Violencia e Armas   Joyce Lee Malcolm
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Violencia e Armas Joyce Lee Malcolm


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\u2013 a sentença de morte \u2013 algumas vezes induzia os jurados a considerar os réus como
inocentes, ou culpados de um crime menor. Pegue o caso de um homicídio de 1363 em
Norfolk. O relatório do legista explicava: \u201cWilliam colocou sua mão sobre a faca para
sacá-la e atingir Robert. Robert, com medo de que William quisesse matá-lo, atingiu a
cabeça do mesmo em defesa própria.\u201d[ 52 ] Apesar do fato de que William
aparentemente não chegou a sacar sua faca, o júri considerou que Robert o matou em
defesa própria. Green descobriu que tanto antes como depois de 1390 os júris
condenavam apenas 20 por cento de todos os réus de homicídio.[ 53 ] Depois de 1390
as condenações eram obtidas principalmente em casos de assassinato premeditado.[ 54
] As descobertas de Green o convenceram de que durante a Idade Média \u201cas
condenações por júri era grandemente limitadas aos homicídios mais dolosos. Réus que
haviam cometido homicídios mais simples, de certa forma correspondentes às
categorias modernas de homicídio voluntário e homicídio involuntário, recebiam
absolvições ou eram considerados como casos de uso de força letal em defesa própria.\u201d[
55 ] O resultado, é claro, era o de minimizar o número de assassinatos que realmente
aconteciam.
Os historiadores descobriram não somente como se lidava com os homicídios, mas
Os historiadores descobriram não somente como se lidava com os homicídios, mas
como e onde eram cometidos. Um estudo sobre os homicídios no século treze
descobriu que a maioria dos assassinatos, algo em torno de 67,9 por cento, pareciam
envolver um cúmplice e que a maioria dos assassinos eram homens. Apenas 8,6 por
cento dos acusados eram mulheres, ainda que fossem responsáveis por 19,5 por cento
das vítimas. Sobre a posição social dos assassinos, poucos registros do século treze
mostram violência direta entre nobres. Pode ser devido aos nobres contratarem alguém
para cometer um assassinato ou porque raramente eram levados a julgamento. Não
obstante, J. B. Given, o autor desse estudo, foi persuadido de que os nobres Ingleses
eram uma \u201cclasse dominante geralmente não violenta,\u201d ao menos em contraste com os
nobres do Continente.[ 56 ] Quanto à arma escolhida, Barbara Hanawalt descobriu
que o arco e flecha, uma arma que os homens eram obrigados a possuir, era
\u201csurpreendentemente impopular\u201d em homicídios medievais.[ 57 ] O arco parecia ser
uma arma tentadora, já que podia matar a uma certa distância, e ao contrário de seu
sucessor, a arma de fogo, era silencioso. Mas tanto Janawalt como Given descobriram
que a maioria dos homicídios acontecia durante uma discussão ou uma briga e que o
arco, uma arma de emboscada, raramente aparecia nesses casos. As evidências dos tipos
de armas usadas no século treze são escassas, mas Given informa que para 455 dos
2.434 assassinatos para os quais uma arma foi listada, 29,9 por cento envolviam facas,
seguidas de perto por bastões e machadinhas, com pedras e forquilhas bem atrás.[ 58 ]
A pesquisa de Hanawalt descobriu que as armas mais comuns nos assassinatos da Idade
Média, responsáveis por algo em torno de 73 por cento das mortes, eram as armas
brancas.[ 59 ] Destas, facas causavam 42 por cento das mortes. Elas eram seguidas,
com 27 por cento, por outro artigo freqüentemente carregado, a lança curta. As armas
usadas em mortes ocorridos no calor do momento eram freqüentemente itens
próximos às mãos \u2013 ferramentas, pedras e bastões, ou simplesmente as mãos e os pés.
