EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho   CLT comentada
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EDUARDO GABRIEL SAAD 0 Direito do Trabalho CLT comentada


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elemento caracterizador é a circuns- 
tância de ser útil a esse terceiro, que se chama empre- 
gador. Completa-se com um outro: a alienação do re- 
sultado do trabalho. O executor do trabalho não retém 
o resultado de seus esforços; fica ele em poder de quem 
lhe paga salário. 
 
No nosso direito material do trabalho, há ficções 
que dilatam o campo de incidência de suas nor mas, 
ficções que, em par te, serão apreciadas nos comen- 
tários ao ar t. 2º, desta Consolidação. Ninguém nega 
que muitas das cláusulas de um contrato de traba- 
lho são ditadas pelo empregador, mas também nin- 
guém ignora que, na celebração desse mesmo con- 
trato, o empregado impõe, com muita freqüência, 
condições que a empresa aceita. De qualquer modo, 
o contrato nasce de um acordo de vontades. Numa 
organização sócio-econômica do estilo da nossa, o 
empregado não é obrigado a curvar-se inteiramente 
às pretensões do empregador. 
 
2) Fala-se, de há muito, na necessidade de o 
nosso País ter o seu Código do Trabalho. Há quem se 
oponha a semelhante tese afirmando que a vetusta 
Consolidação das Leis do Trabalho vem cumprindo, 
satisfatoriamente, seu papel, na arena em que se de- 
senvolvem as relações de trabalho. As discussões em 
torno do assunto não têm qualquer semelhança com a 
discussão em que se envolveram Savigny e Thibaut. 
Empenhados no renascimento do Direito alemão, que 
mal escondia seu desejo de liber tar-se da influência do 
Código Civil dos franceses, por lembrar-lhes as lutas com 
Napoleão, ambos não eram contrários à codificação do 
 22 INTRODUÇÃO \u2014 Art. 1º CLT 
Direito de sua pátria. Savigny aspirava por um Código 
para toda a Alemanha, em prazo relativamente curto, 
utilizando-se de três elementos: o Direito Romano, o 
Direito germânico e as modificações por eles sofridas 
com o decorrer do tempo. Thibaut entendia que essa 
Codificação exigia tempo assaz longo. A divergência 
residia na questão de tempo indispensável à elabora- 
ção de um código. 
Está, ainda, de pé, a indagação sobre a oportu- 
nidade, ou não, de o Brasil ter o seu Código do Traba- 
lho. Diante desse problema, opinamos no sentido de 
que se deve deixar passar mais algum tempo até que o 
País ultrapasse, de uma vez por todas, o estágio do 
subdesenvolvimento econômico. Hoje, as mudanças 
que se operam, em grande escala, na economia nacio- 
nal, não deixam de refletir-se nas instituições políticas 
e nas estruturas sociais. De conseqüência, em lapso 
de tempo relativamente cur to, muitas leis se tornam 
inadequadas ao fim a que se destinam e outras novas 
têm de surgir, para que o processo desenvolvimentista 
não seja perturbado. 
De cer to modo, estamos com Felipe Sanchez 
Román (\u2015Estudios de Derecho Civil\u2016, Madrid, tomo I, 
pág. 527 e segs., 2ª ed.), quando informa que a evolu- 
ção que conduz a uma codificação passa por três mo- 
mentos distintos: I \u2014 o sistema consuetudinário ou 
costume, forma pela qual o direito nasce da consciên- 
cia social; II \u2014 consolidação ou recopilação, envolven- 
do apenas a idéia de reunir o que está disperso, sem 
lhe alterar a forma ou essência e, finalmente, III \u2014 
refundição \u2014 é o passo mais próximo da codificação 
porque reúne a legislação preexistente, de maneira a 
fazer surgir uma unidade interna, eliminando eventuais 
divergências entre suas disposições. Em doutrina é 
pacificamente reconhecido que, nem sempre, os três 
estágios de Sanchez Román precisam ser observados. 
O direito saxão é a prova disso. 
Nossa Consolidação \u2014 na ótica do mestre es- 
panhol \u2014 é mais uma refundição do que, propriamen- 
te, uma recopilação. Ela não apenas reuniu o que esta- 
va disperso, como suprimiu preceitos e introduziu ou- 
tros novos. Além disso, é inegável que a nossa CLT 
tem uma certa unidade interna. 
 
