EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho   CLT comentada
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EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho CLT comentada


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inquérito para 
apuração de um furto de mercadorias atribuído a um 
empregado que é, também, dirigente sindical. Julgada 
improcedente a respectiva ação para extinção do con- 
trato de trabalho do investigado, tem este o direito de 
reivindicar, em juízo, indenização do dano moral sofrido. 
Não há que falar em dano moral na hipótese de o 
empregador dispensar o empregado sem justa causa, 
pagando-lhe as verbas indenizatórias previstas em lei. \u2015In 
casu\u2016, o procedimento do empresário se alicerça na lei. 
 50 INTRODUÇÃO \u2014 Art. 8º CLT 
1.1.6) Do abuso de direito 
Tem o art. 187 do CC/03, sem correspondente 
no CC de 1916, a seguinte redação: 
\u2015Também comete ato ilícito o titular de um direito 
que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites 
impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa- 
fé ou pelos bons costumes.\u2016 
O exercício de um direito, desde que seja relativo, 
reconhecido e protegido pela lei, comporta limitações. 
Desatendidos seu fins sociais ou positivado o pre- 
juízo a terceiro, pode configurar-se o abuso de direito, 
chamado de \u2015ato de emulação\u2016 no direito medieval. 
Desnecessário dizer que um abuso de direito é 
imputável ao empregador que exercita direitos contra o 
assalariado, sem os condicionamentos sociais. 
\u2014 V. nossa nota 9.1 ao artigo 2º 
 
2) V. art. 126, do CPC: \u2015O juiz não se exime de 
sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuri- 
dade da lei. No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar 
as normas legais; não as havendo, recorrerá à analo- 
gia, aos costumes e aos princípios gerais de Direito\u2016. 
 
3) O artigo em epígrafe encerra norma que tanto 
se aplica à parte desta Consolidação reservada ao di- 
reito material como a outra, dedicada ao direito proces- 
sual do trabalho. Observe-se, por oportuno, que a CLT é 
mais ousada do que o Código de Processo Civil (CPC) 
no preenchimento dos vazios da lei. Este, no art. 127, 
estabelece que o juiz só decidirá por eqüidade nos ca- 
sos previstos em lei (arts. 1.075 e 1.109 do CPC). A CLT 
dá ao juiz a mesma faculdade, mas sem essa restrição. 
Antes de aplicar a lei, é necessário interpretá-la 
e integrá-la. Temos, assim, os três momentos do pro- 
cesso de preenchimento das lacunas da lei ou de inte- 
gração do direito. 
Ensina Enneccerus (\u2015Tratado de Derecho Civil\u2016, 
vol. I, parte geral, trad. espanhola da 39ª ed. alemã, 
Bosch Editora, 1947, pág. 215 e segs.) que toda ques- 
tão de direito emergente da vida pede ao juiz uma so- 
lução e que são em quatro sentidos as lacunas que o 
Direito, estruturado na lei, ou no costume, sempre apre- 
senta. Semelhante asser tiva, como é óbvio, inclui o 
Direito do Trabalho. No primeiro sentido, a lei dá ao juiz 
uma orientação geral, indicando-lhe, expressa ou taci- 
tamente, fatos, conceitos e critérios não determinados 
em suas disposições especiais, cabendo ao juiz investi- 
gar, em cada caso concreto. Assim, o aplicador da lei 
atua como as pessoas honradas e de boa-fé agiriam 
diante do caso concreto. No segundo sentido, é a norma 
completamente omissa e o problema não se achava bem 
preparado para a solução ou porque a questão não foi 
suscitada até o surgimento da norma ou, finalmente, 
porque a solução não fora prevista (v., também, \u2015O Di- 
reito e a Vida dos Direitos\u2016, de Vicente Ráo, 1º vol., págs. 
600-601). No terceiro sentido, as normas legais se con- 
tradizem e, por isso, tornam-se reciprocamente inefica- 
zes. No quarto e último sentido, a inaplicabilidade da 
norma resulta da constatação de ela apreender casos 
ou conseqüências que o legislador não teria conside- 
rado se deles tivesse exato conhecimento. 
Nos casos ou hipóteses de que Enneccerus fa- 
lou, o juiz ou o intér prete devem pesquisar a norma 
que dê solução ao problema, norma que, em razão dis- 
to, será integrativa do direito ou mesmo modificativa 
(no quar to sentido). 
A lei \u2014 repetimos \u2014 que resulte de processo 
elaborativo o mais aperfeiçoado possível sempre será 
lacunosa quando invocada para solucionar casos con- 
cretos. A lei trabalhista \u2014 como não podia deixar de 
ser \u2014 acusa lacunas e seu intérprete tem de recorrer à 
interpretação e à integração. 
O ar tigo sob estudo traça as diretrizes de ação 
das autoridades administrativas e judiciárias do traba- 
lho em face das lacunas da lei trabalhista. Indica os re- 
cursos admitidos para dar remédio a tal situação: juris- 
prudência, analogia, eqüidade, princípios gerais de di- 
reito, usos e costumes, direito comparado e, finalmente, 
o Direito Comum como fonte subsidiária do Direito do 
Trabalho. A ordem observada no artigo em epígrafe não 
revela, de forma alguma, a maior ou menor importância 
daqueles recursos. Não significa, outrossim, que o intér- 
prete e o aplicador da lei devam socorrer-se, em primei- 
ro lugar, da jurisprudência, porque figura na cabeça da 
lista e, depois, da analogia, e assim por diante. Em face 
de cada situação concreta, este ou aquele instituto ou 
processo será considerado o mais adequado. 
 
