Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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outros para a floresta do rei para \u201cpraticar ofensas na floresta, como era de seu hábito.\u201d
Ele foi descoberto pelos servos do rei e por habitantes da floresta com uma carcaça
inteira de uma corça, mas se defendeu. Durante o processo ele \u201ccortou fora um dedo de
um local e por isso foi morto.\u201d Leonin e Jacob foram julgados \u201clivres disso.\u201d[ 40 ] O
fato de que tais casos surgissem ilustra o quão cuidadosas eram as cortes mesmo em
casos de homicídio cometido durante a tentativa de impedir delitos. Green explica que
uns dois séculos depois desses casos, o homicídio justificável foi ampliado para remover
qualquer dúvida de que fosse algo feito para abrigar assassinos de bandidos pegos em
atos de assalto, incêndio criminoso ou roubo.[ 41 ]
A expectativa de que cidadãos comuns devem ajudar a manter a paz, e a
generosidade da lei em permitir que usem força letal, se necessário, para tal objetivo se
tornou mais clara com o passar do tempo. E da mesma forma, a opinião de que alguém
atacado por um criminoso não teria necessidade de fugir antes de recorrer ao uso da
força letal. Ambos os conceitos foram unidos pela tarefa do indivíduo de prevenir um
crime. Olhando para trás, a partir de uma posição avantajada, no final do século
dezoito, Blackstone descobriu que \u201cum princípio uniforme\u201d permeava a lei Inglesa \u201ce
todas as outras leis\u201d: \u201conde um crime, sendo ele capital, é levado à tentativa através da
força, é legítimo que se rechace esta força através da morte da parte criminosa.\u201d[ 42 ]
Um século depois A. V. Dicey escreveu que, para um avanço da justiça pública,
todo homem está legalmente justificado, e está freqüentemente
obrigado, a usar a força. Por isso um cidadão leal pode interferir legalmente
para colocar um fim a uma quebra da paz que acontecer em sua presença, e
usar tanta força quanto for razoavelmente necessária para esse propósito.
Por isso, também, qualquer pessoa privada que esteja presente quando
algum delito for cometido, está obrigada por lei a prender o criminoso, sob
pena de multa e prisão caso sua atitude negligente permitir a fuga do
mesmo.[ 43 ]
Mais à frente Dicey argumenta que a teoria do direito a infligir dano corporal
grave ou morte a um malfeitor não foi originada na necessidade de manter a paz do rei,
mas na defesa própria, no \u201cdireito de todo indivíduo leal de usar os meios necessários
para evitar perigos graves à vida ou a um membro do corpo, e interferências sérias à sua
liberdade pessoal.\u201d[ 44 ] A explicação de Sir Michael Foster também conecta uma
defesa própria assertiva com o dever de manter a paz: \u201cOnde há a tentativa de um crime
conhecido contra uma pessoa, seja por roubo ou assassinato, a parte violentada pode
repelir a força com força, e mesmo o servo que esteja a seu serviço, ou qualquer outra
pessoa presente, pode intervir para evitar prejuízos; e se a morte acontecer, esta
intervenção será justificada.\u201d[ 45 ] Embora a defesa própria letal não fosse permitida
durante uma briga se o assassino conseguisse fugir com segurança, a pretensa vítima do
delito não era obrigada a recuar. Na verdade, se o criminoso fugisse ou tivesse ferido
alguém gravemente, era dever \u201cde cada homem usar de seus maiores esforços para
prevenir uma fuga.\u201d E se, durante a perseguição, o culpado fosse morto, \u201ccaso ele não
puder ser alcançado de outra forma, isto será considerado um homicídio justificado. Pois a
perseguição não é apenas justificável; é o que a lei requer, a qual punirá a negligência
intencional da mesma.\u201d[ 46 ] Este princípio foi especialmente crítico na prevenção do
crime na era anterior à polícia profissional.[ 47 ]
As obrigações com a manutenção da paz se estendiam para além da vila e mesmo do
país. Homens com idade entre dezesseis e sessenta estavam obrigados ao serviço
soberano nas milícias de cidadãos. A milícia era uma força de defesa encarregada de
proteger o reino contra invasões e de suprimir tumultos e desordens locais. Com a
exceção dos primeiros anos do reinado Normando, os reis ingleses optaram por confiar
armas a seus súditos para que eles pudessem participar da milícia e equipá-la. Por volta
de 1252 não apenas os homens livres mas também os servos feudais, e mesmo
camponeses que não eram livres foram logo incluídos. \u201cO estado em suas exigências,\u201d
escreveu F. W. Maitland, \u201cpresta pouca atenção à linha entre liberdade e escravidão, e
espera que todos os homens, não apenas os livres, tenham armas.\u201d[ 48 ] Esta obrigação
da milícia medieval persistiu durante o início da era moderna, embora neste último
período os grupos seletos de homens, bandos especialmente treinados, eram os mais
freqüentemente chamados em emergências.
