Indígenas do Brasil
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DisciplinaHistória dos Povos Indígenas e Afro-descendentes2.086 materiais9.674 seguidores
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por dente\u201d que você menciona aqui em 
alguns momentos já aconteceu?] Já aconteceu... matar assim outra pessoa, irmão 
daquela outra pessoa, aí o outro mata. Aconteceu isso uma vez\u201d.
Mas há também casos, como o do entrevistado pela pesquisa, que embo-
ra ele seja uma \u201cliderança\u201d reconhecida como tal em nível nacional, prefere 
não se envolver na governabilidade da aldeia. Acha tudo muito complicado, 
prefere atuar em outros espaços sociopolíticos, como na interlocução com o 
Estado brasileiro ou agências apoiadoras fi nanceiras do movimento indígena, 
representando os interesses da sua coletividade de origem e/ou os Kaingang 
como um todo, como povo indígena:
\u201cEu não faço parte dessa liderança. Eu fi z questão de ser mais um indígena 
dentro e respeitar. É muito complicado, talvez a gente tem conhecimento tão 
grande e se a gente querer mudar aquela coisa dentro da comunidade, você não 
sabe como vai acabar isso... Eu prefi ro ter o meu tempo livre para correr atrás 
de política, discutir política, problemas que vem voltado para a terra indígena, 
por isso eu não optei para ser um deles lá dentro. [entrevistador: \u201cVocê fala em 
nome do seu povo externamente?\u201d] Sim, externamente. Falo pelo povo nacio-
nalmente, onde for...\u201d.
A justiça e os direitos dos povos indígenas 41
A pressão e as leis dos brancos
Os resultados da pesquisa realizada pela FPA nos leva a ver que não é possível, 
nem desejável, nas atuais circunstâncias, o Estado afastar-se ou ausentar-se do 
seu papel de proteção e promoção dos direitos assegurados aos povos indíge-
nas no Brasil. Deixar os indivíduos, as famílias e as comunidades indígenas 
no confronto direto com as pessoas e os grupos organizados interessados em 
ocupar os territórios em que habitam e desfrutam, em explorar os recursos na-
turais ali existentes, ou mesmo fazer uso dos seus conhecimentos e capacidade 
de trabalho, seria obviamente deixá-las ainda mais vulneráveis às várias formas 
de violência a que estão sujeitas. Seria também atentar contra os direitos desses 
povos assegurados na Constituição de 1988, como também nos mecanismos 
de direito internacional, como a Convenção 169 da Organização Internacio-
nal do Trabalho (OIT) e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos 
dos Povos Indígenas (2007). Esse diagnóstico fi ca muito claro na leitura do 
conjunto das entrevistas realizadas pela FPA com lideranças indígenas de di-
ferentes povos e regiões do país. Por motivos de espaço, apresento abaixo um 
extrato do universo de depoimentos recolhidos. 
Lá nos Krikati12 (MA), diz a entrevistada, uma mulher, \u201ctem os posseiros 
invadindo, tirando as madeiras. Tem os caçadores, que entram na reserva pra 
caçar. Tem os pescadores, que entra e tem aquelas pessoas que entram, na épo-
ca, pra pegar os frutos nativos, como buriti, juçara, bacuri, pequi. Então, isso 
a gente tem enfrentado muito na nossa reserva, mesmo que ela tá demarcada e 
homologada, mas por causa desta confusão de uma parte estar ocupada ainda 
pelos fazendeiros.\u201d
Os Rikbaktsa13, no Mato Grosso, enfrentam problema semelhante. Per-
guntado sobre se a Terra Indígena demarcada é sufi ciente para atender às ne-
cessidades da comunidade, o entrevistado declara que:
\u201cNo momento ela tá sufi ciente, eu não sei para o futuro. Isso que me preocupa 
também, a população vai crescer, será que a terra vai dar? É uma pergunta difícil 
12 A Terra Indígena Krikati está localizada nos municípios de Montes Altos e Sítio Novo, na 
porção sudoeste do estado do Maranhão.