4) A jurisprudência pode ser invocada como \u2015jus 
novum\u2016, quando se forma através de sucessivas e uni- 
formes decisões sobre o mesmo assunto. Para os ro- 
manos, era autêntica fonte de direito: \u2015auctoritas rerum 
perpetuo similiter judicatarum\u2016. Diz-se que é a jurispru- 
dência um \u2015jus novum\u2016 porque a iteração das decisões 
dos tribunais se converte num direito costumeiro, num 
direito novo. Não incorremos no exagero de afirmar que 
a jurisprudência é sempre uma fonte de direito. Ela pode 
sê-lo, quando a lei for lacunosa. Como forma de ex- 
pressão do Direito, não foi lembrada em nosso Código 
Civil de 1916 e nem no de 2003, como o foi pela CLT. 
 
5) \u2015Analogia \u2014 operação lógica pela qual se apli- 
ca, à espécie não prevista pela lei, a norma jurídica 
semelhante\u2016 (Pedro Nunes, \u2015Dicionário de Tecnologia 
Jurídica\u2016, pág. 78). 
Há duas formas de analogia: analogia jurídica ou 
\u2015analogia juris\u2016 e analogia legal ou \u2015analogia legis\u2016. A \u2015ana- 
logia juris\u2016 serve para resolver o caso que não foi previsto 
por qualquer preceito legal, forçando o aplicador a recor- 
rer ao espírito do sistema, na sua totalidade ou aos prin- 
cípios gerais do Direito. A \u2015analogia legis\u2016 diz respeito à 
falta de um artigo de lei e, aí, se invoca o preceito que 
disciplina caso semelhante. Confrontando-se as duas 
espécies de analogia, observa-se, de pronto, que a omis- 
são da lei é solucionada pela \u2015analogia juris\u2016, mediante a 
aplicação de um princípio teórico, ao passo que a \u2015analo- 
gia legis\u2016 importa o uso de um texto legal. 
 
6) Decidir por eqüidade é suprir imperfeição da 
lei ou torná-la mais branda e amoldá-la à realidade 
polimorfa. É a eqüidade útil à hermenêutica e à aplica- 
ção do Direito. Supre lacunas da lei e concorre para a 
interpretação do texto legal. 
Continuam atuais as palavras de Aristóteles, 
definindo a eqüidade: \u2015A mitigação da lei escrita por 
circunstâncias que ocorrem em relação às pessoas, às 
cousas, ao lugar ou aos tempos\u2016. 
Decidindo eqüitativamente, o juiz procura dar, ao 
texto frio da lei, certo calor humano. Não lhe é permiti- 
do, porém, decidir \u2015contra legem\u2016. \u2015Dura lex sed lex\u2016 
não quer dizer que a lei deva ser sempre dura. O que 
ela objetiva, intrinsecamente, não é ser dura, mas so- 
bretudo justa. Estamos com Santo Tomás quando diz 
que a eqüidade é melhor que certa justiça (\u2015Summa 
Theologica\u2016, 11ª Ilae. Quest CXX, ed. de Alexandre 
Correia, 1937). A \u2015epieikcia\u2016 (eqüidade, em grego) com- 
plementa a lei \u2014 repetimos \u2014 quando lacunosa, mas 
em nosso ordenamento jurídico não se admite que ela 
vá contra a própria lei. 
 CLT INTRODUÇÃO \u2014 Art. 8º 51 
7) Os princípios gerais do Direito são as idéias 
fundamentais e informadoras da ordem jurídica. Verda- 
deiras sínteses doutrinárias de um número \u2014 mais ou 
menos elevado \u2014 de regras de Direito são o resultado 
de generalizações,