Indígenas do Brasil
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Indígenas do Brasil


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Brasil, resumida na mensagem: 
\u201cPosso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou!\u201d.
O Brasil Indígena, por meio de um grupo de jovens que vivia em Brasília 
para estudar e compartilhar com a sociedade, envolvente de seus direitos, de-
monstrava que o país não poderia mais tratar a questão indígena como restos 
de povos ou povos sem rumos e carentes do homem branco e seu espírito 
indianista ou humanista. 
Era um grupo de jovens bilíngue e intercultural que sabiam ler, escrever e 
interpretar o contexto nacional e seu papel naquele momento histórico pela 
liberdade democrática do Brasil, sem vínculos partidários ou ideológicos co-
muns ao homem branco.
Era uma raiz de novas associações e organizações indígenas como formas 
de resistência dentro de um modelo de representação para o mundo do bran-
co e que jamais substituirá as autoridades e líderes tradicionais e espirituais, 
comandantes de suas aldeias, comunidades e povos.
A UNIND dos 15 jovens nunca se organizou como entidade civil. Seu 
propósito era apenas somar com as autoridades tradicionais na busca do bem 
O movimento indígena como voz de resistência 53
comum como a demarcação das terras e as iniciativas na defesa de Povos que 
sempre tiveram um interlocutor, um especialista que falava por eles nas rela-
ções interculturais sob o risco dos falsos diálogos ou da manipulação quando 
os interesses estatais se faziam presentes.
É preciso então pensar, considerar e estimular o modo de representação 
indígena na relação com os poderes públicos, pois após 22 anos de negociação 
com a ONU, consta na recente Declaração dos Direitos Indígenas o direito a 
livre determinação. 
Tanto os Povos Indígenas devem aprender a exercitar esse direito, como 
os setores não-indígenas devem aprender a escutar essa voz silenciada que 
ressoa no caso brasileiro, em pelo menos 180 línguas, nos diversos ecossis-
temas existentes.
Pensar o movimento indígena da época e buscar adaptar e ampliar o leque 
de representatividade indígena nos assuntos que afetam povos e comunidades 
tradicionais já não compete só a entidades de apoio, mas ao próprio indígena.
Nos anos 1970 e 1980 saímos com as armas que tínhamos em busca de 
visibilidade aos nossos objetivos de vida, como a demarcação territorial e o 
direito de viver como povos originários.
Em 1988, mesmo sem representação ofi cial, mas com a união de todos, 
líderes indígenas tradicionais, organizações e nossos aliados, conquistamos um 
Capítulo de Direitos na Constituição Federal.
Nos anos 1990 a juventude indígena passa a acessar escolas e universidades 
que se abrem com facilidades de acesso movidas pelo academicismo ocidental 
clássico, pondo em risco os parâmetros e a soberania indígena ao valorizar a 
diplomação unilateral desse cenário, sem considerar o conteúdo étnico e cul-
tural como contrapartida.
O cuidado como recomendação nesse tipo de relacionamento é garantir, 
por exemplo, a incorporação através desse jovem estudante, dos conhecimen-
tos, espiritualidade e fi losofi a indígena nos programas educativos como cons-
trução a um novo conceito acadêmico intercultural com pertinência às regras 
educativas existentes. Se tomamos a Semana dos Povos Indígenas, Encontros 
Indígenas ou cenários diversos, percebe-se uma crescente abordagem e valo-
rização da sabedoria indígena como parte imprescindível de uma sociedade 
que se alimentou no passado de dogmas unilaterais, mas que pode alimentar 
54 Indígenas no Brasil
a partir dessa descoberta, novos relacionamentos de convivência num país 
pluriétnico como o Brasil. 
Agora com a chegada do Novo Milênio, é no cenário internacional junto a 
ONU que os Povos Indígenas passam a levantar sua voz com a Década Indíge-
na e a Declaração de Direitos, além da criação de um Fórum Permanente sobre 
Questões Indígenas, já que não encontra saída para o labirinto que criaram 
diante de contradições políticas, sociais, econômicas, espirituais e ambientais. 
