EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho   CLT comentada
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EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho CLT comentada


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o uso 
de um único método ou de vários deles em conjunto é 
admitido e mesmo útil. 
Surgiu, no universo jurídico, em data recente, a 
opinião de que a ideologia é imprescindível na inter- 
pretação das leis, de modo geral. Pela ideologia, é feita 
a valoração que leva à fixação dos objetivos da ação 
do homem dentro da sociedade. Segundo essa corren- 
te, na interpretação, há de se levar em conta a aponta- 
da valoração predominante num dado momento social, 
o que importa dizer ter ela de modificar-se à medida 
que se transforma o contexto social. Por outras pala- 
vras, não se vai buscar o significado da norma na von- 
tade histórica do legislador, mas do intérprete no ins- 
tante em que se pretende aplicar a lei a uma situação 
concreta. 
Para Kelsen (\u2015Teoria General del Derecho y del 
Estado\u2016, pág. 140 e segs.), o intérprete extrai da norma 
legal as várias decisões que ela comporta e escolhe 
uma delas. Assim, a interpretação não equivale a uma 
atividade puramente intelectual, mas a um ato de von- 
tade. Na raiz desse ato de vontade estão múltiplas in- 
fluências, que não podem ser desconhecidas. Aceita- 
mos o pensamento kelseniano. 
O Direito do Trabalho desgarrou-se do corpo do 
Direito Civil, o que explica o fato de, até hoje, perce- 
ber-se, em sua interpretação, métodos usados na fon- 
te original. Contudo, pensamos estar ele sujeito às re- 
gras comuns da hermenêutica. Não apresenta peculia- 
ridades que justifiquem ou inspirem princípios próprios 
para o trabalho interpretativo de suas normas. 
Fazemos companhia a Giorgio Ardau na crítica 
ao princípio \u2015in dubio pro misero\u2016. O intérprete da lei 
deve socorrer-se de todas as normas e princípios que 
lhe per mitem aplicá-la à situação concreta de forma 
condizente com a justiça, sem levar em conta a condi- 
ção social das partes interessadas. No Direito do Tra- 
balho, o intérprete dará maior ou menor ênfase a este 
ou àquele princípio, a fim de atender às circunstâncias 
de que se revestiu o conflito de interesses entre o as- 
salariado e seu empregador. 
 
10) As relações individuais de trabalho, sujeitas 
à Consolidação das Leis do Trabalho, são relações ju- 
rídicas que nascem de um contrato de trabalho e cujos 
sujeitos \u2014 empregado e empregador \u2014 são definidos 
nos ar ts. 2º e 3º, da Consolidação. 
Diz De La Cueva que relação de trabalho é \u2015o 
conjunto de direitos e obrigações derivados da presta- 
ção de um serviço pessoal\u2016 (\u2015Derecho Mexicano del 
Trabajo\u2016, tomo 1, pág. 475). 
É mais ou menos o que diz Cotrim Netto: \u2015Ao 
conjunto de atos executivos do contrato de emprego e 
originadores de direitos nitidamente patrimoniais é que 
se pode denominar relação de emprego\u2016 (\u2015Contrato e 
Relação de Emprego\u2016, pág. 26). Esse autor faz sutil dis- 
tinção entre relação de trabalho e relação de emprego. 
Afirma que Deveali e outros erigem a relação de traba- 
lho em instituto novo para tomar o lugar do contrato de 
trabalho, uma vez que entendem inexistir, no vínculo tra- 
balhista, qualquer semelhança com ato contratual. Para 
eles, o que existe é engajamento. 
Se na doutrina não se procura diferenciar a rela- 
ção de trabalho da relação de emprego, acreditamos 
que o nosso legislador quis dar à primeira um significa- 
do mais amplo que o da segunda. No art. 1º, da Conso- 
lidação, fala-se de relação individual do trabalho e, no 
art. 442, se diz que o contrato de trabalho corresponde 
à relação de emprego. No art. 1º a relação individual de 
trabalho abrange a relação de emprego e a relação que 
deriva do contrato de empreitada a que alude o art. 652, 
da CLT. A diferença entre ambos os conceitos, em nos- 
so sistema legal, é para atender a algo que lhe é pecu- 
liar. Não tem maior importância na doutrina. Resumin- 
do \u2014 a relação de trabalho é o núcleo das obrigações 
derivadas do contrato individual de trabalho. 
 
