Indígenas do Brasil
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Indígenas do Brasil


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VERDUM, Ricardo. Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas. Brasília: Instituto de 
Estudos Socioeconômicos, 2008.
O movimento indígena como 
voz de resistência
Marcos Terena
Memória
Não existe qualquer registro sobre as iniciativas indígenas que ocorreram entre 1977 e 1981, quando do surgimento do primeiro movimento in-
dígena no Brasil, a UNIND \u2013 União das Nações Indígenas, formada inicial-
mente por 15 jovens estudantes de sete Nações Indígenas do país.
Porém, a memória histórica ainda vive nesses jovens de outrora cada qual 
com alguma faceta, lembrança ou mesmo papel desempenhado numa época 
onde ainda imperava as determinações do governo militar (1964-1985), prin-
cipalmente dentro do Órgão Ofi cial do Indigenismo, a Fundação Nacional 
do Índio (Funai).
Talvez seja este um dos motivos pelos quais não se tenha escrito sobre esse 
período, estratégia usada pelos líderes do movimento para resguardar algu-
mas iniciativas e, ao mesmo tempo, como forma de afi rmação do direito à 
oralidade nessas articulações. Por outro lado, havia uma grande desconfi ança 
indígena nos chamados aliados \u201cbrancos\u201d, pois que não havia naqueles tempos 
a fi gura das organizações não-governamentais (Ongs), mas sim a existência de 
entidades de apoio como a Comissão Pró-Índio de SP, Rio, Bahia e Paraná, e 
ainda, a força da Igreja Católica através do Conselho Indigenista Missionário 
(CIMI) em Brasília e do Centro de Documentação Indigenista (CEDI) em 
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São Paulo, além da ABA e OAB, entidades específi cas e com perfi l de apoio 
mais amplo, como os direitos humanos.
Por isso em todas as teses mais recentes de estudantes e acadêmicos gra-
duandos, mestrandos ou doutorandos, várias opiniões foram levantadas no 
intuito de dar personalidade a um evento histórico jamais repetido. Nenhuma 
delas consegue contemplar e retratar esses passos indígenas de quem viveu os 
bastidores e as ações. São abordagens que carecem de informações mais pro-
fundas e concretas e devem permanecer assim. Possivelmente é nesse ponto 
que está a decisão de não se contar o que foi o primeiro movimento indígena 
no país. Era um movimento com várias caras, situações e decisões e a socie-
dade envolvente sempre busca nos casos indígenas, em relacionamentos ainda 
que de boa-fé, codifi car e até mesmo normatizar como forma ideal de defi nir 
parâmetros não-indígenas para essa ou aquela situação.
O mito do movimento indígena jamais será decifrado como um processo 
ou caminho altaneiro de brava gente na luta brasileira, sob o risco então de 
se tornar falso, pois quem dele naquele tempo participou, experimentou sim 
a sensação de lutar pelos direitos indígenas sem saber que era parte do que se 
conhece hoje como movimento indígena.
A desconfi ança indígena era parte de uma estratégia de sobrevivência so-
cial, cultural e política, afi nal esse grupo de estudantes indígenas estavam em 
Brasília (DF) inicialmente apenas pelo direito de acessar novos conhecimentos 
através da educação formal do \u201cbranco\u201d não só da fase secundária, como a 
universitária e a partir daí, já profi ssional; demonstrar que as oportunidades 
devem ser aproveitadas e que a educação a partir dessa inserção, se tornaria 
obrigatoriamente, intercultural e bilíngue, gerando por si só um novo relacio-
namento com o Poder Público, e por isso vigiados.
Era uma fase de ser vigiado, mas saber vigiar também com o uso inclu-
sive da língua nativa e dos códigos interculturais para o questionamento do 
modelo indigenista paternalista, com base inclusive no direito existente de 
\u201cproteção\u201d no campo nacional e internacional. É a fase do Índio culto e ao 
mesmo tempo tradicional. 
