Indígenas do Brasil
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Indígenas do Brasil


DisciplinaHistória dos Povos Indígenas e Afro-descendentes2.086 materiais9.675 seguidores
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virtude desse 
direito, determinam livremente sua condição política e perseguem livremente seu 
desenvolvimento econômico, social e cultural.
O Brasil é reconhecido como um país que possui as melhores regras e leis 
de proteção aos Povos Indígenas, como a Constituição Federal, a Convenção 
169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a recente Declaração 
da ONU sobre os Direitos Indígenas.
Comprovadamente, a existência dos Povos Indígenas contribui com o con-
ceito mundial e o respeito do Brasil como um país megadiverso.
São situações reais que expõem a atuação governamental e nós, Povos In-
dígenas, quando não existe uma política indigenista em pauta, mas soluções 
superfi ciais e imediatistas.
O movimento indígena como voz de resistência 63
O Brasil que nasceu do sangue indígena não pode mais aceitar e esperar 
que critérios políticos ou partidários determinem o modelo de relacionamento 
e de construção de uma política indigenista ofi cial.
Por tudo isso, o Brasil deve reconhecer a existência de um holocausto in-
dígena e uma dívida moral e histórica do passado e ainda presente. Uma dí-
vida que o governo do Brasil não consegue pagar e que aumenta a cada falta 
de política pública e proteção aos direitos essenciais desses povos que ainda 
permanecem e são reconhecidos como fontes de equilíbrio e valor estratégico 
para o futuro melhor.
Finalmente, dentro de uma análise sobre Movimento Indígena e Política 
Indigenista, não podemos esquecer que essa é uma luta pelo poder.
Nossa arma não está apenas na diplomação, mas na força espiritual de 
nossas tradições que nos inspira a cada amanhecer, contextualizada no texto 
abaixo na Rio-92 como a Declaração da Kari-Oca:
\u201cNós, Povos Indígenas das Américas, Ásia, África, Austrália, Europa e Pacífi co, 
unidos em uma só voz na Aldeia Kari-Oca, expressamos a nossa gratidão coletiva 
aos Povos Indígenas do Brasil.
Inspirados por este encontro histórico, celebramos a unidade espiritual dos Povos 
Indígenas com a Terra e nossos antepassados.
Continuamos construindo e formulando nosso compromisso mútuo de salvar a 
nossa Mãe Terra.
Nós, Povos Indígenas, apoiamos como nossa responsabilidade coletiva para que 
nossas mentes e nossas vozes continuem no futuro a seguinte Declaração:
Nós, Povos Indígenas, caminhamos em direção ao futuro nas trilhas dos nossos 
antepassados.
Do maior ao menor ser vivente, das quatro direções do ar, da água, da terra e das 
montanhas, o Criador nos colocou a nós Povos Indígenas em nossa Terra, que é 
nossa Mãe.
Os rastros de nossos antepassados estão permanentemente gravados nas terras de 
nossos Povos.
Nós, Povos Indígenas, mantemos nossos direitos inerentes a autodeterminação.
Sempre tivemos o direito de decidir as nossas próprias formas de governo, de usar 
nossas próprias leis, de criar e educar nossos fi lhos, direito a nossa própria identi-
dade cultural sem interferências.
64 Indígenas no Brasil
Continuamos mantendo nossos direitos inalienáveis a nossas terras e territórios, e 
a todos os nossos recursos do solo e do subsolo e das nossas águas.
Afi rmamos nossa continua responsabilidade de passar todos esses direitos as gera-
ções futuras.
Não podemos ser desalojados de nossas terras.
Nós, Povos Indígenas, estamos unidos pelo círculo da vida em nossas terras e 
nosso meio ambiente.
Nós, Povos Indígenas, caminhamos em direção ao futuro, nas trilhas dos nossos 
antepassados!