11) Direito coletivo do trabalho é o complexo de 
normas jurídicas que regula as atividades dos sindica- 
tos, os pactos e os conflitos coletivos. É a parte do Di- 
reito do Trabalho que considera o grupo profissional, 
organizado ou não em sindicato, travando relações com 
um ou vários empregadores. No direito coletivo do tra- 
balho, do lado patronal, é possível que o sujeito de uma 
relação jurídica seja um único patrão, ao passo que, no 
que tange ao operário, jamais é ele encarado indivi- 
dualmente. 
Esta Consolidação disciplina a maioria das rela- 
ções coletivas de trabalho. Na legislação extravagante 
sobre o assunto, destacam-se as Leis n. 7.783, de 28 
de junho de 1989, que regula o exercício do direito de 
greve e as de política salarial e n. 8.036, de 11.5.90, 
que tem por objeto o FGTS. 
A bem da verdade, queremos destacar a crença, 
em que estamos, de que as normas legais referentes à 
política salarial se caracterizam por sua fluidez quando 
a economia é assolada por inflação de taxa elevada. 
Em nosso País, o quadro da economia já se mostra 
mais estável e, por isso, as normas legais atinentes ao 
salário tendem a ter vida mais longa. 
 
12) O princípio \u2015pro operario\u2016 está vinculado às 
origens do Direito do Trabalho moderno, pois um e ou- 
tro têm, como principal força-motriz, o desejo de pre- 
servar o equilíbrio nas relações entre o Capital e o Tra- 
balho. Sobrepuja o dogma do liberalismo de que são 
iguais as partes participantes de um contrato de traba- 
lho. É apenas formal essa igualdade; a desigualdade 
econômica é inescusável. A desigualdade econômica, 
mais do que a igualdade jurídica, influencia, de modo 
intenso, a conduta do empregado na celebração do 
contrato de trabalho. 
 
13) No Direito do Trabalho vigora, como não po- 
deria ser diferente, o princípio da irretroatividade das 
leis. Dimana esse princípio de regra constitucional e é 
uma constante ao longo da história do Direito pátrio. 
Aplica-se às relações de trabalho de forma mitigada. 
Não é o contrato de trabalho de execução instantânea; 
cumpre-se em prestações sucessivas, as quais podem 
ser afetadas pela lei nova. É a retroatividade de grau 
mínimo de que falam Bayon-Perez Botija (\u2015Manual de 
Derecho del Trabajo\u2016, vol. I, págs. 221-222). Colin- 
Capitant põem-se de acordo com essa doutrina quando 
ensinam que toda lei nova deve ser, presumidamente, 
melhor do que a antiga e, por isso, os efeitos de situa- 
ção jurídica anterior geralmente, se submetem às dispo- 
sições da lei nova (\u2015Droit Civil Français\u2016, vol. I, pág. 55). 
 26 INTRODUÇÃO \u2014 Art. 1º CLT 
14) V. Lei n. 6.657, de 5 de junho de 1979, decla- 
rando ser abuso de autoridade o atentado aos direitos 
e garantias assegurados ao exercício profissional. 
 
15) Dividem-se as fontes do direito em materiais 
e formais. Aquelas compreendem os fatos sociais que 
contribuem para a matéria do direito; estas, são as for- 
mas pelas quais se estabelece a regra jurídica. A fonte 
formal pressupõe uma estrutura de poder que garanta 
o respeito às normas dela emanadas. Há autores que 
se recusam a examinar a fonte material do direito por 
tratar-se de questão estranha ao mundo jurídico, inse- 
rindo-se a um só tempo nos campos da filosofia e da 
sociologia. 
Com Miguel Reale, definimos a fonte de direito 
formal como \u2015os processos ou meios em vir tude dos 
quais as regras jurídicas se positivam com legítima for- 
ça obrigatória, isto é, com vigência e eficácia\u2016 (\u2015Lições 
Preliminares de Direito\u2016, 1973, Ed. Bushatsky, pág. 164). 
Repetimos, como ponto relevante que é desta nota, que 
toda fonte de direito pressupõe um centro de poder 
capaz de dar validade e eficácia às normas jurídicas. 
Esta asser tiva não exclui a tese de que há mais de 
uma ordem jurídica na sociedade, pois nem todo o di- 
reito é legislado, como se verifica, sobretudo, no Direi- 
to do Trabalho. 
 
Vejamos as várias fontes do Direito do Trabalho: 
 
A) É a Constituição a mais importante das fontes