É importante salientar que a União das Nações Indígenas (UNIND) \u2013 
nome criado por Paulo Miriacuréu Bororo \u2013 não nasceu como movimento e 
nem organização indígena, mas como um grupo de estudantes que fazia inter-
O movimento indígena como voz de resistência 51
câmbios e debates com colégios e universidades em Brasília e cidades próximas 
na Semana do Índio, identifi cado também como uma equipe de futebol.
Ela se transforma em movimento político de resistência quando o governo 
militar percebe nas entrelinhas dos discursos daquela juventude indígena, uma 
ameaça aos dogmas e formas de ação indigenista, já que esse jeito discursivo 
para um público não-indígena carente de liberdades individuais e políticas 
serve de âncora e percussão da voz indígena que exercia na prática, um pouco 
da livre determinação.
Mas é importante destacar com base na desconfi ança, que por outro lado, 
as entidades de apoio não sabiam ainda se valia a pena confi ar nesse \u201cnovo\u201d 
índio e líder de um processo novo. A UNIND tinha a desconfi ança do gover-
no como um movimento gerido pelos comunistas. Muitas entidades de apoio 
acreditavam ser um movimento apoiado pelo governo militar.
Nisso estava uma outra estratégia daquele período: confundir os dois la-
dos. Confundir para saber quem era quem nessa relação. 
Os militares dirigentes da Funai, desnorteados, cometem um dos erros 
mais crassos nesse relacionamento quando ao se sentirem donos dos 15 estu-
dantes, decidem desocupar Brasília dessa juventude. O mais surpreendente é 
que essa iniciativa não nasceu da cabeça militar da Funai, coordenada que era 
por coronéis e militares aposentados sem qualquer cancha no relacionamento 
com a questão indígena. A orientação sob o argumento de \u201cBrasília ser uma 
cidade atípica para o Índio\u201d veio do cérebro do período militar, do Conselho 
de Segurança Nacional do governo brasileiro, através de seu principal mentor, 
o general Golbery do Couto e Silva.
Uma Cópia do Ofício determinando esse procedimento, documento con-
fi dencial, foi entregue aos indígenas jovens, antes de chegar a cópia original do 
Ofício às mãos da Funai. Graças a isso a UNIND teve tempo de se organizar, 
elaborar uma pauta de decisão e manifestação pública junto a Imprensa como 
estratégia de defesa por direitos humanos individuais e estudar regras nacio-
nais e internacionais, como a Convenção 107 de Genebra, para o livre-arbítrio 
de, por exemplo, morar ou estudar em Brasília.
A partir daquele momento de enfrentamento e indisciplina ao poder cons-
tituído, no caso, os militares da Funai, os jovens estudantes tiveram que deci-
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dir como se comportar. Havia o risco da coerção e o risco da manipulação do 
próprio grupo. 
A maioria decidiu enfrentar os coronéis diante da fragilidade de conhe-
cimentos que eles possuíam sobre os Povos Indígenas como um todo, e pela 
total ignorância sobre direitos humanos. 
Assim nasceu o que se pode chamar de primeiro movimento indígena po-
lítico no país. Eram jovens estudantes que souberam manter seus ideais como 
a formação acadêmica e profi ssional, mas que se fortaleciam na cultura de seu 
povo e tinham conhecimento de causa, desarmando todas as propostas do 
poder e até mesmo saber se comportar diante da fragilidade de membros do 
grupo que decidiram, por exemplo, aceitar a oferta de empregos oferecidos, 
caso voltassem para suas áreas de origem.
O Índio descobre que pode falar, discutir e esclarecer seu sonho de vida. 
Descobre que existe na sociedade do homem branco, pessoas e setores aliados 
e solidários.
Um dos fortes aliados na caminhada indígena foi a opinião pública, sempre 
atenta ao direito, justiça e respeito aos valores indígenas diante da discrimina-
ção estatal, social e como povos primeiros do