EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho   CLT comentada
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EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho CLT comentada


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e, depois, verifica-se ser irre- 
mediavelmente incapaz de cumprir o ajustado com o 
empregador. Na hipótese, não vemos por que a empre- 
sa deva cumprir até o seu termo o contrato de experiên- 
cia. Provado o erro essencial, a rescisão prematura do 
contrato de trabalho não deve obrigar a empresa ao pa- 
gamento de qualquer reparação pecuniária. Este racio- 
cínio é aplicável aos contratos de técnicos (mesmo es- 
trangeiros) por tempo determinado ou indeterminado. De 
qualquer modo, é importante verificar previamente se a 
situação concreta é enquadrável no ar t. 140, do CC: \u2015O 
falso motivo só vicia a declaração de vontade quando 
expresso como razão determinante\u2016. Já foi visto que o 
ato jurídico é anulável por dolo, quando for sua causa. 
Por outras palavras, a anulabilidade só se caracteriza, 
na espécie, quando demonstrado ficar que, inexistindo 
o dolo, o ato não teria sido praticado. Há o dolo aciden- 
tal, aquele que não impediria a prática do ato. 
O Código Civil de 2003, ar t. 139, III, prevê uma 
terceira hipótese de erro substancial, que poderá inva- 
lidar o negócio jurídico, qual seja, quando, o erro, sen- 
do de direito e não implicando recusa à aplicação da 
lei, for o motivo único ou principal do negócio jurídico. 
Esse tipo de erro de direito não era previsto no Código 
Civil de 1916. Sinteticamente, pode-se dizer que erro 
de direito é relativo (1) à ignorância da norma, mas que 
não seja de ordem pública; e (2) à interpretação errô- 
nea. De qualquer modo, para induzir anulação do ato, 
necessário que o erro de direito tenha sido a razão única 
ou principal, ao determinar a vontade (conf. Washing- 
ton de Barros Monteiro, ob.cit., pg.224/225, ed. 2003). 
O ar t. 143 do Código Civil de 2003 prevê que o 
erro de cálculo apenas autoriza a retificação da decla- 
ração da vontade. Não prova ele sua nulidade. Apenas 
haverá a retificação da manifestação da vontade. As- 
sim, se o empregador admite, em erro de cálculo, que 
as comissões do empregado são de 100 reais, quando, 
na verdade, são de 50 reais, isso não significa que é 
nula a cláusula contratual que prevê o salário em co- 
missão na base de uma certa percentagem. Nesse caso, 
a cláusula permanece íntegra e os cálculos são refei- 
tos. Por igual, de acordo com o ar t. 144, o erro não 
prejudica a validade do negócio jurídico, quando a pes- 
soa, a quem a manifestação de vontade se dirige, se 
oferecer para executá-la na conformidade da vontade 
real do manifestante. Na forma desse dispositivo, o novo 
Código permite, portanto, que o negócio jurídico seja 
validado, ainda que fruto de erro, mas desde que res- 
peitada a real vontade do manifestante. 
Existe omissão dolosa, quando uma das partes 
oculta fato ou qualidade que, conhecido pela outra par- 
te, o ato não se teria concluído. 
Ganha relevância a regra do ar t. 150 , do Código 
Civil de 2003: \u2015Se ambas as par tes procederam com 
dolo, nenhuma pode alegá-lo, para anular o negócio, 
ou reclamar indenização\u2016. Em resumo, o dolo não cons- 
titui vício de vontade. É malícia, ardil ou engano para 
induzir em erro. 
O Código Civil não se refere à coação física (\u2015vis 
absoluta\u2016) no ar t. 171, já citado, pois, na hipótese, é 
eliminada completamente a vontade da pessoa, o que 
resulta em circunstância impeditiva da formação do ato 
jurídico. 
Causa de anulabilidade do ato jurídico é a coa- 
ção moral (\u2015vis compulsiva\u2016). Nela, a vontade não é 
completamente eliminada, como sucede no caso da 
violência física; a vítima tem relativa liberdade. É exem- 
plo disso submeter-se o empregado a condições desu- 
manas de trabalho, porque o empregador o ameaçou 
de divulgar fato em que se envolveu no passado, e que 
pode colocá-lo em posição embaraçosa na sociedade, 
é uma espécie de coação moral. 