Nós sabemos agora não somente como os homens medievais eram mortos mas
também onde. Given descobriu uma taxa de homicídios maior na área rural do que nas
áreas urbanas.[ 60 ] Hanawalt descobriu que aproximadamente um terço dos
homicídios rurais ocorriam dentro de uma casa, enquanto que apenas um quarto dos
homicídios urbanos ocorriam em áreas internas.[ 61 ] A maioria dos assassinatos
acontecia no domingo.[ 62 ] Contrário à premissa de que o consumo de álcool tinha
um papel importante, as brigas em tavernas apareciam em apenas 7 por cento dos
assassinatos medievais. Os roubos contribuíam com quase todas as mortes ocorridas
nas matas e com uma parte das ocorridas em estradas, embora uma grande parte das
vítimas fatais em roubos fossem mortas dentro de casa, com mulheres e crianças
formando um número desproporcional de vítimas. A maioria de tais vítimas eram
camponeses.[ 63 ] Mesmo assim, Given descobriu que menos de 10 por cento dos
homicídios eram cometidos durante um assalto. Na verdade a proporção verdadeira
pode ser até menor se, como ele sugeriu, esta estatística mascarasse alguns suicídios.[
64 ] Nesses casos os jurados podem ter desejado proteger a família do falecido, já que a
lei daquela época punia o suicídio com o confisco dos bens imóveis da pessoa pelo rei.
Por mais que os registros mostrassem alta a taxa de homicídios na Idade Média,
ela era com certeza muito mais alta ainda, pois a leniência popular para com a defesa
própria e a definição legal muito ampla de homicídio justificável minimizavam as
condenações.
Guerra, escassez e a taxa de assassinatos
Homens impulsivos e policiamento ad hoc tiveram um papel preponderante na alta
taxa de crimes violentos durante a Idade Média, mas fatores como a guerra e o
suprimento de comida podem também ter afetado a taxa de criminalidade. Há visões
diferentes sobre a influência das guerras. Muitos observadores do século quatorze
acreditavam que as guerras, mesmo as ocorridas no exterior, causavam um aumento nos
crimes, com mais violência no interior do país. A guerra dentro de casa certamente
tinha esse efeito. Quando um exército real estava em Yorkshire lutando contra os
Escoceses houve um aumento nos crimes violentos, embora neste caso incursões
Escocesas podem bem ter rompido o sistema judicial.[ 65 ] Mas os soldados são
freqüentemente acusados de crimes contra civis, e a desordem causada pela guerra
provavelmente encorajava indivíduos sem lei a agir de forma mais acintosa.
Historiadores modernos dizem geralmente que guerras no exterior diminuem as taxas
de violência doméstica porque muitos encrenqueiros acabam saindo do reino nesse
período. Soldados em retorno, por sua vez, geralmente aumentam os níveis de violência.
Estranhamente, durante a Guerra dos Cem Anos parece ter ocorrido o contrário. A
criminalidade era na verdade mais alta durante 1342-1347, quando o exército real se
encontrava na França.[ 66 ] Não houve aumento nos crimes durante as tréguas, quando
os veteranos podiam retornar à Inglaterra. Contemporâneos culpam a rapidez do rei
em perdoar criminosos que concordassem em se juntar a seu exército pelo grande
número de homicídios na Inglaterra. Além da guerra havia a agitação política durante o
mesmo período, mas Hanawalt achou poucas evidências de que os números da
criminalidade tivessem sido afetados por isso.[ 67 ]
Uma outra causa possível para a violência daqueles dias até hoje é a dureza
econômica. Economistas e historiadores têm testado essa hipótese através da
comparação de padrões de criminalidade com dados sobre colheitas afetadas e anos de
escassez. Para a primeira metade do século quatorze, quando uma grande parcela da
população fez pressão por suprimentos de comida, parece haver uma correlação entre
períodos de escassez e taxas mais altas de criminalidade.[ 68 ] Tanto a guerra como o
declínio econômico, especialmente a falta de comida, tiveram um impacto nos crimes
violentos da era anterior às armas de fogo, ainda que de uma forma não tão direta como
se pudesse esperar.
A Inglaterra medieval era tempestuosa e violenta, mais do que os arquivos das
A Inglaterra medieval era tempestuosa e violenta, mais do que os arquivos das
cortes revelam. Muitos crimes que seriam contados como homicídio eram perdoados
como casos de defesa própria ou de homicídio justificável, e muitos roubos não eram
registrados ou seus autores eram absolvidos. A maioria dos homicídios eram
impulsivos, \u201cno calor do momento\u201d ou em defesa própria,