Indígenas do Brasil
264 pág.

Indígenas do Brasil


DisciplinaHistória dos Povos Indígenas e Afro-descendentes2.086 materiais9.675 seguidores
Pré-visualização50 páginas
sentimento de visceral identidade 
com a natureza. 
56 Indígenas no Brasil
O discurso de um velho guerreiro Tupinambá na baía da Guanabara nos 
anos de 1557 exemplifi ca esse falar, pensar e ouvir entre o Povo Indígena e 
o não-Índio: \u201cPor que vinde vós outros de tão longe buscar lenha para vos 
aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Ah... tu me contas maravilhas... 
na verdade vós sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes in-
cômodos. Trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos fi lhos ou para 
aqueles que vos sobrevivem. Não será a terra que vos nutriu sufi ciente para 
alimentá-los também? Temos pais, mães e fi lhos a quem amamos, mas estamos 
certos de que depois de nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá 
e por isso, descansamos sem maiores cuidados\u201d.
É preciso destacar que foram experiências dessa sorte com povos simples 
e despossuídos, a não ser do que há de mais essencial na condição humana \u2013 
o saber e a prática de uma vida social harmônica, igualitária e sem confl itos 
graves, que certamente atraiu o interesse de escritores e fi lósofos como Erasmo 
e Morus, entre outros. Mas esse interesse erudito de humanistas e pensadores 
não impediu que, ao longo da história do Brasil, os indígenas passassem por 
experiências e violências como a escravidão e opressão até o extermínio total.
Com isso, pode-se afi rmar que é responsabilidade permanente e indecli-
nável da nação e do governo brasileiro, garantir a essas sociedades seu direito 
fundamental à vida, liberdade e pleno desenvolvimento de suas potencialida-
des materiais e culturais.
\u201cMorrer se preciso, matar nunca!\u201d, clamou com essa memorável frase um 
descendente do Povo Bororo, marechal do Exército Cândido Mariano da Silva 
Rondon. Militar que se destacou por organizar o avanço do progresso através 
das linhas telegráfi cas, se descobrindo índio e descobrindo povos isolados que 
felizes viviam nos seios das selvas sem qualquer preocupação ou necessidade 
para aquele modelo de vida que ia em direção às terras tradicionais indígenas.
Era um momento raro de despertar e levar a voz indígena para as patentes 
e autoridades superiores do governo brasileiro. 
Assim, em 1910 nasce a primeira agência estatal, o Serviço de Proteção ao 
Índio formado por idealistas e humanistas que se somam no decorrer do tem-
po a pensadores como o antropólogo Darcy Ribeiro, o médico Noel Nutels 
ou desbravadores como Orlando, Leonardo e Cláudio Villas Boas, fazendo 
surgir o mito do indigenismo. Viver, vivenciar e articular a defesa dos Povos 
O movimento indígena como voz de resistência 57
Indígenas contra os avanços do progresso, ainda que promovido pelo mesmo 
sistema estatal. 
É dessas escolas que nasce o despertar da juventude de então, profi ssionais 
liberais ou estudantes para a missão de \u201csalvar\u201d o Índio. Surge de um lado o 
movimento antropológico forte que junta paixão pelo desconhecido, o ci-
dadão da selva e a academia e o meio científi co. Ao mesmo tempo, surge no 
cidadão comum formado em universidades ou de origem humilde e homens 
do campo, a missão de levar ao indígena as ferramentas e a proteção no rela-
cionamento sempre conturbado com o homem branco.
Torna-se importante destacar que a partir desse cenário em evolução, a 
Funai é levada a contratar professoras e enfermeiras principalmente, para a 
missão de assistir as comunidades indígenas no campo da saúde e da educação. 
É o surgimento do espírito indigenista da mulher. 
Nos anos 1970, o movimento indigenista cresce quando diagnosticam 
a situação de abandono que povos indígenas se encontram mesmo nas al-
deias diante da imobilidade, abandono e irresponsabilidade da Funai, como 
a falta da demarcação das terras diante do estímulo governamental na ocu-
pação da Amazônia e os avanços de estradas, cidades e colonos e com isso, o 
confronto com comunidades e povos indígenas que se defendiam como era 
possível, suas terras e famílias, gerando um confl ito e um medo constante 
entre um e outro.
