EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho   CLT comentada
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EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho CLT comentada


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Se se tratar de caso de simulação em que é patente 
o temor do empregado de não obter serviço se não 
aceitar a proposta do empregador de disfarçar o con- 
trato de trabalho sob a roupagem de outra classe de 
contrato, pode-se enquadrar o caso em uma nulidade. 
Em contrapartida, é possível que se argumente 
contra nossa tese com a invocação do art. 167, do Có- 
digo Civil de 2003: \u2015é nulo o negócio jurídico simulado, 
mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na 
substância e na forma\u2016. O argumento é inconsistente. 
Se o empregado não aceitar a simulação imposta pela 
empresa, deixa de trabalhar, única forma de que dis- 
põe para sobreviver. E o direito à vida não perde, em 
importância, para qualquer outro direito. 
Uma obser vação final acerca das nulidades dos 
negócios jurídicos travados entre empregados e em- 
pregadores. 
Se o ato viciado teve em mira desvir tuar, impedir 
ou fraudar a aplicação dos preceitos da CLT, deixa de 
ser anulável para tornar-se nulo. 
 
5) De tudo que dissemos nesta nota, os atos 
nulos não produzem qualquer efeito jurídico quando 
objetivam desvir tuar, impedir ou fraudar a aplicação de 
disposições desta Consolidação. Os atos anuláveis 
existem no âmbito do Direito do Trabalho, cujos vícios 
e objetivos nada tenham a ver com o que se diz no 
artigo em epígrafe. Esses atos anuláveis ficam subor- 
dinados às prescrições do Código Civil que, \u2015in casu\u2016, 
é subsidiário da CLT. 
O ar tigo sob estudo, em tom imperativo, declara 
nulos de pleno direito os atos jurídicos praticados com 
o objetivo de desvir tuar, impedir ou fraudar a aplicação 
dos preceitos contidos na Consolidação. Tais fatos não 
são anuláveis, mas nulos de pleno direito e, portanto, 
não geram qualquer efeito. 
 
6) Tanto faz que o ato praticado ostente todos os 
requisitos legais para sua validade ou licitude, se a real 
intenção do agente é a de conseguir os resultados que 
o artigo em epígrafe relaciona. 
O exercício abusivo de um direito pode, sem dú- 
vida alguma, desvirtuar ou impedir a aplicação de uma 
das disposições consolidadas. Aí, o ato é como se não 
existisse. A fraude à lei, na maioria das vezes, tem em 
mira causar prejuízos ao trabalhador. A realidade, po- 
rém, tem relevado que ele também é acusado da práti- 
ca de atos em fraude à lei, mas em escala bem menor. 
Não há como confundir a fraude à lei com viola- 
ção da lei. Na primeira, é a lei objetivamente cumprida, 
mas com desrespeito ao seu espírito e às suas finali- 
dades sociais; na segunda, é objetivo o desrespeito à 
lei. A fraude mais comum deriva de ato unilateral do 
empregador para impedir que o empregado seja prote- 
gido pela CLT. 
 
7) O artigo sob comentário repor ta-se às nulida- 
des na esfera do direito material do trabalho, enquanto 
o ar t. 795 cuida das nulidades no processo trabalhista. 
 
8) A organização hospitalar do nosso País apre- 
senta peculiaridades que a legislação do trabalho ain- 
da não acolheu. Em razão isso, há administradores de 
hospitais que usam de todos os recursos para diminuir 
os encargos oriundos da correta aplicação das leis tra- 
balhistas. Um dos ar tifícios mais em voga para dissi- 
mular a relação de emprego com os médicos é o de 
compeli-los a constituir uma cooperativa de trabalho e, 
depois, contratar com esta a prestação de serviços de 
certos profissionais. Se o médico trabalha sob as mes- 
mas condições, se está sujeito a cer tas exigências de 
horário para atendimento da clientela, e se tem de cum- 
prir outras prescrições da administração do hospital, 
tudo isso em troca de salário, não resta dúvida ser ele 
empregado protegido pela CLT. 
As considerações acima expendidas se aplicam 
às cooperativas de trabalho. Se o cooperado, em cará- 
ter permanente, presta serviços à empresa com subor- 
dinação e mediante salário, nasce a relação emprega- 
tícia. 
Se o hospital não tiver fins lucrativos, poderá uti- 
lizar a Lei n. 9.608, de 18.2.98, que regula o trabalho 
voluntário não remunerado. 
 