Finalmente, há uma circunstância que aconse- 
lha um cer to compasso de espera no processo de for- 
mação do Código do Trabalho. Trata-se do desigual de- 
senvolvimento social e econômico das várias regiões 
do País e que guardam entre si diferenças mais pro- 
fundas que entre dois países do continente europeu. 
Fazendo-se abstração das exigências e pressupostos 
da nossa organização político-administrativa, diríamos 
que certas relações individuais e coletivas do trabalho 
deveriam ser regidas por normas distintas no nor te e 
no sul do País. Se codificar é formar um corpo de leis 
metódico e sistemático; se método implica um cami- 
nho que leva ao fim visado; se sistema entranha uma 
idéia e um princípio de ordenação e de unidade, con- 
venhamos que não é esta a época propícia à codificação 
do nosso Direito do Trabalho. 
Desde já, porém, queremos tomar posição no que 
tange à estrutura de uma Consolidação das Leis do Tra- 
balho (dado que serve para o futuro Código). Não nos 
parece conveniente reunir, num mesmo diploma legal, 
as normas materiais ou substantivas e as adjetivas ou 
processuais. Evaristo de Moraes Filho e Russomano 
definiram-se a favor da divisão dessas normas. O pri- 
meiro, no seu Projeto de Código do Trabalho, deixou de 
lado o processo do trabalho; o segundo chegou a escre- 
ver um excelente projeto de Código do Processo do Tra- 
balho. É uma pena que nossos legisladores não tenham, 
até hoje, aproveitado \u2014 ainda que parcialmente \u2014 o que 
se contém naqueles projetos. 
 
3) Sobem a mais de cem as teorias da divisão 
do Direito em Público e Privado. Desde Ulpiano \u2014 com 
a sua teoria dos interesses protegidos (Direito Público 
é o que se refere ao Estado romano e, Privado, o rela- 
tivo ao interesse dos indivíduos), os juristas defendem 
as posições mais variadas diante dessa dicotomia do 
Direito. Em face da controvérsia sem fim, chegam al- 
guns, com Kelsen à frente, a afirmar que o Direito é um 
só, pois pro vém sempre da mesma fonte . Esse 
unitarismo, ou monismo jurídico, ganha adeptos à me- 
dida que o tempo passa, tanto mais que o Estado Mo- 
derno, crescendo em força, impulsiona o Direito Públi- 
co para o interior dos domínios do Direito Privado. Há 
autores que preconizam, para futuro próximo, a com- 
pleta absorção do Direito Privado pelo Público. É evi- 
dente o exagero. 
Seguindo o magistério de Ruggiero, que não nega 
a bipartição do Direito, entendemos que o Direito do 
Trabalho é uma das par tes do Direito Privado. Segundo 
aquele emérito jurista italiano, \u2015Público é o Direito que 
tem por finalidade as relações do Estado com outro 
Estado ou as do Estado com seus súditos, quando pro- 
cede em razão do poder soberano e atua na tutela do 
bem coletivo; Direito Privado é o que disciplina as rela- 
ções entre pessoas singulares, nas quais predomina 
imediatamente o interesse particular\u2016 (apud Caio Mário 
da Silva Pereira, \u2015Instituições de Direito Civil\u2016, vol. 1, 
pág. 26, 1ª ed., 1961). 
Entendemos que o Direito Privado ainda se dis- 
tingue do Direito Público pelo fato de possuir mais nor- 
mas dispositivas que imperativas, ao passo que, no 
segundo, ocorre o inverso. O Direito do Trabalho possui 
muitas normas cogentes, mas nele sempre se trata do 
direito imediato do trabalhador. Nele sobressai o con- 
trato de trabalho que, invariavelmente, nasce de um 
acordo de vontades. O empregado não adere a um con- 
trato; aceita um pacto que convém aos seus interesses 
e estipula condições (quase sempre por intermédio do 
seu órgão de classe) que não constam de qualquer ato 
editado pelo Estado. A circunstância de sofrer forte in- 
tervenção estatal cria muitos pontos de contato entre 
ele e o Direito Público. Isto, porém, não basta para 
publicizar o Direito do Trabalho, eis que outros ramos 
do Direito Privado, embora tenham também muitos pon- 
tos afins com o Direito Público, não fazem par te deste. 
Não concordamos com a sua classificação como 
um \u2015tertium genus\u2016, como o querem Radbruch, Cesarino 
Jr., Walker Linares, Gaete Berrios e outros mestres. O 
Direito do Trabalho é um