Antropólogos, missionários, jornalistas e indigenistas promovem pela pri-
meira vez uma campanha contra a política governamental de desenvolvimen-
to, apontando como principal culpado os recursos captados junto ao Banco 
Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento para a construção de 
novas estradas, como fi cou evidente com a BR-364, que liga Cuiabá (MT) a 
Rio Branco (AC).
O espírito indigenista viveu seus momentos de glórias e marcaram uma 
etapa importante de assistência emergencial diante das crises, confl itos e iden-
tifi cação étnica, mas sem qualquer programa ou metas governamental de as-
sistência e proteção as famílias indígenas, e com isso agindo pelo imediatismo 
ainda que de forma paternalista, evidenciando mais uma vez a falta de com-
promisso do governo federal por uma política indigenista efi ciente, programá-
tica e com planos de ação concretos. 
58 Indígenas no Brasil
O indigenismo desse período, ainda que heroico, foi sendo esvaziado dian-
te dos avanços de políticas de desenvolvimento e o acesso indígena a novos 
costumes como as bases alimentares e culturais, sendo substituído nos tempos 
atuais por consultores de última hora para respaldar e assessorar projetos de 
ações governamentais e não mais ações de afi rmação ou interesse indígena.
A política indigenista, o Estado brasileiro, o SPI e a Funai
Se queremos falar sobre política indigenista precisamos saber onde estão e 
quem são os Povos Indígenas, costumes, tradições culturais e formas autôno-
mas de desenvolvimentos e visão de vida econômica, social e ambiental dentro 
da complexa visão sobre direitos coletivos e a autodeterminação de cada um.
Uma política indigenista, mesmo com todas as formas legais garantidas, 
não existe sem antes garantir um dos direitos coletivos de cada Povo Indí-
gena, como a demarcação das Terras. É o principal direito dos povos, pois 
é o direito a vida ancestral, tradicional e a garantia do futuro. É o habitat 
original entre espiritualidade e materialidade capaz de preservar tais valores 
e desenvolver instituições sociais, econômicos e políticos inclusive de dizer 
sim ou não na relação com o Estado, sem se separar do Estado. É nesse 
ponto que se nota a fragilidade da estrutura governamental para o trato 
indígena e sua diversidade.
Daí a importância de a juventude indígena, junto com seus líderes e 
autoridades tradicionais, buscar a formação de bons e comprometidos advo-
gados indígenas para a formação do caráter jurídico, legal e moral do direito 
indígena nas academias e instituições, como as instancias jurídicas locais, 
regionais e até as supremas cortes. Uma dicotomia que não se resolve apenas 
com leis e suas interpretações, mas com a educação e a formação indígena 
para essas instâncias. 
A política indigenista não pode ser uma resposta imediata a pressões ou 
demandas indígenas pontuais como o Dia do Índio, Dia do Meio Ambiente, 
bolsas de estudos, nomeação de um assessor sem autonomia e poder de de-
cisão, uma fundação sem poder político, pois são medidas parciais e que não 
correspondem aos direitos humanos mais amplos e está contextualizado a um 
determinado aspecto.
O movimento indígena como voz de resistência 59
Os movimentos indígenas e as lideranças devem evitar esse tipo de arma-
dilha, pois tornam-se responsáveis na medida em que aceitam isso em subs-
tituição a compromissos mais permanentes, programáticos e amplos como 
políticas públicas e de direitos humanos.
Uma política indigenista moderna deve reconhecer a participação indígena 
como fator positivo e não medida aleatória e com base em compromissos e 
responsabilidade de parte a parte, onde os indígenas possam se sentir parte 
histórica de transformação do Estado, capacitação, equidade e informação 
confi áveis e atualizadas.
O Estado brasileiro deve demonstrar sua confi ança na