(fi rmado na Aldeia Kari-Oca, Brasil, em 30 de maio de 1992)
Povos indígenas, preconceito e 
ativismo político: 
A luta contra a percepção colonial dos 
indígenas no Brasil contemporâneo
Antonio Carlos de Souza Lima
Sergio Ricardo Rodrigues Castilho
\u201cNinguém é melhor, ninguém é pior. A gente só somos diferentes, 
mas este respeito não é recíproco. Porque o não-índio, ele tá acostu-
mado a rotular tudo o que ele vê. Pra ele o índio é assim e, se não for 
assim, não é índio. \u201cÍndio na cidade grande? Índio indo pra Brasília 
brigar por direitos? Ah, não é índio. Índio é pra tá na mata. Índio é 
pra tá no meio da selva\u201d. (Liderança indígena do povo Tuxá, Bahia)
Como hoje, após mais de duas décadas da Constituição de 1988 e de sua de-claração do Brasil como um país pluriétnico, o \u201ccidadão comum\u201d, o \u201cbrasi-
leiro médio\u201d, ou a \u201copinião pública\u201d, qualquer um desses constructos de existên-
cia imaginária, concebem os povos indígenas no Brasil? No fi nal dessa primeira 
década do século XXI, o que se sabe e o que não se quer saber sobre os em torno 
de 817.963 indivíduos que se autodeclararam indígenas para os pesquisadores 
do IBGE no Censo de 2010, divididos em por volta de 230 povos, falando 180 
línguas distintas, compondo por volta de 0,4% da população brasileira?1 
Em contrapartida, como os povos indígenas, cuja ação política viabilizou 
mudanças signifi cativas inscritas na Constituição de 1988, na ratifi cação da 
Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que tem 
1 Os dados do censo de 2010 no tocante à população indígena estão disponíveis em http://
www.ibge.gov.br/indigenas/indigena_censo2010.pdf, consultado em 24 de julho de 2012.
66 Indígenas no Brasil
sido a baliza contra desmandos dos poderes públicos que não cessaram de 
existir, pensam e reagem a tais imagens? Em especial, como seus líderes-me-
diadores em maior contato com os mundos políticos dominantes no Brasil, se 
colocam diante dos cenários de discriminação institucionalizada? 
Em função de muita luta desde os anos 1970 até hoje, os indígenas tiveram 
suas demandas por terra materializadas em 678 territórios indígenas disper-
sos por quase todos os estados da federação brasileira, numa área total de em 
torno de 112.703.122 hectares2. Na região da Amazônia Legal, localizam-se 
414 dessas terras num total de 110.970.489 hectares que ocupam 21,73% 
desse espaço do território brasileiro, segundo estimativas do Instituto Socio-
ambiental. Nessa região do Brasil também se concentram, numericamente, as 
\u201corganizações indígenas\u201d, nas quais, sobretudo após a Constituição de 1988, 
os índios estão articulados para a luta política e para o monitoramento das 
ações de Estado a eles direcionadas.
As terras indígenas perfazem em torno de 13,1% de todas as terras bra-
sileiras, sendo das mais ricas \u2013 e das mais cobiçadas \u2013 em recursos naturais 
(biodiversidade e recursos minerais), e das raras áreas preservadas num país 
cada vez mais devastado pelo extrativismo selvagem, pelas queimadas de fl o-
restas para transformá-las em carvão, ou abrir pasto a gado, cana ou soja pelo 
agronegócio, pela exploração mineral. Na prática, muitas delas estão invadidas 
e os povos indígenas nelas encerrados não têm contado com políticas governa-
mentais de suporte à sua exploração em moldes sustentáveis3.
Os líderes indígenas sabem dessas conquistas, mas sabem também de sua 
relatividade e do quanto podem ser precários esses grandes avanços. As lide-
ranças indígenas sabem o quanto o conhecimento público da questão indí-
2 Dados elaborados pelo Instituto Socioambiental, disponíveis em http://pib.socioambiental.
org/pt/c/0/1/2/situacao-juridica-das-tis-hoje consulta feita em 24 de julho de 2012.
3 Se considerarmos este ponto, os condicionantes apresentados pelo STF no caso de Raposa 
Serra do Sol, assumem uma dimensão muito preocupante. Veja-se sobre este ponto Carneiro 
Filho, Arnaldo & Souza, Oswaldo Braga de. Atlas das pressões e ameaças às terras indígenas 
da Amazônia Brasileira. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2009. A Fundação Joaquim 
Nabuco prepara, sob a coordenação de João Pacheco de Oliveira, uma nova versão do Atlas 
das Terras Indígenas do Nordeste (Rio de Janeiro: Projeto Estudo sobre Terras Indígenas no 
Brasil/Museu Nacional-UFRJ, 1993) e o Centro de Trabalho Indigenista tem um importan-
te conjunto de trabalhos na temática territorial, em especial sobre a questão guarani no sul 
do Brasil.