Se em todo processo novo existe o incógnito, talvez o grande desafi o desse 
contexto seja a descoberta da capacidade indígena e a falta de oportunidades 
dignas. A dignidade indígena através de profi ssionais e organizações carece de 
uma relação ética com os poderes constituídos. Não existe uma doutrina nessa 
relação e por isso ela se torna urgente sob o risco de fomentar ainda mais os 
ranços preconceituosos e até mesmo racistas, como o clássico argumento de 
que não existe \u201cconsenso\u201d quando se trata de nomear um indígena executivo 
para gerir a agência estatal indigenista. 
A máquina estatal tem todo direito de se sentir ameaçada por esses fi lhos da 
Terra, afi nal foi em cima de nossas sociedades e com sacrifício físico e cultural 
de muitos é que se formou esse país megadiverso, em cujos territórios se con-
centram a fonte de equilíbrio ambiental e recursos minerais da modernidade. 
Há uma dívida pendente que não admite moratória, já dizia Capistrano 
de Abreu. 
Subterfúgios, como riscos a soberania, não mais se justifi cam. Mais que 
nunca, nós como Povos Indígenas com exemplos positivos somos aliados do 
futuro coletivo para o bem viver de negros, brancos e a Mãe Terra. Não somos 
partes interessadas nesse processo e sim parte principal, pois somos as primei-
ras nações desse continente.
Ao longo dos anos 1980 e 1990 foram nascendo associações e organi-
zações indígenas com perfi s regionais e nacionais. A própria UNIND foi 
transformada em UNI, nascendo dela o Núcleo de Cultura Indígena em São 
Paulo, o Núcleo de Direitos Indígenas em Brasília e o Centro de Estudos 
e Formação Indígena em Goiânia. Na região amazônica a Coordenação 
das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a Federação das 
Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), a UNI \u2013 Acre, a Coordena-
ção dos Povos Indígenas de Rondônia (CONPIR) e a Coordenação Indígena 
O movimento indígena como voz de resistência 55
de Roraima (CIR) entre outras, e mais recentemente as Articulações Indíge-
nas do Nordeste, Pantanal, Sul e Leste, o ITC \u2013 Comitê Intertribal, o Insti-
tuto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual (INBRAPI), além do 
Conselho Nacional da Mulher Indígena (CONAMI) junto com o Grupo 
de Mulheres Indígenas (GRUMIN), totalizando mais de 100 organizações 
indígenas brasileiras. 
O movimento indígena através de organizacionais formais e, principal-
mente, das ações das autoridades indígenas tradicionais são partes importantes 
nas articulações e nas buscas de direitos para o bem comum como a Terra, a 
Cultura e os novos desafi os como o Desenvolvimento, os avanços tecnológicos 
e os argumentos entre pobreza e riqueza. 
Todos esses movimentos e organizações são conhecidas e convidadas para 
debates e negociações, mas nenhuma delas ocupa um assento nas instâncias 
de decisão.
Cabe ao movimento indígena impor-se e exigir uma nova forma de relacio-
namento, inclusive como relação de poder.
O espírito indigenista
Os indígenas têm sido chamados de os \u201cgrandes mudos\u201d da história do Brasil. 
Raros sãos os testemunhos deles próprios que chegam até o mundo contem-
porâneo. A ação colonizadora sobre povos e comunidades apenas salienta uma 
pobre e sumária visão, sempre considerada como \u201cconquista\u201d.
Essa forma sutil de silenciar a voz indígena vem sendo rompida pela pala-
vra de aliados da causa e pelo estímulo de indígenas líderes e eloquentes. Não 
se pode porém, esquecer que alguns desses foram violentamente silenciados 
por assassinatos tendo como exemplo maior, Marçal de Souza Tupa-Í, do Povo 
Guarani em Mato Grosso do Sul. 
O grande dilema indígena é saber como a sociedade envolvente e suas au-
toridades se preparam para ouvir e encarar esse novo encontro. 
O primeiro passo é criar a coragem de prestar ouvidos ao que dizem 
essas vozes. São mensagens sensíveis em relação a valores universais conhe-
cidos como humanismo somados a um