. Mas a lei comum reconhecia
muitas instâncias nas quais um indivíduo poderia usar uma força letal legitimamente,
sem a necessidade de fugir, e essas circunstâncias foram expandidas com o tempo. Por
exemplo, mortes ocorridas quando um homem estava atuando como pacificador, ou
defendendo a si mesmo, sua família e sua propriedade, eram classificadas como
justificáveis ou como desculpáveis.[ 35 ] Homicídio justificável, o primeiro desses,
cobria uma variedade de circunstâncias nas quais o homicídio era julgado como sem
culpa, ou mesmo como um ato valoroso. Matar alguém que estava a cometer um crime
era considerado justificável.[ 36 ] Esta leniência foi imperativa já que a Coroa esperava
que um sujeito comum arcasse com uma ampla variedade de tarefas de manutenção da
paz.[ 37 ] Estas incluíam fazer turnos para vigiar a cidade ou vila durante a noite, ou
montar guarda durante o dia; levantar um \u201cclamor público\u201d quando um crime sério
houvesse sido cometido; e, se necessário, acompanhar o policial local ou o xerife na
perseguição do culpado \u201cde cidade a cidade, e de condado a condado\u201d sob \u201cpena de uma
multa grave.\u201d[ 38 ] Os homens eram também obrigados a se juntar ao pelotão do
xerife para ajudar a debandar tumultos. Muitas vezes essas obrigações perigosas
ameaçavam a vida do pacificador ou obrigavam-no a usar força letal na captura de um
suspeito. Ao tomar uma vida nessas condições, o indivíduo estava ajudando a combater
o crime. Na verdade, poder-se-ia argumentar que, ao defender a si mesmo de um delito,
ele não estava apenas se salvando de um dano grave mas também prevenindo um crime.
Um caso de 1221 combina ambos os elementos. Howel \u201co Marcador\u201d, descrito nos
registros como um ladrão errante, e seus homens assaltaram um carreteiro. O
carreteiro resistiu e matou Howel, defendeu-se contra o resto da gangue e depois
fugiu. O condado de Worcestershire decidiu que, por Howel ser um ladrão, o
carreteiro, cuja fuga o havia levado a Jerusalém na ocasião da decisão judicial, estava
\u201clivre dali adiante\u201d, e o convidou a \u201cretornar em segurança, livre daquela morte.\u201d[ 39 ]
Um caso semelhante ocorrido no mesmo ano, Rex vs. Leonin e Jacob, envolveu a morte de
um larápio. Leonin e seu servo Jacob mataram John de Middleton na floresta real de
Kinfare. Os jurados acharam que \u201cno momento da batalha\u201d John veio com muitos