Apesar dessas obrigações perigosas, qualquer um que matasse um criminoso em
defesa própria, de sua família, ou de sua propriedade teria que ir perante a corte para
pedir pelo perdão real. Mortes acidentais ou justificáveis podem nunca ter pretendido
atrair a pena de morte, mas o remédio repousa na graça do rei. A garantia de um
perdão real em tais casos já havia se tornado pro forma em 1278, mas a incerteza
permaneceu no que diz respeito à defesa da família de alguém, e somente em 1532 o
Parlamento tornou os perdões desnecessários em casos nos quais pessoas fossem
mortas durante tentativas de cometer roubo ou assassinato nas redondezas ou nas
estradas, ou nas \u201cmansões.\u201d[ 49 ]
Enquanto o homicídio justificável envolvia ajudar a manter a ordem pública, o
homicídio perdoável incluía o homicídio acidental, mortes causadas por loucos, e
aquelas cometidas em defesa própria durante uma briga, ou passionais. Esta última
categoria, os assassinatos cometidos \u201ccom o sangue quente\u201d, era o mais controverso,
não somente por conta das circunstâncias discutíveis mas por causa das diferenças sobre
o que constituía a defesa própria legítima. A opinião legal estava freqüentemente em
lados opostos aos valores da comunidade e, de certa forma, continua assim.
O estudo fascinante de Thomas Green sobre os júris medievais revelou a tendência
dos jurados em recusar a condenação de indigentes por roubo, e de cidadãos
respeitadores da lei por um ato não premeditado de violência. Os jurados tinham o
poder de mostrar misericórdia através do uso hábil de seu dever de determinar os fatos.
De acordo com Green, \u201ca discrição do júri era mais comum em casos de homicídios
repentinos, não planejados, e em roubos que não incluíssem violência física ou invasão
domiciliar. Nesses casos [...] os jurados manipulavam freqüentemente o processo de
levantamento dos fatos para evitar a imposição da pena capital.\u201d[ 50 ] A insistência da
lei na pena de morte para o crime de roubo, a categoria mais comum de crime medieval,
parecia muito severa para a comunidade, e os jurados simplesmente se recusavam a
condenar. Como resultado, de dois terços a três quartos dos acusados de roubo eram
eventualmente inocentados.[ 51 ]
Em casos de homicídios repentinos e não planejados e discrição do júri \u201crefletia
uma oposição não somente ao nível da sanção, a pena de morte, mas também às regras
da lei substantiva mesma.\u201d Seu papel de descobridores de fatos tornava seu poder de
determinar o destino dos réus absoluto. Como dito anteriormente, a lei insistia que
um homem que fosse atacado durante uma briga recuasse até que não fosse mais
possível, até que suas costas estivessem contra a parede, para somente depois fazer uso
da força. \u201cNo julgamento,\u201d descobriu Green, \u201cos jurados sempre alegavam tal
predicamento, e ainda que algumas vezes fosse verdadeiro, uma comparação entre os
registros do médico legista e os do julgamento mostram que freqüentemente não era, e
que um júri insignificante havia alterado os fatos para tornar perdoável o que a lei
considerava imperdoável.\u201d Resumindo, a comunidade achava que um homem que fosse
atacado deveria poder enfrentar seu atacante e usar da força para se defender, ainda que
não estivesse sob perigo de perder sua vida. Além disso, a penalidade rigorosa prescrita