Indígenas do Brasil
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Indígenas do Brasil


DisciplinaHistória dos Povos Indígenas e Afro-descendentes2.086 materiais9.674 seguidores
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capacidade indígena 
para fomentar a valorização dos conhecimentos tradicionais indígenas e con-
tribuir para uma política indigenista com quadros indígenas com capacidade 
e acesso a novos conhecimentos, como a tecnologia, a academia e a liderança 
e postura de compromisso com os Povos Indígenas e as ações governamentais 
para o bem comum.
Se o movimento indígena, organizações e líderes não conseguirem se trans-
formar nessas relações entre um passado paternalista e os novos desafi os, como 
pode exigir a transformação do Estado?
A base da resistência indígena é feita de acordo com procedimentos an-
cestrais, espirituais, culturais e tradicionais. São códigos também estratégicos 
para todos os níveis de vida, inclusive a morte.
Por isso, ao lermos teses e observações teóricas e formadoras da sociedade 
ocidental e os Povos Indígenas, é fácil perceber que os estudos apresentados 
como fontes de sabedorias acadêmicas sempre foram escritas dentro de uma 
visão unilateral e em determinado tempo de observação e vivencia tribal. 
É tempo de afi rmar que tais estudos com todo caráter científi co e respon-
sabilidade acadêmica, não termina quando se lê a última página, pois há uma 
vida indígena em pauta e dinâmica na sua relação com a sociedade envolvente 
e, principalmente, com as relações estatais. Vejamos:
\u201cArt. 1° \u2013 esta Lei regula a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comuni-
dades indígenas, com o propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progres-
siva e harmoniosamente, à comunhão nacional.
Parágrafo Único \u2013 Aos índios e às comunidades indígenas se estende a proteção 
das leis do País, nos mesmos termos em que se aplicam aos demais brasileiros, 
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resguardados os usos, costumes e tradições indígenas, bem como as condições pe-
culiares reconhecidas nesta Lei. (Lei 6.001 de 19.12.1973 \u2013 Estatuto do Índio)...
\u201cSão reconhecido aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e 
tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, 
competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens...
(Constituição Federal)\u201d
Imaginemos uma aldeia distante dos centros urbanos e o despertar de 
um novo dia. Cada nascer do sol que se contempla representa as lembran-
ças do passado e a necessidade de buscar novos caminhos para os Povos 
Indígenas. São 500 anos de resistência numa relação cercada de erros e 
contradições com o colonizador, mas que signifi cou um aprendizado para a 
carência de um e de outro, distintos cada qual na sua forma de viver, educar 
e sobreviver.
Nessa trajetória o ponto principal e referência indígena são os governos 
e as leis. Nenhum deles vem da cultura e tradição indígena. São modelos 
e regras do conceito e normas públicas e sociais do mundo ocidental, in-
clusive as leis de proteção aos Povos Indígenas e da assistência ao direito e 
desenvolvimento humano dessas famílias. Mas a partir do grito de Rondon 
e de outros como os Indígenas, o poder público se vê diante de um espelho 
que retrata o passado de massacres contra sociedades mães desse país. Esse 
mesmo espelho demonstra que apesar de tudo, há ainda busca de direitos 
reconhecidos mas não praticados ou respeitados, 240 sociedades étnicas e 
180 línguas faladas.
São pendências históricas que se renovam a cada mudança governamental, 
mas que são deixadas em fundos de gavetas como problemas insolúveis e obs-
táculos ao desenvolvimento, ai invés de prioridade de um plano de governo. 
Cidadão indígena e o nosso futuro comum
\u201cArt. 65 \u2013 O Poder Executivo fará, no prazo de cinco anos, a demarcação das terras 
indígenas, ainda não demarcadas. Brasília, 19 de Dezembro de 1973).\u201d
\u201cArt. 67 \u2013 A União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco 
anos a partir da promulgação da Constituição. Brasília 05 de Outubro de 1988).\u201d
O movimento indígena como voz de resistência 61
Os Povos Indígenas sempre foram considerados \u201cobstáculos ao desenvol-
vimento\u201d ou \u201ctutelados e incapazes\u201d. Deve-se levar em consideração que tais 
diagnósticos e defi nições foram determinadas pelo homem branco e sua visão 
colonizadora. Nunca foi possível um relacionamento bilateral ou de coopera-
ção mútua, mas sempre de imposição e dominação.