Da leitura do ar t. 151, do Código Civil de 2003, 
pode-se dizer que são cinco os requisitos para que a 
coação se delineie como vício do consentimento: a) 
deve incutir ao paciente um temor justificado; b) deve 
ser a causa determinante do ato; c) esse temor deve 
dizer respeito a dano iminente; d) esse dano deve ser 
considerável; e, finalmente, e) deve o dano referir-se à 
pessoa do paciente à sua família, ou a seus bens. 
Anteriormente optar pelo Fundo de Garantia do 
Tempo de Serviço, sob pena de não ser admitido a ser- 
viço da empresa, não deixava de ser uma forma de 
coação. Depende o empregado do trabalho para prover 
sua subsistência e a de seus familiares. Essa exigên- 
cia do empregador ganha corpo se, na época, o de- 
semprego for uma realidade. Sabemos que o fato tem 
sido levado aos tribunais para obter-se a anulação da 
opção pelo FGTS, mas os empregados não têm levado 
a melhor. A prova da coação, no caso, é extremamente 
difícil e, por isso, conclui-se que a empresa exerce um 
direito e fá-lo de forma não abusiva. 
 58 INTRODUÇÃO \u2014 Art. 9º CLT 
No art. 156, do Código Civil de 2003, foi criada 
uma nova figura de vício de consentimento, que é o 
\u2015estado de perigo\u2016. Caracterizado este, é inválido o 
negócio jurídico: \u2015Configura-se o estado de perigo quan- 
do alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou a 
pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela 
outra parte, assume obrigação excessivamente onero- 
sa\u2016. Já o parágrafo único desse dispositivo, deixa as- 
sentado que, tratando-se de pessoa não per tencente à 
família do declarante, o juiz decidirá segundo as cir- 
cunstâncias\u2016. São requisitos para configuração do es- 
tado de perigo: a) o agente, ou pessoa de sua família, 
encontra-se prestes a sofrer grave dano; b) o dano deve 
ser imediato e grave; c) o dano provém de terceiro ou 
da outra parte, que dele tem conhecimento; d) o dano é 
mais oneroso que a obrigação assumida; e) esta é ex- 
cessivamente onerosa, e disso a vítima tem conheci- 
mento. Eduardo Espínola, em seu Manual do Código 
Civil Brasileiro, pg. 396/397, vol. III, cita o exemplo de 
uma pessoa que, prestes a se afogar, promete toda sua 
fortuna a quem o salve de morte iminente. 
O ar t. 157, do Código Civil de 2003, estabelece 
uma outra nova figura de vício de consentimento, que é 
a \u2015lesão\u2016. Ocorre ela \u2015quando a pessoa, sob premente 
necessidade, ou por inexperiência se obriga a presta- 
ção manifestamente desproporcional ao valor da pres- 
tação oposta. Observe-se que no estado de perigo o 
declarante tem a necessidade de salvar a si próprio ou 
outra pessoa próxima. Já na lesão o agente realiza o ato 
com a necessidade de obter uma vantagem. Os requisi- 
tos da lesão são, portanto, os seguintes: a) a pessoa 
esteja pressionada por necessidade ou seja inexperiente 
e b) obrigar-se a prestar obrigação manifestamente des- 
proporcional ao valor da contraprestação. 
Pela simulação, procura-se dar a aparência de 
um ato jurídico que jamais existiu. É, no dizer de Clóvis 
Bevilacqua, \u2015declaração enganosa da vontade visando 
produzir efeito diverso do ostensivamente indicado\u2016. A 
simulação é o único vício de consentimento que resul- 
ta da bilaterabilidade das vontades. Dela participam o 
empregado e o empregador, com intenções diversas. 
O primeiro sabe que está violando normas desta Con- 
solidação, ao consentir que sua prestação de trabalho 
subordinado se apresente com uma outra máscara, 
como a do autônomo, por exemplo; o empregador não 
só busca prejudicar o empregado, como também a ter- 
ceiros que, no caso, são a Previdência Social e o Fun- 
do de Garantia. Tendo em vista o princípio geral que 
afasta a torpeza do mundo jurídico, tendo havido intui- 
to de prejudicar terceiros, ou infringir preceito de lei, 
nada poderão alegar, ou requerer os contraentes em 
juízo quanto à simulação do ato, em litígio de um con- 
tra o outro, ou contra terceiros. Esse preceito aplica- 
se à simulação, de modo geral. Mas, no Direito do Tra- 
balho, a norma tem de ser encarada com muita reser- 
va.