13 A língua falada pelos Rikbaktsa pertence ao tronco linguístico Macro-Jê.
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de eu falar. [entrevistador: \u201cJá tiveram invasão no seu Território...\u201d] Sim pelos 
fazendeiros, de primeiro foi tudo grilado... A gente morava ali, as quatro cida-
des que a gente frequenta, era tudo área indígena, e tudo lá foi grilado, matou 
muitos índios e aí, logo nos primeiros contatos, mataram muito índio, a gente 
era bastante, e tiraram nós e uma área para outra área e onde é que nós temos 
um pedacinho... De longo tempo, a gente sabia que tinha perdido aquilo, aí co-
meçamos a brigar na justiça e conseguimos a terra Japuíra e mudamos com um 
pouco de pessoal para lá. (\u2026) São terras homologadas demarcadas, mas mesmo 
assim também estão dando trabalho. [entrevistador: \u201cPor quê?\u201d] Porque tem 
muitos invasores, tem muitos grandes fazendeiros lá dentro, mas mesmo assim 
foram demarcadas é criação de gado, posseiros também, tem muita gente lá. [en-
trevistador: \u201cMesmo homologadas?\u201d] Mesmo homologadas. [entrevistador: \u201cE a 
justiça?\u201d] A justiça está muito lenta, não está reconhecendo, que 100% daquilo 
lá é terra indígena, é legítima.\u201d
No caso dos Guarani-Kaiowá (MS), além da falta de terra, a população 
convive rotineiramente com situação de violência e pistolagem. A violência 
da discriminação também está presente na atuação do agente da Justiça, do 
próprio Estado. Conforme foi relatado por uma das lideranças daquele povo, 
\u201cA gente tem confl ito com os fazendeiros, latifundiários, muito problemático. E 
hoje na nossa região tem a segurança do fazendeiro que é um guarda que fi ca lá, 
mas é assim, pistolagem legalizada, ele mata mesmo, sem piedade, a gente morre 
como animal. [entrevistador: \u201cVocê presenciou pessoas conhecidas...\u201d] Tem. In-
clusive em dezembro um pessoal foi ocupar uma fazenda aí, e a gente perdeu dois 
professores, um a gente conseguiu achar o corpo e o outro desapareceu e até hoje. 
Então foi uma barbaridade. E a própria justiça do país não consegue enfrentar 
esse problema. [entrevistador: \u201cJá tiveram índios presos...\u201d] Vários e perseguidos 
tem vários. E assim, quem assassina índio não vai preso e quando a gente luta pelo 
direito da terra, a gente vai preso, eles levam preso.\u201d
Os Karipuna14 (AP) também vivem em semelhante tensão: 
14 Os Karipuna vivem em sua maioria às margens do rio Curipi, afl uente do rio Uaçá, no norte 
do estado do Amapá, área de fronteira do Brasil com a Guiana Francesa.
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\u201cSair dessa área e fi car um pouco mais pra dentro da terra, pra que as crianças não 
sofram com questão de violência, isso porque hoje a gente já sofre com questão de 
invasão, de pessoas querendo caçar na terra e de surpresa chegam à aldeia armadas. 
Tem pessoas que roubam e tentam se esconder dentro da aldeia, e os policiais vão 
de uma maneira um pouco agressiva adentrando as casas, aldeias mesmo e causam 
certo pavor na população. Esse é um dos impactos que esses povos vêm sofrendo. 
(...) Isso é complicado, a gente vive numa área de muito confl ito. Hoje há, não há 
muitos indígena Karipunas fora, mas há uma ligação muito forte com a terra indí-
gena, e os índios estão sempre indo e vindo dentro da aldeia, mas na realidade os 
procuradores da Funai não atuam quando é confl ito fora da terra, e também quan-
do há confl itos individuais. Dizem que é de uma pessoa e ela tem que encontrar 
alguém para fazer a defesa, e eles dizem que podem atuar em casos coletivos e que 
seja de interesse da comunidade indígena. (...) A gente tenta sensibilizá-los, que é 
uma causa toda e no momento a gente não consegue avançar. A gente tá tentando 
montar parceria com outros procuradores para tentar ajudar algumas famílias que 
precisam desse apoio da questão jurídica.\u201d
A falta de política coerente e adequada que coordene a promoção dos di-
reitos indígenas com a sustentabilidade ambiental também emerge como ou-
tra área foco de violências e limitação ao exercício da autodeterminação e a 
autonomia territorial indígena. É o caso da situação vivida pelos Tupaiô (PA), 
como relatado a seguir: 
\u201cPor enquanto os parentes que moram dentro da reserva, a única pressão que nós 
temos lá é com CMBIL, Ibama... que querem fazer um plano de manejo dentro 
das terras indígenas. Plano de manejo, que os indígenas e não-indígenas trabalhem 
com plano de manejo