O Brasil de 200 milhões de pessoas e com um vasto celeiro de recursos 
minerais como ouro, nióbio, urânio e diamantes, ou ainda com recursos na-
turais como a biodiversidade, fonte medicinal e alimentar como as águas po-
táveis dos rios e correntes subterrâneas, trabalha com a fi rme convicção de 
que o tempo não pode esperar e, por uma ambição capitalista e economicista, 
é impositivo adentrar os territórios indígenas na busca de novas alternativas 
mercadológicas sem ter em conta o planejamento de impactos ambientais e 
muito menos indigenistas, para o uso e usufruto de tais recursos.
O Brasil Indígena possui 180 línguas vivas para 240 sociedades e povos 
distintos com direito reconhecido a quase 15% do território nacional e que 
ao longo do tempo perderam 75% do seu território original para formar esse 
grande país, com o sacrifício de mais de cinco milhões de pessoas. 
A questão indígena não é mais vista como uma missão exclusiva do Estado 
e seus especialistas. Com o reconhecimento de que os Povos Indígenas são 
sociedades distintas e fatores preponderantes para uma modernidade social-
mente justa e ambientalmente voltada para a sustentabilidade, cresce o com-
promisso indígena perante essa mesma modernidade, que sempre a excluiu 
em todos os processos
Mas essa constatação não isenta o Estado diante da falta de uma política 
indigenista ofi cial, ao contrário, nós, Povos Indígenas desde centros urbanos 
como São Paulo, Campo Grande, Manaus e até aqueles de vivência distinta e 
intacta em seus isolamentos voluntários, exigimos um planejamento estratégi-
co para sociedades distintas e enriquecedora nas formas de promoção ao bem 
comum na diversidade que distingue a cada uma de nossas populações. 
Ao mesmo tempo em que nós, Povos Indígenas, nos organizamos em 
movimentos diversos, o sistema governamental deve considerar a necessi-
dade de buscar com exemplos indígenas, novas alternativas de desenvol-
vimento sustentável no aproveitamento dos recursos naturais e minerais, 
comprometendo-se com a qualidade de vida de nossas comunidades através 
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de modelos de geração de renda que resulte em novos patamares socioeco-
nômicos para o bem viver.
A Política Indigenista deve estar gabaritada a partir de novos parâmetros 
de desenvolvimento de médio e longo prazo, executada e concentrada numa 
agência politicamente forte, com status de Ministério, capaz de responder as 
demandas dentro de um plano de metas com objetivos, prazos e resultados 
compatíveis.
É chegado o momento de exercitar o que está prescrito na Declaração da 
ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas aprovado em setembro de 2007, 
com aval do governo brasileiro:
Art. 31: 1) Os povos indígenas têm direito a manter, controlar, proteger e desen-
volver seu patrimônio cultural, seus conhecimentos tradicionais, suas expressões 
culturais tradicionais e as manifestações das suas ciências, tecnologias, culturas, 
compreendidos os recursos humanos e genéticos, as sementes, os medicamentos, 
o conhecimento das propriedades da fauna e da fl ora, as tradições orais, as litera-
turas, os desenhos, os esportes e os jogos tradicionais, e as artes visuais e interpre-
tativas. Também têm direito a manter, controlar, proteger e desenvolver sua pro-
priedade intelectual de dito patrimônio cultural, seus conhecimentos tradicionais 
e suas expressões culturais tradicionais.
2) Conjuntamente com os povos indígenas, os Estados adotarão medidas efi cazes 
para reconhecer e proteger o exercício desses direitos.
Art. 3: Os povos indígenas têm direito a livre determinação. Em