9) Ninguém ignora que, depois da instituição do 
FGTS, é muito freqüente o empregado \u2014 a braços com 
problemas financeiros \u2014 pedir a seu empregador que 
 CLT INTRODUÇÃO \u2014 Art. 9º 59 
o dispense, sem cumprimento do aviso prévio, a fim de 
lhe possibilitar o levantamento dos valores existentes 
em sua conta vinculada. Logo depois, é o empregado 
readmitido, mediante a devolução dos 40% que rece- 
bera a título de indenização. Semelhante prática impe- 
de que a Lei n. 8.036/90, atinja plenamente todas as 
suas finalidades sociais. O ato jurídico correspondente 
à rescisão do contrato de trabalho é nulo se, na read- 
missão, tem o empregado o salário reduzido. 
 
 
10) O direito do trabalho é integrado de muitas 
normas imperativas que se sobrepõem aos atos de 
vontade. 
 
 
11) V. parágrafo único do ar t. 333, do CPC: \u2015É 
nula a convenção que distribui de maneira diversa o 
ônus da prova quando: I \u2014 recair sobre direito indispo- 
nível da parte; II \u2014 tornar excessivamente difícil a uma 
parte o exercício do direito\u2016. V., ainda, arts. 145, 151 e 
167, parágrafo 1º do Código Civil de 2003. 
 
 
12) Através da renúncia e da transação é que, 
mais comumente, se procura impedir a observância das 
normas cogentes do Direito do Trabalho e, assim, cau- 
sar dano ao empregado. 
Antes de pôr em foco aqueles institutos jurídicos, 
queremos tecer ligeiras considerações em torno de nor- 
mas imperativas do Direito do Trabalho que cerceiam a 
autonomia da vontade com indisfarçáveis reflexos na 
prática daqueles atos jurídicos. Essas regras ora são 
proibitivas (como o são algumas delas, por exemplo, em 
relação ao trabalho da mulher ou do menor) ou restriti- 
vas, porque fixam limites à atuação das partes que têm 
de ficar aquém ou além deles, conforme a natureza da 
relação jurídica. Aqui fica o nosso reconhecimento da 
existência de normas dispositivas do nosso Direito do 
Trabalho e que não precisam ser consideradas quando 
da realização dos atos sob análise. 
Vejamos o que seja a renúncia. É um ato unilate- 
ral do empregado (ou do empregador) desistindo de um 
direito que a lei lhe assegura. Para ter validade esse 
ato não deve referir-se a direito do empregado que re- 
sulte de norma legal cogente, portanto inderrogável, 
ou que derive de sentença normativa ou de cláusula 
indisponível de pacto coletivo. A renúncia tem como 
pressuposto a cer teza do direito a que ela se dirige. 
Pode ser expressa ou tácita. Quaisquer dessas formas 
de expressão da renúncia são aceitas \u2014 em relação 
ao empregado \u2014 apenas no que tange aos seus direi- 
tos não tutelados por normas cogentes. Sua inativida- 
de, porém, ante um ato arbitrário de seu empregador, 
não corresponde à figura da renúncia tácita, mas é uma 
conduta geradora de prescrição. 
A transação é o ato pelo qual as par tes procu- 
ram dar fim a obrigações litigiosas ou duvidosas, medi- 
ante concessões recíprocas. É sempre um ato bilate- 
ral. Não se distingue da renúncia apenas sob este as- 
pecto. Na renúncia, além da unilateralidade do ato, exis- 
te como pressuposto a certeza do direito que se aban- 
dona ou que não se quer exercitar. Na transação, o pres- 
suposto é a incer teza do direito disputado pelas par- 
tes. A transação perante o Juiz do Trabalho é admitida 
ainda que tenha por objeto direito protegido por regra 
de ordem pública. No caso, não se pode presumir que 
houve violação de qualquer preceito consolidado ou que 
o trabalhador sofreu qualquer coação para transacionar 
seu direito. 
A Lei n. 9.958, de 12.1.00, que criou as Comis- 
sões de Conciliação Prévia, classificou, o termo de 
conciliação por elas emitido, como título executivo ex- 
trajudicial. Desnecessário frisar que esse termo pres- 
cinde de homologação judicial (v. comentário aos arts. 
625-A e seguintes). 
 
12.1) A Transação e